sexta-feira, junho 26, 2009

Michael Jackson


As redes sociais Twitter e Facebook foram as primeiras - as mais rápidas - fontes de divulgação da morte de Michael Jackson.

25 de Junho, quase meia-noite, hora de Portugal - a CNN ainda anuncia o estado de coma de Michael Jackson, hesitando na confirmação da morte do artista, já na Wikipédia tinha sido actualizada a página biográfica do "rei da pop" com os dados da sua morte.

Ficam os factos para reflexão.

quinta-feira, junho 25, 2009

Vitela ali na mesa


Alguns professores (ou alguém em nome da classe) decidiram "realizar" e difundir um pequeno vídeo, um clip, que se propõe "trazer para a primeira página a questão das reformas destruidoras promovidas pelo Ministério da Educação".

Tudo estaria bem, nada justificaria este comentário, não fosse o vídeo em questão ser uma vergonhosa cópia, um descarado plágio, do pequeno filme Mankind is no Island feito com telemóvel, que ganhou o prémio de melhor curta metragem do mundo e que rapidamente obteve consagração e divulgação internacional.
O mail que embrulha o convite viral ao visionamento do vídeo dos "professores" refere ingenuamente: "já esteve no YouTube mas (estranhamente) foi bloqueado"... ora, porque terá sido, senhores realizadores/professores?
Há uma enorme diferença entre Mankind is no Island e o plágio Professores Unidos - o primeiro é genial, o segundo é medíocre.
Pela qualidade formal e pelas causas que agitam, comparar ou querer equivaler um ao outro seria a mesma coisa que confundir vitela à milanesa com vitela ali na mesa.

Os "realizadores" deste viral assumem, erradamente, que apontar a câmara para o mesmo local significa obter os mesmos resultados... que imitar o artista significa fazer arte... e, igualmente, confundem tique com estilo, presunção com qualidade.

Copiar, é um péssimo exemplo para professores.

Copiar às escondidas é ainda pior e chama-se cabular.

Exibir desavergonhadamente a cábula, nos meus tempos de aluno dava falta de castigo.

O vídeo "dos professores" não merece visionamento, sequer.
Mas o mail que o dissemina roga com clareza: "Toca a clicar... O objectivo é conseguir o maior número de visualizações possível, de forma a que o vídeo passe a ter destaque na página principal do Sapo Vídeos. Quem sabe se não conseguimos mais uma atenção nos media nacionais".
(Imagem: Aquamanil, vaso persa, 1206)

terça-feira, junho 09, 2009

Eleições I - A noite em que os partidos voltaram a não perceber nada do que se está a passar


É sempre bonito ver todos os partidos contentes, satisfeitos com o resultado eleitoral.
Ontem, foi a noite em que toda a gente venceu, como explicou Ricardo Araújo Pereira, na SIC.

O PSD venceu porque ganhou ao PS.
O PS venceu porque sobreviveu às dificuldades.
O Bloco de Esquerda venceu porque ultrapassou o PCP.
A CDU venceu porque o PC vence sempre.
O CDS venceu porque ganhou às sondagens.

Contabilize-se também a vitória de 6 milhões de portugueses (200 milhões de europeus) que votaram... as urnas ao abandono.
E sairam naturalmente vencedoras as mentes hipócritas que acham que não votar é sinal de ignorância, de irresponsabilidade e apropriado a quem não tem preocupações sociais. Venceram, porque são invencíveis na presunção e no convencimento. Nenhum argumento conseguirá demovê-los. Cabeças destas são o maior estímulo ao incremento da abstenção.

Haverá diferentes razões para a abstenção. Uma delas traduz um veemente voto de protesto. Protesto contra a actuação de políticos e partidos. Contra as soluções em oferta.
Muita gente terá decidido não votar, não por indiferença ou comodismo, mas por reconhecer utilidade estratégica no acto – por sentir necessidade de incomodar os políticos (autistas, falsos e ineficientes, quando instalados) sabendo que a abstenção é o que mais os pode perturbar.

A líder do partido vencedor, Manuela Ferreira Leite, referiu ontem no discurso de vitoria: “Dos resultados eleitorais há que sublinhar, em primeiro lugar, o elevado nível de abstenção. Este facto, que não é novo, tem necessariamente de conduzir à ponderação e à correcção das suas causas. Infelizmente é uma questão que todos refereciam nas noites eleitorais, mas que no dia seguinte deixa de estar na agenda dos responsáveis políticos.
Um tiro no pé!
Vamos aguardar uns meses até perguntar à líder e ao partido, o que terão, entretanto, feito para corrigir a situação e agir de acordo com o sentido das palavras da noite eleitoral – nada, seguramente!
Esta hipocrisia, esta diferença entre praxis e teoria, só pode contribuir para o incremento do abstencionismo militante ou da indiferença.

Na noite de ontem ficaram algumas perguntas por responder:
- inimaginável! Porque chorou Paulo Portas de alegria, na noite em que "trotskistas" ultrapassaram "democratas-cristãos" (segundo a nomenclatura do próprio)?
- nas últimas Europeias, em 2004, o PSD obteve 33% dos votos, e perdeu as eleições. Ontem, ganhou-as com 31%. O que é que celebra?
- ...porque será? É tão evidente que o PSD não esperava estes resultados, não estava preparado para a vitória! Desde o primeiro, nenhum discurso de vitória tem sido prospectivo, virado para o futuro, mas, pelo contrário, são ressabiados, virados contra o derrotado.
Na semântica da vitória as pobres cabeças do PSD continuam insistentemente a exorcizar o passado, a fazer a carpição e o pranto de oposição, a que estão habituados.

Em resumo, estes resultados eleitorais trouxeram-nos a alegria de ver castigado o partido e o governo que tem gerido mal o país, com arrogância, mas deixam-me também um amargo de boca... aliás, dois:
- a oposição, a alternativa de governação ao PS (à direita, porque a outra só conta em termos parlamentares), é ainda mais incompetente que o próprio governo. Isso é notório, e não augura nada de bom.
- os resultados eleitorais internacionais viabilizam a permanência de Durão Barroso na Presidência da Comissão. Vamos continuar a levar com essa nódoa política que nos envergonha por tudo, e ainda mais por falar a nossa língua.

Já que a eleição era europeia, fica aqui mais um registo, vindo de um círculo eleitoral bem distante do nosso - na Suécia, o Partido Pirata elegeu um deputado ao arrecadar 7,1% dos votos nacionais.
O Partido Pirata que reivindica a livre circulação e download de ficheiros – música, filmes, etc. (eMule, torrents, por ex.) exige uma “nova ordem internacional” quanto às políticas de direitos autorais, de liberdade de utilização das redes informáticas, contra a regulação da net ao serviço dos interesses corporativos e multinacionais.
A velha Europa ainda nos traz destas alegrias. Quem disse que somos um continente envelhecido?
Há alguém por aí que alinhe em formar o PPP – Partido Pirata Português?

quarta-feira, junho 03, 2009

Western Pita Shoarma


Março de 2006, Mahmoudiya, arredores de Bagdad.
Steven Green, um cabo para-quedista norte-americano destacado num pequeno aquartelamento cuja missão era vigiar um cruzamento de duas estradas nacionais, resolveu quebrar a rotina das enfadonhas noites de calor e bebedeira com whisky iraquiano e animar o serão dos camaradas de combate com dose reforçada de adrenalina.
Planeou uma noite memorável, uma festa que só o sangue árabe lhe poderia proporcionar.
Green e quatro soldados amigos equiparam-se com roupa interior preta – ninja suits, como lhe chamam em combate – e bem bebidos, com os vapores do whisky marado a bater, escaparam-se à surrapa do aquartelamento, dirigindo-se a uma casa nas proximidades, uma moradia rural isolada, a escassa centena de metros do aquartelamento militar.
Já sabiam quem iam encontrar.

Arrombaram a porta, entraram em casa e isolaram a filha mais velha da família, a jovem Abeer Qasim Hamza, de 14 anos.
Steven, sempre o mais ousado do grupo, arrastou o pai, a mãe e a irmã de 5 anos, para um quarto anexo e matou-os sumariamente com tiros na cabeça.
Aliviado, regressou à sala onde os companheiros se divertiam a violar a jovem iraquiana de 14 anos exclamando: - Já está! Matei-os a todos!
Dedicou-se então a partilhar com os companheiros o corpo da jovem Abeer Qasim
Aquele corpo virgem já lhe tinha passado pelas mãos nas revistas de checkpoint, mas agora ia poder consumi-lo com prazer descartável.
Consumada a satisfação, Steven tapa a cabeça da jovem com uma almofada e dispara vários tiros, desfazendo-lhe o crânio.
Antes da retirada incendeiam o corpo violado e a casa, para destruição de pistas e regressam ao aquartelamento, para descansar.

Havia já algum tempo que aquela família iraquiana lhes andava debaixo de olho – a jovem Abeer Qasim, sobretudo.
Diariamente, no regresso da família a casa, a monotonia do deserto ganhava alguma animação: no checkpoint, contra a parede e de arma bem apontada à nuca, a pretexto dessa abstracção que é a ameaça terrorista, aproveitavam-se para revistar Abeer Qasim, humilhando-a, apalpando-a com grotesco detalhe táctil, nos seios e nas coxas.
Na privação da guerra, aqueles momentos de volúpia eram pólvora para o pequeno grupo de soldados. Abeer Qasim, a jovem iraquiana, aguçava-lhes o desejo, dia após dia. A vontade de gang-rape já lhes rangia os dentes, talvez por ser a única presença feminina, com um corpo apetitoso de mulher já feita, escondido pelas roupas tradicionais, pouco atraentes.
Abeer Qasim tinha referido em família o medo dos soldados americanos e tinha pedido para mudar temporariamente para casa dos tios, mas o pai tinha desvalorizado o assunto.

Um irmão de Abeer Qasim, único sobrevivente da família, um rapaz de 13 anos que na noite do massacre não se encontrava em casa, foi a peça fundamental para desvendar e reconstruir as razões do crime.

Durante meses as autoridades militares americanas teimaram em atribuir o massacre de Mahmoudiya à violência civil iraquiana.
Foi preciso muito tempo e a paciência inesgotável dos investigadores iraquianos, que coleccionaram um conjunto inquestionável de provas, para que o assunto passasse de mera carpição muçulmana, atravessasse fronteiras e sensibilizasse a justiça americana a levar o caso a julgamento. Steven Green já tinha regressado a casa, depois de ter sido despedido do exército por sindroma de personalidade anti-social e por revelar obsessão por matar árabes – admitiram os seus chefes militares.
Quando o destemido soldado Green foi agarrado pela polícia federal, na Carolina do Sul, regressava do funeral de um soldado americano caido em combate e preparava-se para levar a avozinha ao cinema. Limitou-se a comentar aos agentes: - Já sabia que haviam de aparecer para me vir buscar.
As sessões de julgamento que se seguiram tiveram pouco interesse para o confronto da matéria de prova, mas foram muito animadas na audição das bizarras confissões de Green, que desapaixonadamente reconheceu ter querido ir para a guerra porque lhe andava a apetecer matar pessoas, o que é complicado de realizar nos EUA.
Admitiu estar deliciado com o facto de, no Iraque, se poder matar com a mesma facilidade com que se esmaga uma formiga e que isso lhe enchia o peito de adrenalina.
- Matei um tipo que não tinha parado num checkpoint e a partir daí tomei-lhe o gosto. Mata-se um tipo e é como “Meu! Agora vamos mas é comer uma pizza!” – disse Green no tribunal.

O julgamento terminou há dias, em Maio de 2009. Steven Green foi condenado por 17 crimes de violação e homicídio, entre outros. Ainda assim, os jurados do tribunal federal de Kentucky não conseguiram unanimidade na pena a aplicar.
Nove mulheres e três homens, o júri que na derradeira sessão do julgamento precisou de mais de 10 horas para discutir o caso, entendeu que o stress de combate e o ambiente hostil vivido no triângulo da morte, em Bagdad, eram condicionantes do desvio comportamental do soldado Green. Por consequência, Steven Green viu a sentença comutada de pena de morte para prisão perpétua.

O stress de combate dificilmente conduz à violação de uma rapariga de 14 anos, mas o júri, ou parte dele, foi seguramente sensível ao apelo de Scott Wendelsdorf, o advogado de defesa judeu que, nas alegações finais, gritava com os olhos postos nos jurados: - Poupem este rapaz! A América não mata os seus combatentes falhados. Por amor de Deus, poupem-no!

Os outros quatro companheiros de Steven no gang-rape de Mahmoudiya, foram julgados em tribunal militar e receberam penas que vão de 27 meses a 110 anos de prisão, com liberdade condicional daqui a 10 anos, no caso das penas mais severas.

Num sistema judicial tido como eficaz, num país onde matar com crueldade conduz frequentemente à pena capital, numa sociedade acossada pela paranóia securitária onde deixar cair uma garrafa de água no aeroporto pode desencadear o estado sítio... a justiça continua a ter ascendente de classe, de preço e de cor ou etnia.
Como há um século, na conquista do Oeste, matar índios era um gesto heróico celebrizado na cultura cinematográfica do western; nos dias que correm continua a haver quem faça da intervenção no Iraque a mesma leitura primitiva dos bons que matam os maus, ao jeito da mais barata produção western – já não a spaguetti, mas neste caso a pita shoarma.

- Fui para lá (Iraque) porque queria matar pessoas. – confessou serenamente Steven Green no julgamento.
- Todos os meus companheiros estavam a tombar, a morrer na guerra. O alferes do meu batalhão morreu-me nos braços, de crânio desfeito.
Quem deveria estar agora aqui, preso e a ser julgado, era George Bush e Dick Cheney.
Steven Green cresceu em Midland, no Texas, a cidade onde também cresceu e foi criado George W. Bush, o homem que ideologicamente o inspirava quando em 2005 se alistou no exército, para se libertar de uma vida de problemas, de droga, álcool e pequenos crimes.

O caldo ideológico americano suporta de tudo um pouco, valha-nos isso.
Embora o incidente seja recente, o desfecho do julgamento é da semana passada (21 Maio 2009), os movimentos cívicos e os activistas sociais americanos não perderam tempo para puxar o assunto, trazendo-o à luz dos media internacionais.
No Outono de 2007 Brian de Palma estreou o filme Redacted que trabalha em versão meio documental meio ficcionada o massacre de Mahmoudiya.
O antigo jornalista da TIME, Jim Frederick, está a escrever um livro sobre o assunto, com o título Black Hearts, com edição prevista para a primavera de 2010.

Na semana em que a América celebra os mártires de guerra no Memorial Day, eu gostaria de lembrar e celebrar também as vítimas civis que tombaram inocentes, não para que o mundo respirasse mais liberdade e segurança, mas sacrificadas à satisfação dos interesses hegemónicos da oligarquia americana.