quarta-feira, março 15, 2017

A saudade


Tenho saudades da leitura de jornais em papel e daquele desconforto dos braços esticados, para os broadsheet, mas bem mais agradável nos tablóides - no conteúdo dos artigos era talvez o inverso. Saudades do barulho do súbito folhear das páginas e até do cheiro a tinta e da sujidade que ela deixava nos dedos.
Tenho saudades de tocar nos botões de campainha, à porta - dois toques curtos, como quem anuncia “cheguei, fico aqui em baixo à tua espera”.
Até tenho saudades de esperar na bicha da cabina telefónica. De fazer cá fora um olhar intimidante para pressionar o demorado utilizador “sê telegráfico na conversa. Isto não é para vir para aqui namorar, há mais gente à espera!” e receber em troca, pelos quadradinhos envidraçados, um ambivalente sorriso amarelo que queria dizer simpatia para o interlocutor em linha mas desdém para quem ameaça de fora do abrigo.
Mas do que tenho mesmo muitas saudades é daquele embaraço ao balcão da capelista, quando ia levantar os rolos de fotografia que vinham da revelação - “tinha pedido em papel matte sem margens, não era? Veja lá se está tudo bem”. Eu abria o envelope e espreitava envergonhadamente duas ou três fotografias, salteadas “acho que sim, parece-me bem”. Só depois, já fora da loja, me atrevia no descaro de rever todas as fotografias e sentir, uma a uma, a confirmação da dúvida, da desilusão ou do prazer, e sobretudo da ânsia que cada um daqueles disparos de obturador tinha representado em momento próprio, que tão nítido ainda retinha na memória.

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Me and my selfie

A pretexto de experimentar uma nova objectiva saí para a rua, para fazer umas fotografias. Escolhi um motivo. Era verão, a cidade estava cheia de turistas, decidi fazer selfies - aliás, pessoas que se fotografam em selfies. Em dois ou três dias fiz milhares de fotos das quais uma centena, nem isso, podem ser consideradas interessantes. A seguir resolvi inventar pequenas histórias à volta das fotos mais expressivas. São narrativas imaginadas sobre pessoas que não conheço e com quem me cruzei, e uni, nessa cumplicidade do instante fotográfico.

Aqui ficam três ou quatro exemplos.








quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Mulheres do Século XX



20th Century Women, “Mulheres do Século XX” é (para mim) a melhor surpresa das nomeações para os Oscars 2017.
É uma incursão do cinema mumblecore - a mais interessante corrente de cinema independente da última década - às portas de Hollywood. Um cinema que privilegia a estética ao espectáculo, a narrativa mental à acção, a extensão narrativa ao orçamento de produção. E que talvez por isso tenho criado anticorpos em Hollywood.
A carimbar a linhagem “mumblecore” está a actriz Greta Gerwig que assina com Annette Bening duas talentosas interpretações, em que Hollywood entendeu agora não reparar.
Um filme que nos fala da forma como “vivemos” - tirando eu aqui partido, no nosso português, da homografia dos diferentes tempos verbais, o presente e o pretérito.
O filme acomoda-se a uma única nomeação para os Oscars - a de candidato a melhor argumento original. Faltam-lhe certamente as nomeações para um ou dois papéis de interpretação, talvez para Melhor Realização ou para Melhor Filme, mas seguramente a de candidato ao melhor Production Design.
Está de parabéns Mike Mills que foi beber à sua infância a poética história em que aqui nos faz deliciosamente mergulhar, com uma motivação agravante no meu caso, fiquei apaixonado pela casa onde tudo aquilo se passa.

Um filme a não perder.

sábado, fevereiro 11, 2017


Praça do Comércio/Cais das colunas #1 - Lisboa
© photo by João Salvado
August 2013



Praça do Comércio/Cais das colunas #2 - Lisboa
© photo by João Salvado
August 2013

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

A Caixa de Fósforos

Aquilo que mais me encantou na “Caixa de Fósforos”, o livro de Nicholson Baker, quando o li há uns anos, foi a capacidade do escritor de nos impor a obrigatoriedade de pairar demoradamente sobre o tempo parado da narrativa.
O romance conta a história de um homem que todas as manhãs, muito cedo, acende a lareira e prepara a casa para acolher o frio dos dias, sempre envolvido em pequenas tarefas que lhe afogueiam longos pensamentos, que vai narrando. O gesto de riscar um fósforo para a lareira pode ser uma tarefa que, na minúcia do escritor, rende um capítulo inteiro de literatura.

A escrita infiltra-se nas frestas de um tempo que não existe, como num efeito cinematográfico de “time freeze” onde a acção parou, os intervenientes paralisaram, mas nós continuamos a andar por lá, alongando-nos na observação do momento. O que requer uma escrita de fragmentação, tão oposta aquela outra que impõe velocidade à narrativa com o objectivo de chegar rápido ao sumo do enredo, da trama, ao desembaraço da acção. É como viajar à solta num tempo parado, numa navegação de memória pelos interstícios reticulares do tempo. Penso nisso muitas vezes. Por exemplo, quando de manhã me envolvo no automatismo de preparar o café.

Por isso hoje decidi contar os gestos, os tiques que requer esta empreitada matinal de fazer café. Anotei-os no pequeno caderno onde guardo outras futilidades. São exactamente 49 passos desde o primeiro toque na cafeteira eléctrica até ao momento em que a chávena quente me toca os lábios .
Quase cinquenta pequenos movimentos, micro-tarefas, aberturas e fechos, giros e rodeios, alcances, abduções, afastamentos, impulsos e toques, que pratico ainda ensonado e de forma quase automática, instintivamente, onde a coordenação motora age independentemente do cérebro ainda semi adormecido. 

Depois do café, mais desperto, consultei as notas. O passo 14, por exemplo, refere o momento em que a pequena colher de madeira, em forma de pá, retoma o seu lugar dentro da lata, enterrando-se na moagem, empinada, em estaca, evitando que o cabo táctil onde os dedos deixam marca, contacte o pó enxuto.

Já os passos 20 e 21 referem momentos sensitivos: o primeiro é sonoro, quando começa a soar na máquina o gorgolar da água em fervura; o outro é olfativo, quando se sentem pela casa as exalações do aroma da bebida.

Esta fruição sensorial teve que ser acompanhada por uma outra ousadia, a de retirar para local inacessível a máquina nespresso. Renunciei à tecnologia do café de cápsula por razões ideológicas, ambientais, comerciais e outras. Agora regressado à envolvência bucólica que emerge desta história, revejo-me no gozo de me ir apeando de mecanizações excessivas. Da mesma forma, não haveria obra literária se porventura o protagonista de Nicholson Baker tivesse em casa ar condicionado em vez de lareira.

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Moonlight



Do que é que eu não gostei no (filme) Moonlight?
Houve apenas uma coisa que me incomodou. E incomodou bastante.

Não, não foi o tema da homossexualidade, que isso é assunto mais que acomodado nos tempos que correm - talvez ainda não acomodado por toda a gente, mas para gente como nós, que ainda tem 7 euros para pagar por uma cadeira de cinema, os desígnios da sexualidade, nas diversas variações de género, representam apenas factores de coloração da entrega dos afectos.

Não, também não foi o black trash suburbano de Miami, os ghetto dwellers, os crack head neighbors dos arredores, a desestruturação familiar, a toxicodependência parental, que para ver isso não é preciso ir aos slums da América, temos por cá equivalente.
Também não foi o cerco da realização cinematográfica (ou da “cinematografia”, se quisermos), angustiante, quase claustrofóbica, de curta distância focal, de fundos desfocados, da câmara handheld que olha a acção e se mexe misturada com os protagonistas; nem sequer das cores saturadas, duras, intencionalmente a queimar.

Não foi nada isso.

O que me incomodou verdadeiramente foi um detalhe da longa cena final (supostamente o desenlace romântico da história) em que "lover um" revisita "lover dois", na lanchonete do segundo. O intimismo do encontro mereceu ser celebrado com um bom vinho e lá vem então a garrafa de um tinto (provavelmente) italiano, quando - pasme-se - é bebido à americana. Ou seja, em copos de plástico modelo highball ou parecido, altos e de cor, adequados a servir água ou refrigerante.

Aí o drama romântico, para mim, parou. Veio-me à garganta aquele refluxo de antipatia cultural, de distância àquela América que bebe cerveja pela lata, mas também bebe whiskey pela garrafa e haveria de beber de igual forma, se o apanhasse, um Château Lafite Rothschild… ou não, porque no copo sempre se poderia misturar gelo e seven-up.

É a América que come à mesa só com garfo, a outra mão pousada sobre o joelho. Aquela América que numas coisas é tanto à frente e noutras quase debutante em civilização.
Foi apenas isso que me incomodou no Moonlight. E assumi que o detalhe não terá sido posto na fita sob um olhar crítico, ou como elemento semiótico e significante da dramaturgia. Está lá e daquela maneira porque é intrínseco à cultura americana. Faz parte.
É a terra e a cultura onde uma vez embasbaquei um anfitrião porque lhe pedi se podia, faz favor, ter um copo para beber a cerveja.


(Onde se lê “América”, deve ler-se sempre “Estados Unidos”.)

domingo, fevereiro 05, 2017

Quando são as memórias a lembrar-se de nós...


Saíamos do cinema às três da manhã e ainda íamos à Alga comer um bife. O Quarteto tinha sessões da meia noite, dois filmes de culto que só cabeças refrescadas como a do Pedro Bandeira Freire conseguiam aguentar - um Agnès Varda e logo a seguir um Visconti, por exemplo. A Alga era pouco mais que um balcão corrido. O Loja Neves anotava tudo num caderninho de goodies que, se ainda o tiver, valerá milhões. O Loja fumava demais. Cigarros sem filtro. Português suave, acho.
Já não me lembro como é que o Zé Velho ia para casa nas sextas à noite. Morava em Odivelas. Nos outros dias saía do cineclube e apanhava o último metro na Avenida, ao fundo a rua do Salitre. Andava de cabeça perdida com a história da fauna social que povoava o último comboio para Entrecampos - seguranças, operários da noite, prostitutas, intelectuais, boémios, empregadas da limpeza, etc. Já toda gente se conhecia. Entre a Rotunda e o terminal de Entrecampos eram uma família. Queria reduzi-los a um guião. E nós já lhe tínhamos encontrado um título para a versão internacional, “The Last Train to Between Fields”.

O Mário saía menos connosco à noite. Morava em Sintra em casa dos avós. Numa tarde de sábado fui visitá-lo. Lembro-me do ar faustoso da casa apalaçada, tapada por heras e colunas de pedra ofuscadas por uma pátina de líquens, e um jardim que subia em socalcos até se misturar com a serra. Nesse dia inventámos uma nova corrente estética, ideológica e cinematográfica. Chamamos-lhe “neo-revanchismo”. O neo-revanchismo durou uma tarde, matámo-lo no dia seguinte. Conseguimos ser ainda mais expeditos a renegar a própria criação que o Lars Von Trier no Dogma 95.

Perto de Sintra vivia também o Tátá - ainda não tinha saído do armário - chamávamos-lhe Nosferatu de Galamares. Gostava de cinema e de ilusionismo. Um dia desapareceu num truque de close up.
Eram estas as nossas expedições punitivas.
Estávamos em que ano? Não sei exactamente. Mas nessa altura, num outro ponto da cidade, sem que o soubéssemos, estaria o Dinis Machado a bater à máquina O que diz Molero.

Num dia normal eu saía das aulas do Alpern ou do Esperança Pina, no Campo de Santana, ignorava a provocação de ofertas pagãs à volta da estátua do Sousa Martins, ali mesmo ao lado, e entrava no Instituto Alemão, junto ao Patriarcado. Papava logo uma dose pesada, um Murnau, um Dreyer, um qualquer expressionista alemão, com sorte saía-me um Fassbinder. Depois descia as escadinhas do Lavra e vinha cá a baixo ao Palácio Foz aviar um ciclo da cinemateca. Aí conseguia habitualmente melhor cinema. Foi lá que apanhei todos os Bergman. Senti-me possuído pelo Personna e pelo Silêncio. Quando jogávamos à bola, no “enconansus corner”, o pessoal costumava dizer que eu só gostava de “cinéma problème”, enfatizando a expressão, com intenção pejorativa, na adequada “prononciation française”. O pessoal falava francês nessa altura. Mas era o sueco da Liv Ulman que me deixava sem fala.

Depois subia no elevador da Glória para o Bairro Alto e ia para as aulas do Conservatório, na Barroca. Tive que anunciar aos meus pais que tinha desistido de medicina e ia agora estudar cinema. Não foi fácil fundamentar tal ruptura. Mas eu tinha os melhores pais do mundo e consegui distraí-los com a questão da orografia.
- Mas, filho, tu tinhas dito que querias ser médico psiquiatra, depois de teres visto o Family Life do Keneth Loach, que tanto te tocou... e nós estávamos preparados para te apoiar em tudo.
- Sim, mas... aliás, eu deveria ter-vos dito que queria ser “anti-psiquiatra”, porque é isso que advém do Family Life e das ideias do Cooper e do Ronald Laing.
- Bem, filho, conta connosco no que precisares. Tu és o nosso único filho. Tu és o nosso amor.
O pretexto da orografia colhia sempre. Assentava no mito romântico-urbanístico da “Lisboa das sete colinas” - do alto do Campo de Santana eu tinha descido ao vale dos Restauradores e subido ao Bairro Alto; duas colinas já estavam superadas e tinha assim criado uma necessidade, uma fatalidade de movimento.

Em Alvalade o Loja Neves continuava na Alga a fazer rabiscos num caderno sebento onde guardava pensamentos afrancesados, mais uma Seara Nova e um Tempo e o Modo debaixo do sovaco. Continuava a fumar português suave sem filtro e queria trazer o Joris Ivens a Portugal.
Eu andava “apanhado” pelo documentarismo britânico. O Grierson e sobretudo o Alberto Cavalcanti com a história do “se quiseres fazer um filme sobre os correios, não faças um filme sobre os correios, faz antes um filme sobre o percurso de uma carta”.
Decidi fazer a adaptação cinematográfica do Sredni Vashtar. Andei uns dias naquilo. Depois de feita guardei na gaveta. Ainda aqui está, generosamente arquivada. Hoje, o que mais admiro no opúsculo é a marca deixada pela máquina de escrever Olivetti que já naquela altura batia com fita a duas cores, preto e vermelho.

Tinha nascido o vídeo. Na escola de cinema já tínhamos U-matic, três quartos de polegada.
No Conservatório, o João Miguel Fernandes Jorge mostrava-nos diapositivos. Parava sempre no mesmo, num que tinha duas maçãs. Deixava que a sala tombasse num longo e incomodativo silêncio e quando sentia a agitação dos rabos nas carteiras, avançava para o slide seguinte, fazendo um comentário lacónico “este é o caso mais exacerbadamente romântico de que há memória”.
O António Reis, o do Trás-os-Montes, chorava e batia-nos nas mãos quando, à moviola, não acertávamos nos raccords de luz. O Ricardo Pais obrigava-nos a tocarmo-nos, para vencer as barreiras territoriais e tácteis do corpo, para que pudéssemos compreender que a dramatização trespassa desde o infinito distante até à pele. O APV, o Geada, tantos outros… O ambiente ecléctico de escola de artes, a cumplicidade entre alunos de cinema, música, teatro, dança, educação pela arte. Tudo veio a ser copiado mais tarde na série Fame. Fomos nós na rua da Barroca que inventámos esse engenho. E éramos muitos. O Pedro Costa, dos Ossos, por exemplo, também lá estava. Será que se lembra?

Por falar em Costa… um dia troquei de horário com o outro Costa, o da RTP. Mandei-o para casa e fiquei a trabalhar por ele à noite. Não me esqueço, foi no 7 de Março de 1980. Às oito da noite começava o Telejornal e eu tinha que cumprir o que estava determinado no alinhamento da emissão: “abrir a fase do burst”. Rodei o botão negro e serrilhado, pressionando com o polegar direito. O botão cedeu 45 graus, ajustou-se à nova posição, onde ainda repousa, se existir. Tinha assim começado a televisão a cores em Portugal, no meu dedo.
Bem, tinha começado antes. Nós abríamos o burst durante segundos, às escondidas, e voltávamos a fechar. Fazíamo-lo a horas combinadas para impressionar as namoradas em casa. Era a nossa leitura de “período experimental”. Combinávamos tudo, ligando da cabine telefónica do pátio, por cima da “estalagem do cavalo branco”. Ainda não havia telemóveis.
Aliás, a cor tinha começado ainda antes. Quando toda a gente foi à Pollux comprar os filtros de gelatina que davam cor aos televisores a preto e branco. Era um gradiente de azul, amarelo e verde, que atravessava de alto a baixo o vidro do cinescópio. Prendia-se com fita cola. Funcionava lindamente nas imagens de paisagens e nas séries do Bonanza e do fugitivo, mas tornava-se incomodativo em cima da cara da Maria Elisa e do Raúl Durão, coitado, que já não está connosco.
Isto foi em 1980. O mundo não pára. É uma vertigem.
Eu nunca deixaria de ir ao cinema e nesse ano os meus filmes de culto foram, se a memória não me atraiçoa, o Apocalipse Now, o Homem Elefante e os Blues Brothers.