domingo, outubro 20, 2019

Caselas, Lisboa, Outubro 2019, final da tarde.

terça-feira, julho 02, 2019

Lisboa adúltera


Bastaram-me trezentos metros a descer a rua do Alecrim e assomar cá ao fundo na rua de S. Paulo para perceber o que se está a passar na cidade. Qual gentrificação?! O que se passa é bem mais elaborado e modernista. Não é a cidade, é o mundo inteiro a transformar-se, a caminhar para um futuro que ainda não conhecemos. Por isso viajamos tanto. Somos formigas ansiosas em carreiros low cost. Anda toda a gente a viajar para qualquer destino enquanto pode, enquanto souber viajar.
Eu levava a cadela pela trela porque íamos ao veterinário ali em São Paulo. O passeio é estreito e os eléctricos passam rente, não se desviam - os eléctricos nunca se desviam - numa tira acanhada de calçada estragada, romântico decay como o turista gosta, pouco funcional e ao longo do novo pulsar do negócio urbano: tascas transformadas em lounge bar, outras em snack baguette, retrosarias que passaram a cash converters e paredes agora ATM onde antes havia multibanco. A cadela confinada a meio metro de trela, entre a parede com cheiro a cerveja mal mijada e o carril do eléctrico. Tudo está diferente.
Estranho. Turista na minha cidade, eu era agora o alvo de outros olhares, porque era diferente, “olha um autóctone com uma cadela pela trela e o dossier das vacinas debaixo do braço, so cute!” Nunca uma ida ao veterinário tinha derivado tão instagramável. Há gente com trolleys de cabine pela trela, a arrastar o rodado na calçada alfacinha, mas um gajo com uma cadela “gotta be a local”, porque ninguém faz airbnb com uma cadela, a menos que seja em sentido figurado.
Chegam todos os dias aos milhares, enchem as ruas de Lisboa para virem fazer aqui o mesmo que fazem na terra deles. As mesmas video-chamadas de whatsapp, os mesmos tanqueray e cappuccinos em mesas de terrace onde se fumam cigarros electrónicos, com a mesma música lounge. E eu, na ânsia de me mostrar hospitaleiro, didático, “no, we‘re not used to drink cappuccino, we usually drink bica, you know, tipical Portuguese coffee, yeah, bee-ka. There’s also garoto and italiana, that means kid and italian female...” Como é que se explica a uma finlandesa o que são os Santos Populares?, “now we have the popular saints, you know, parties all over and marchas... it means marches.”
Useless.
Há quem venha de Tankavaara na Lapónia, visitar Lisboa, o que se compreende porque têm nove semanas de noite e no outro solstício outro tanto de lusco-fusco a que chamam dia. Mas há também quem venha de Velika Gorika que fica a setenta cêntimos de autocarro do aeroporto de Zagreb, porque compensa. Há quem venha de Catânia, na Sicília, e insista em registar-se no hostel como romano do sul, para evitar o preconceito. Há quem venha de Nizhni Novgorod converter em super bock os rublos extra que a fábrica lhe concedeu por ter aceitado renunciar a direitos laborais, e há até quem venha de Valea Dragului na Roménia para realizar uns trocos e umas carteiras no eléctrico 28.
Tomemos o exemplo de Tankavaara onde nunca fui, mas de onde vem a Bengta (acho que é assim que se escreve, retive apenas a fonética do nome, já estávamos um pouco toldados pelo ensolarado que batia nos copos de gin), “what a wonderful city you have, João, you gotta be so proud” - uma ideia para que nunca fui preparado, o orgulho municipal. Dito assim, soou-me a antítese daquele outro sentimento que se me apodera quando chega o IMI para pagar.
Pensei que poderia retribuir referindo qualquer coisa de elegante sobre a Finlândia: nokia, vodka, suomi... não, tudo muito fraco, nada de consistente me ocorreu. Optei por um “que experiência, goddamnit!, deve ser remarkable ter vivido paredes-meias com a velha Rússia bolchevique, São Petersburgo/Leningrado aí ao lado!”, mas traduzi paredes-meias por “so close to” - mau resultado, enfraqueceu a semântica. Pouco sei sobre a Finlândia e o que eu queria mesmo era conduzir a conversa para S. Petersburgo, depois para o Hermitage, a seguir para o Sokurov e o Arca Russa, aí estaria à vontade para falar seguramente mais meia hora - tenho territórios também - até que a lascividade do álcool viesse enfadar as palavras e do silêncio crescessem olhares e carícias, e antes que a Bengta pudesse disparar um mortal “gotta go!”, o que veio a acontecer. Mortal para mim, providencial para a cadela, farta do deck do lounge e talvez enjoada pelo efeito da antirrábica.
O mundo está a mudar.
Talvez não muito mais que nas outras vezes em que também mudou. Mas agora estamos a vê-lo mudar, passa-se tudo aqui ao fundo da rua.
As cidades, a minha cidade está a transfigurar-se. Mas para que servem as cidades senão para se submeterem à transformação. Eu gosto da Lisboa insurgente e acidentada, avessa a tipificações. Sempre a senti assim, calçada debaixo dos meus pés. Lisboa adúltera, empresto-a por uns tempos, não me importo, a quem vier fruí-la. Depois, madura, experiente e cansada, voltará a ser nossa. Só nós sabemos cuidar dela... “we are alfacinhas, you know, just like little lettuces, all words starting with al- have Arabic origin, you understand?”

terça-feira, abril 18, 2017

Zona raiana - Abril 2017

photos by Joao Salvado

sábado, abril 15, 2017

sexta-feira santa

Claro que é rebeldia esta forma como exacerbo alguns comportamentos.
Puxo conversas sobre pitéus de cabidela ou costeletão de novilho, quando vou jantar a casa de amigos vegan; se educadamente me pedem que me abstenha de referir atrocidades animais, que razões ideológicas os impedem de falar sobre o assunto, eu disparo então sobre estudos científicos que provam o sofrimento do vegetal à beira da mastigação: a rúcula e o coentro que se apercebem da morte ao ver chover o tempero sobre a saladeira; a couve coração que perdeu a vida, inglória, no ritual de um festim sem glúten.
Também por rebeldia, esta é a única sexta-feira em que não prescindo de me banquetear com enfartados rodízios de carne vermelha.
Desnecessário, eu sei. Mas assim sou eu, Maria da Graça, portuguesa de 52 anos, moradora em Arroios - essa espécie de Tribeca lisboeta. Contraí o ateísmo em tenra idade. Valeu-me ter nascido filha de pais tolerantes, moldados pelos anos do amargo reviralho, que me aceitaram como sou, por amor, e contra a opinião do Dr. Passos do centro de saúde, que sempre lhes disse “levem-na a Fátima, pode ser que isso lhe passe” - o Passos morreu dois anos depois, de cancro do pâncreas, fulminante.
Muito nova, mas já rebelde, saí de casa e andei perdida durante meses na América do Sul onde cheguei a infectar-me de marxismo. Primeiro, na Argentina, na versão trotskista; depois, mais acima, na versão bolivarista, talvez mesmo guevarista, por causa de um gadelhudo de barba rala por quem me apaixonei em Machu Picchu. Um amor que durou quase dois meses.
Mais tarde e mais a norte, a persistência solar, alguma tequilha e a diversidade cromática, levaram-me a abandonar a causa “obrera” e aproximar-me definitivamente das manifestações do livre pensamento artístico. Andei pelas Artes e pela libertinagem moral - de onde nunca saí, em boa verdade. Alimentei na altura, um particular apreço por Frida Kahlo, ou por aquilo que ela representava, principalmente o desprendimento pelo corpo, a forma de o deixar viver, a ousadia de o libertar de atavios - a versão monocelha, por exemplo, sempre me fascinou.
Valeram-me os anos em que me senti possuída desse encantamento, até regressar a casa onde iniciei esta existência cinzenta de onde agora vos escrevo - mais anémica que académica - de uma modesta professora da António Arroio.
Aqui estou, hoje, sendo o que sou e fazendo a gestão possível do que aprendi e por onde passei.
E lembrei-me: que pena, na altura, naquele tempo, não ter tido atrevimento para subir ainda mais em latitude, e ir perder-me na generosidade dos costumes do Midwest, aprendendo aí os fundamentos da pós-modernidade política, tão actuais e que tanta falta me fizeram nesta última semana. Bem podia ter aqui opinado sobre a miudagem de Torremolinos, os gays da Chechénia, o Canelas, o Samaris e os cânticos da claque do Porto, ou a madrasta de todas as bombas e a sobremesa de chocolate do Trump antes do ataque à Síria.
Sendo que “pós-moderna” é mesmo (mais que a qualidade dos temas a debate) a forma como todos aderimos à narrativa fragmentada, à rejeição da linearidade, no modo como lemos a actualidade. Espezinhamos cada assunto com dois likes e um comentário, saltando depressa para o tema seguinte, que se faz tarde e que a actualidade é o AGORA, todo o resto já foi.
Hoje, graças a deus, lá me ligou pelo fixo, a tia Eugénia, de Grijó de Parada, a única irmã ainda viva do avô Lourenço que deus tem. Ela, alheia a pós-modernismos, mantém-se agarrada às narrativas lineares, sem que nunca tenha lido Proust, Virginia Woolf ou James Joyce.
Para a tia Eugénia, adaptada a esse solilóquio transmontano que cultiva e mede a passagem dos dias, há o Entrudo, segue-se a Quaresma e depois vem a Páscoa - e esta previsibilidade sequencial alimenta-a a em Felicidade, que inveja.
E pensei cá para mim: “se as pessoas me ligam, se são atenciosas e simpáticas, é porque se preocupam comigo e me querem ver feliz. Deixa estar, então. Por isso lhe agradeci e retribui: páscoa feliz também para si, tia Eugénia!”
Mas fiquei a pensar, inquisitiva, o que quererá dizer isso de “páscoa feliz”?

sexta-feira, abril 07, 2017

Magnus Bergstrom e um pequeno rebate xenófilo


Em boa verdade eu não sei quem foi Magnus Bergstrom (o nome leva um trema por cima do "o", que aqui declino porque não o encontro no teclado) mas assumo que tenha sido um linguista, um filólogo, um especialista em língua portuguesa; conhecido da maioria, talvez, sendo que apenas eu, que tenho andado a tratar da minha vida por outros lados, a mim me tenha escapado. Ou talvez tenha sido “apenas” um respeitável académico, um investigador fechado num gabinete ou numa sala de aulas.
Ainda que desfazer essa dúvida possa estar à curta distância de um click de google, eu prefiro não o saber, prefiro quedar-me a imaginar que Magnus Bergstrom é o homem com quem simpatizo.
Cheguei ao nome dele porque ressalta na capa do velhinho Prontuário Ortográfico que uso frequentemente como ferramenta indispensável para qualquer escrita - escrita é qualquer coisa que se ponha no papel, até um mail de resposta à companhia de seguros merece ser redigido em bom português - o recíproco, na troca de correspondência, já não é verdadeiro: “o cliente irá rececionar uma carta… onde o conteúdo por defeito…”
Eu uso uma edição velhinha e amarelada, datada de 1975, que serve muito bem, vai-se aguentando ao manuseamento e resiste às recentes tiradas contra-revolucionárias que têm desferido sobre a ortografia.
Cada vez que pego no velho prontuário lá está aquele nome estrangeiro, um dos autores da obra, um nome tão agradavelmente dissonante na fonética da minha língua. Foi isso que me chamou a atenção. Simpatizei com a diferença. O que também pode configurar um pequeno episódio de xenofilia.
O bom manejo da língua é um exercício exigente mas que merece ser exercitado em toda a parte. Aqui, por exemplo. Abro uma mensagem: “obrigado por ter aceite o meu pedido de amizade”. Fico logo triste quando a amizade começa com uma falta ao primeiro encontro marcado. Será que eu deveria responder de imediato, ferindo a amizade recente, assumindo frontalidade, quase arrogância, mas explicar “não é ter aceite, mas sim ter aceitado.”?
Outra coisa que verdadeiramente me encanita é a troca do verbo “dizer” pelo “falar”. Não sou mesmo nada transitivo a este “brasileirismo”: “...você falou que vinha cá na semana passada, mas não apareceu!” - claro que não pus lá os pés, a falarem comigo dessa maneira!
Cresci em redacções onde havia sempre três ou quatro “bíblias” sobre a secretária: o dicionário, a gramática, o prontuário ortográfico e o livro de estilo. Melhor, nalgumas o livro de estilo não existia em papel, era cantado, estava-nos na cabeça e na alma. Por exemplo, naquele tempo, ai daquele que no próximo mês de Maio viesse aqui chamar ao Papa “Santo Padre”, sabendo que estava a escrever para um universo laico.
Hoje tudo é diferente. Quando se escreve temos na tecla ao lado o Priberam ou a Diciopédia, o corrector de texto e o auto-complete, o Ciberdúvidas e a Wiki, ou qualquer App apropriada. Ainda assim pouca circunspecção e dejúrio merece o tratamento da nossa língua.
Lembro-me, uma tarde eu estava numa cidade de província do Paraná, já próximo da fronteira com o Paraguai, e alimentava uma conversa prosaica com uns conhecimentos recentes. Tudo gente local, brasileiros filhos de imigrantes ou imigrantes de segunda geração - ou melhor, colonos, porque no Novo Mundo o conceito de imigrante não é coincidente com o que temos aqui na Europa. Naquela tarde, assim eu tivesse guardado uma fotografia do momento, seria marcante analisar a diversidade de fácies nos interlocutores da conversa. Eu estava ali a falar com um lívido japonês; com dois loiros, um alemão e outro polaco; com outro mais escurinho, que era indiano; também um nordestino; um negro baiano; e acho que havia ainda um russo ou eslavo leste-europeu. Que torre de Babel... era como se tivéssemos reunido um mundo inteiro. Um mundo apartado pelas diferenças étnicas mas agregado por dois elementos sagrados que ali partilhávamos: o solo fértil que pisávamos, o solo brasileiro; e a plasticidade, a riqueza de uma língua comum, a língua portuguesa - qual esperanto, a minha língua! Todos ali, ligados, e era o meu lastro linguístico, o que me corre nas veias, que nos viabilizava a comunicação. Senti-me naquele momento acometido de um natural ataque de pieguice, difícil de justificar perante a amálgama de portadores de diferentes costumes e sentimentos - que orgulho patrimonial.
Por isso, Magnus Bergstrom, Carolina Michaelis (também ela leva trema), Lindley Cintra, Elza Paxeco, Lúcia Lepecki (e outros tantos que eu certamente desconheço), a todos muito obrigado pelo trabalho que dedicaram à língua portuguesa; quer tenhais nascido estrangeiros ou sejais portugueses de ascendência alienígena. Vós alimentais aqui o meu rebate xenófilo, que é igualmente um sentimento nobre e oportuno nos dias que correm, em que a aversão ao que é estranho e distante, nos predomina no pensamento.
Vós, para mim, sois como se um amigo de longe nos tivesse vindo ajudar a arrumar a casa.

Bem hajam.

quarta-feira, abril 05, 2017

O transplante e o desplante


Faltam seis meses, pouco mais, para que uma pequena equipa médica, em representação desse enorme lastro parental a que chamamos “toda a Humanidade”, proceda ao primeiro transplante de cabeça... que, de facto, consiste exactamente no inverso: uma cabeça vai receber, por transplante, um corpo inteiro. Um russo, de apelido Spiridonov, que sofre de atrofia muscular espinhal que lhe torna o corpo inútil, irá receber, em Dezembro, o corpo inteirinho de um qualquer dador, alguém funcionalmente saudável mas em morte cerebral.
O neurocirurgião italiano que anda há 30 anos a preparar a aventura, vai cortar a cabeça ao russo, arrefecê-la, colar cabeça boa ao corpo bom (vai demorar dia e meio e envolver 150 pessoas), deitar fora o outro par que não presta (cabeça e corpo estragados), e manter o novo indivíduo "recapitado" em coma induzido durante mais de um mês até a coisa estabilizar, para depois, se tudo correr bem, o senhor Spiridonov "ir" pela primeira vez à sua vida. Oxalá que sim.
Os pormenores da intervenção cirúrgica (lidos por aí), sendo de um inexcedível rigor científico, soam-me descomunalmente mórbidos. Mais tenebroso ainda, porque preocupante, é tudo o que lhe está por detrás, ou à frente; ora visível, ora dissimulado:
- a ciência e a tecnologia que já permitem fazer tudo, ou quase tudo;
- a ética que nos obrigaria a parar para pensar, mas infelizmente não temos tempo;
- algum mercantilismo (médico, entre outros) que se escapa pelos interstícios da ética e da regulação, oferecendo todas as soluções de "vida" a quem quer seja, desde que bem pagas;
- o livre arbítrio, que todos reivindicamos, de podermos fazer do nosso corpo aquilo que quisermos, até mesmo transformá-lo num bizarro “não-corpo”.
Começámos por achar normal retirar do corpo os sinais de deselegância e de envelhecimento - botox, plásticas, silicones, implantes. Também é normal e desejável substituir órgãos que deixaram de ser funcionais. Depois é aceitável não aceitar envelhecer. E, em última análise, não morrer. (Não valerá a pena ir procurar na ficção, na literatura, “saramaguista” ou outra, histórias premonitórias sobre o desaparecimento da morte).
A um outro nível: é aceitável resolver conflitos de identidade. Mudança de género - de homem para mulher, ou o inverso; mas até de homem ou mulher para nada, para assexuado, isto é, para “sem género”, apenas por opção.
Há ainda a clonagem, os estaminais, e tudo o que no limite se pode fazer, com dedo apurado, nas biotecnologias. E por aí fora...
Quando analisadas caso a caso, (quase) todas as intervenções são legítimas porque resolvem problemas, salvam vidas, poupam conflitos de identidade. Mas vistas em abstracto, como "tendência", muitas parecem actos contra-natura, ainda antes que alguém saque dos argumentos e das incidências religiosas.
Era bom que parássemos um bocadinho para pensar sobre estes assuntos - todos nós. Para termos ideias claras acerca dos limites que nos devemos impor. Ou não devemos impor limites?
Devíamos falar sobre isto.

Eu por mim estou disponível neste fim de semana. Não sei como estará a agenda do resto da Humanidade, mas como é dia de futebol, temo que o assunto ainda não fique resolvido desta vez.

quarta-feira, março 15, 2017

A saudade


Tenho saudades da leitura de jornais em papel e daquele desconforto dos braços esticados, para os broadsheet, mas bem mais agradável nos tablóides - no conteúdo dos artigos era talvez o inverso. Saudades do barulho do súbito folhear das páginas e até do cheiro a tinta e da sujidade que ela deixava nos dedos.
Tenho saudades de tocar nos botões de campainha, à porta - dois toques curtos, como quem anuncia “cheguei, fico aqui em baixo à tua espera”.
Até tenho saudades de esperar na bicha da cabina telefónica. De fazer cá fora um olhar intimidante para pressionar o demorado utilizador “sê telegráfico na conversa. Isto não é para vir para aqui namorar, há mais gente à espera!” e receber em troca, pelos quadradinhos envidraçados, um ambivalente sorriso amarelo que queria dizer simpatia para o interlocutor em linha mas desdém para quem ameaça de fora do abrigo.
Mas do que tenho mesmo muitas saudades é daquele embaraço ao balcão da capelista, quando ia levantar os rolos de fotografia que vinham da revelação - “tinha pedido em papel matte sem margens, não era? Veja lá se está tudo bem”. Eu abria o envelope e espreitava envergonhadamente duas ou três fotografias, salteadas “acho que sim, parece-me bem”. Só depois, já fora da loja, me atrevia no descaro de rever todas as fotografias e sentir, uma a uma, a confirmação da dúvida, da desilusão ou do prazer, e sobretudo da ânsia que cada um daqueles disparos de obturador tinha representado em momento próprio, que tão nítido ainda retinha na memória.