quinta-feira, agosto 11, 2022

Incipit

 Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas - é assim que começa L'Étranger, O Estrangeiro, de Camus. Por qualquer razão insondável a frase de arranque ficou-me colada na memória, tanto quanto a obra. É mais que um incipit. Não é apenas uma frase de início, é um arrastão que leva consigo a energia, a entropia que o romance irá desenvolver. “Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas”, habitando silenciosa na minha memória, baixei-a para a escrita duas vezes. Há sete anos, no dia em que a frase literalmente fez sentido, e uns anos depois, quando faleceu o meu pai - pese embora a discordância de género a dor da perda paterna é-lhe equivalente. Conheci, aquando da universidade de Aveiro, no Toc'Aqui jazz bar da Praça do Peixe, estabelecimento que acolhia os serões vazios de tantos docentes e quadros deslocados na cidade, uma professora do departamento de Línguas que gostava de falar de cultura e literatura, sobretudo da francesa. Um dia falámos de Camus e ela soltou um entusiástico e repentino "aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas!” Fiquei fascinado, pensei ter encontrado ali, mais que uma cumplicidade cultural, um incipit de qualquer coisa. Mas não. Numa das minhas primeiras vindas a casa, a Lisboa, levei-lhe uma colectânia de CDs do Léo Ferré, coisa que eu muito estimava e com que ela desapareceu sem nunca devolver. Porquê? Je ne sais pas!.. Teria sido por causa daqueles versos do Ferré “...petite, tu as des yeux d'enfant malade et moi j'ai des yeux de marlou”? Não voltei a encontrá-la nos serões do Toc’Aqui. O desrespeito pelo compromisso de devolução de livros e discos emprestados é coisa que verdadeiramente me incomoda e que compromete qualquer amizade. Tal como me incomoda um escritor que anda por aí. A antipatia - pessoal, mais que literária - que por ele alimento levou-me, há uns tempos numa livraria, a folhear uma obra sua acabada de editar, para lhe ler o arranque, na expectativa de que o incipit fosse fraco e eu pudesse confortar o meu legítimo fastio, a minha pequena repulsa de estimação. O livro começava mais ou menos assim, cito de memória: “Abriu o livro e procurou a primeira frase. Sempre ouviu dizer que o arranque de um livro é muito importante porque se percebe logo o que podemos esperar. Ficou surpreendido quando viu que a primeira frase dizia, abriu o livro e procurou a primeira frase. Perto dele, com o mesmo livro na mão, outro leitor espreitava também, e os seus olhares encontraram-se. Abriram ambos um livro e, julgando lê-lo, estavam a ser lidos. Voltou ao livro onde a história parece começar por…” E é aqui, finalmente, depois desta escusada construção em nariz-de-cera, deste salão de espelhos pretensiosamente literários em vácuo narrativo, é aqui que o livro arranca, sobre nada que tenha a ver com o que ficou dito, para definitivamente nos enfadar com uma história de pianistas. Eu, sem mais literaturas, devolvi o livro ao escaparate mas tive o cuidado de fazer aquele pequeno gesto de traquinice excitativa que faço habitualmente com os livros do Chagas Freitas ou do Paulo Coelho, que consiste em deixar o exemplar de costas, a contracapa virada para cima, o que sempre confere à obra menor visibilidade. Porque assiste ao leitor humilhado pelo escritor um direito de indignação, o incipit de não permitir estar simultaneamente dentro e fora de um livro que não quer ler.


terça-feira, agosto 09, 2022

Por onde passa este ano a Volta, não sei.


No meu tempo a Volta passava por Quintela de Lampaças, Jorjais de Perafita, Busteliberne e outros locais de grandeza mágica. Guardo de todos uma doce memória e uma fotografia de repérage.


Em Quintela de Lampaças, a aldeia que enfeita a velha estrada entre Macedo de Cavaleiros e Bragança, encontrei a mulher mais bonita que o meu olhar terá porventura enxergado. Uma jovem de cabelos descuidados de um raro aloirado transmontano queimado pelo sol, pele de pêssego esmeralda - seria esse o seu nome? - sensualmente vestida de camponesa pobre, lenço e rodilha na cabeça, chinelos desajeitados; nada poderia ter sido mais cuidado numa eventual produção fotográfica para uma qualquer revista vanity a folhear nos lofts de Park Avenue, aí onde os ricos se torcem de inveja da felicidade desadornada dos pobres. Acompanhei-a com um varrimento de olhar durante uns dez metros. Segurava à corda uma vaca turina que levava a beber água no tanque do chafariz público. Os nossos olhares não se cruzaram. Não chegou a ver-me, acho. Não há nada para reparar num urbano encostado a um carro. Eu, sensível às belezas da vida e ela sem vida para sensibilidade ou belezas. O mundo está cheio destas harmonias improváveis. Não voltei a vê-la, claro, mas não me esqueço do encandeamento daquela tarde.


Jorjais de Perafita não seria nada não fora o assombro do nome e o facto da aldeia se exibir ao lado da estrada sem nunca a tocar. Vindo de Murça para Vila Real pouco há para ver além da paisagem agrícola e o enfadonho galvanizado de um rail de protecção que, imutável, sempre nos acompanha. À distância, espraia-se a aldeia paisagem que teima em acabar num cemitério. Jorjais sempre me pareceu uma aldeia-instalação, uma narrativa ali intencionalmente edificada, um território que anuncia ao viajante que tudo acaba sempre no seu fim.


Já em Busteliberne, uma aldeia entre Cabeceiras de Basto e Vieira do Minho - se é que se pode chamar aldeia ao casario abandonado que orna duas curvas da estrada - eu jurei que havia de comprar ali uma casa. “Para que queres tu uma casa em Busteliberne, nos confins do mundo?”, “eu quero que cheguem as tardes de sexta-feira para vos anunciar, aqui no ar condicionado do estúdio, que, xau até segunda, vou passar o fim de semana a Busteliberne!, e deixar-vos, todos, invejosos a murmurar e a perguntar porque é que este gajo vai passar todos os fins de semana à Suíça?"


Lembro-me de uma outra vila a sul do Douro, de cujo nome já não estou seguro, talvez seja Tabuaço; o Pedro Luís e o Brites a marcar posições de praticável, paus de bandeira e passa-cabos e eu a alimentar conversa de circunstância com o autarca que nos acompanhava. A vila desenvolve-se ao longo de uma recta atravessada por pequenas perpendiculares. A recta era pista de aceleração para motorizadas, aquelas motorizadas proletárias de pequena cilindrada, famel e zundapps de zunido aflitivo, sempre no limite máximo da aceleração, a lampejar vertigem nos olhos e nos ouvidos de meia dúzia de jovens locais. “Estes tipos, a acelerar desta maneira e sem atenção aos cruzamentos, não se matam?”, perguntei. “Matam!” respondeu, “mas quando estes morrerem logo aparecem outros.” Assim, com a clareza e a desobrigação que se exige a um servidor público. Que lição, vinda de um autarca com o pelouro do “desporto, ajardinados e festividades”. Tanto ensinamento numa simples frase. Afinal a vida é um rodízio e nós andamos apenas a cumprir etapas.


Lembrei-me disto.

Mas para quê tantas palavras, tantas memórias à volta da Volta quando ficou tudo dito, e bem explicado, no cantar do Sérgio Godinho: “a descer a Boavista surgiram três atletas, um piloto, outro ciclista e o outro pintava as metas”.

segunda-feira, junho 13, 2022

O husky siberiano

Tu passas a tarde toda em casa, fechado, condicionado ao ar respirável, que lá fora está um braseiro que não digo nada - este “tu passas” é reflexivo, agora usa-se; diz que nasceu do futebolês mas já anda cá fora na fornalha da língua - passas a tarde inteira a ouvir Pearl Jam, mais por dever que por prazer, e a única coisa que se safa é a faixa 13, “last kiss” - “we were out on a date in my daddy's car, we hadn't driven very far. There in the road, straight ahead, a car was stalled, the engine was dead.”
Lá fora um vizinho em calções e tronco nu, a passear um husky siberiano. Um husky à trela com a canícula a bater nos 40 graus. Há gente que não tem noção. Gente que agora se quer livrar de um husky por causa do Putin. Ainda pensei abrir a janela, entrava-me um bafo de calor mas soprava-lhe um comentário gélido, de circunstância. Mas o que é que se pode dizer a um vizinho de calções e tronco nu?, “então vizinho, a passear o cãozito, não é verdade?" Ele devolvia-me uma resposta álgida de certeza, “...e você, a ouvir Pearl Jam?”
“Snappy answers to stupid questions” é um livro interessante que em tempos me passou pelas mãos. Tem entradas como esta: tu estás em casa, no sofá, alguém chega e pergunta “então, já estás em casa?”, ao que te apetece responder com frieza e impertinência “não, isto não sou eu, isto é um holograma, o verdadeiro Eu está ali fora na marquise a aliviar a flatulência derivada ao dilatar dos corpos”. Ou estás no café a beber uma jola fresca e a ler jornal, chega um amigo e pergunta-te “então, estás a ler o jornal?”
O CD dos Pearl Jam é duplo. São dois discos numa capa fininha de cartão prensado, que lhe dá um look ameno, pré-tipográfico. Foi gravado ao vivo, há uns anos, no estádio do Restelo e o público no final de cada música exulta, salta, bate calorosamente palmas e grita ao rubro e em uníssono “Portugal, Portugal, Portugal”. Acontece tanta coisa bizarra quando se casa rock com multidão, que eu mal entendo.
Não fosse este calor de corpos suados e pestilentos e ainda ia ouvir um bocadinho de Fausto para desenjoar dos grungy alt-rockers da tarde: “abraça-me bem e cobre o meu corpo enfim nesse agasalho. São os teus braços sim, cuida de mim, basta-me um gesto, porém, abraça-me bem!", mas está muito calor.

domingo, outubro 20, 2019

Caselas, Lisboa, Outubro 2019, final da tarde.

terça-feira, julho 02, 2019

Lisboa adúltera


Bastaram-me trezentos metros a descer a rua do Alecrim e assomar cá ao fundo na rua de S. Paulo para perceber o que se está a passar na cidade. Qual gentrificação?! O que se passa é bem mais elaborado e modernista. Não é a cidade, é o mundo inteiro a transformar-se, a caminhar para um futuro que ainda não conhecemos. Por isso viajamos tanto. Somos formigas ansiosas em carreiros low cost. Anda toda a gente a viajar para qualquer destino enquanto pode, enquanto souber viajar.
Eu levava a cadela pela trela porque íamos ao veterinário ali em São Paulo. O passeio é estreito e os eléctricos passam rente, não se desviam - os eléctricos nunca se desviam - numa tira acanhada de calçada estragada, romântico decay como o turista gosta, pouco funcional e ao longo do novo pulsar do negócio urbano: tascas transformadas em lounge bar, outras em snack baguette, retrosarias que passaram a cash converters e paredes agora ATM onde antes havia multibanco. A cadela confinada a meio metro de trela, entre a parede com cheiro a cerveja mal mijada e o carril do eléctrico. Tudo está diferente.
Estranho. Turista na minha cidade, eu era agora o alvo de outros olhares, porque era diferente, “olha um autóctone com uma cadela pela trela e o dossier das vacinas debaixo do braço, so cute!” Nunca uma ida ao veterinário tinha derivado tão instagramável. Há gente com trolleys de cabine pela trela, a arrastar o rodado na calçada alfacinha, mas um gajo com uma cadela “gotta be a local”, porque ninguém faz airbnb com uma cadela, a menos que seja em sentido figurado.
Chegam todos os dias aos milhares, enchem as ruas de Lisboa para virem fazer aqui o mesmo que fazem na terra deles. As mesmas video-chamadas de whatsapp, os mesmos tanqueray e cappuccinos em mesas de terrace onde se fumam cigarros electrónicos, com a mesma música lounge. E eu, na ânsia de me mostrar hospitaleiro, didático, “no, we‘re not used to drink cappuccino, we usually drink bica, you know, tipical Portuguese coffee, yeah, bee-ka. There’s also garoto and italiana, that means kid and italian female...” Como é que se explica a uma finlandesa o que são os Santos Populares?, “now we have the popular saints, you know, parties all over and marchas... it means marches.”
Useless.
Há quem venha de Tankavaara na Lapónia, visitar Lisboa, o que se compreende porque têm nove semanas de noite e no outro solstício outro tanto de lusco-fusco a que chamam dia. Mas há também quem venha de Velika Gorika que fica a setenta cêntimos de autocarro do aeroporto de Zagreb, porque compensa. Há quem venha de Catânia, na Sicília, e insista em registar-se no hostel como romano do sul, para evitar o preconceito. Há quem venha de Nizhni Novgorod converter em super bock os rublos extra que a fábrica lhe concedeu por ter aceitado renunciar a direitos laborais, e há até quem venha de Valea Dragului na Roménia para realizar uns trocos e umas carteiras no eléctrico 28.
Tomemos o exemplo de Tankavaara onde nunca fui, mas de onde vem a Bengta (acho que é assim que se escreve, retive apenas a fonética do nome, já estávamos um pouco toldados pelo ensolarado que batia nos copos de gin), “what a wonderful city you have, João, you gotta be so proud” - uma ideia para que nunca fui preparado, o orgulho municipal. Dito assim, soou-me a antítese daquele outro sentimento que se me apodera quando chega o IMI para pagar.
Pensei que poderia retribuir referindo qualquer coisa de elegante sobre a Finlândia: nokia, vodka, suomi... não, tudo muito fraco, nada de consistente me ocorreu. Optei por um “que experiência, goddamnit!, deve ser remarkable ter vivido paredes-meias com a velha Rússia bolchevique, São Petersburgo/Leningrado aí ao lado!”, mas traduzi paredes-meias por “so close to” - mau resultado, enfraqueceu a semântica. Pouco sei sobre a Finlândia e o que eu queria mesmo era conduzir a conversa para S. Petersburgo, depois para o Hermitage, a seguir para o Sokurov e o Arca Russa, aí estaria à vontade para falar seguramente mais meia hora - tenho territórios também - até que a lascividade do álcool viesse enfadar as palavras e do silêncio crescessem olhares e carícias, e antes que a Bengta pudesse disparar um mortal “gotta go!”, o que veio a acontecer. Mortal para mim, providencial para a cadela, farta do deck do lounge e talvez enjoada pelo efeito da antirrábica.
O mundo está a mudar.
Talvez não muito mais que nas outras vezes em que também mudou. Mas agora estamos a vê-lo mudar, passa-se tudo aqui ao fundo da rua.
As cidades, a minha cidade está a transfigurar-se. Mas para que servem as cidades senão para se submeterem à transformação. Eu gosto da Lisboa insurgente e acidentada, avessa a tipificações. Sempre a senti assim, calçada debaixo dos meus pés. Lisboa adúltera, empresto-a por uns tempos, não me importo, a quem vier fruí-la. Depois, madura, experiente e cansada, voltará a ser nossa. Só nós sabemos cuidar dela... “we are alfacinhas, you know, just like little lettuces, all words starting with al- have Arabic origin, you understand?”

terça-feira, abril 18, 2017

Zona raiana - Abril 2017

photos by Joao Salvado

sábado, abril 15, 2017

sexta-feira santa

Claro que é rebeldia esta forma como exacerbo alguns comportamentos.
Puxo conversas sobre pitéus de cabidela ou costeletão de novilho, quando vou jantar a casa de amigos vegan; se educadamente me pedem que me abstenha de referir atrocidades animais, que razões ideológicas os impedem de falar sobre o assunto, eu disparo então sobre estudos científicos que provam o sofrimento do vegetal à beira da mastigação: a rúcula e o coentro que se apercebem da morte ao ver chover o tempero sobre a saladeira; a couve coração que perdeu a vida, inglória, no ritual de um festim sem glúten.
Também por rebeldia, esta é a única sexta-feira em que não prescindo de me banquetear com enfartados rodízios de carne vermelha.
Desnecessário, eu sei. Mas assim sou eu, Maria da Graça, portuguesa de 52 anos, moradora em Arroios - essa espécie de Tribeca lisboeta. Contraí o ateísmo em tenra idade. Valeu-me ter nascido filha de pais tolerantes, moldados pelos anos do amargo reviralho, que me aceitaram como sou, por amor, e contra a opinião do Dr. Passos do centro de saúde, que sempre lhes disse “levem-na a Fátima, pode ser que isso lhe passe” - o Passos morreu dois anos depois, de cancro do pâncreas, fulminante.
Muito nova, mas já rebelde, saí de casa e andei perdida durante meses na América do Sul onde cheguei a infectar-me de marxismo. Primeiro, na Argentina, na versão trotskista; depois, mais acima, na versão bolivarista, talvez mesmo guevarista, por causa de um gadelhudo de barba rala por quem me apaixonei em Machu Picchu. Um amor que durou quase dois meses.
Mais tarde e mais a norte, a persistência solar, alguma tequilha e a diversidade cromática, levaram-me a abandonar a causa “obrera” e aproximar-me definitivamente das manifestações do livre pensamento artístico. Andei pelas Artes e pela libertinagem moral - de onde nunca saí, em boa verdade. Alimentei na altura, um particular apreço por Frida Kahlo, ou por aquilo que ela representava, principalmente o desprendimento pelo corpo, a forma de o deixar viver, a ousadia de o libertar de atavios - a versão monocelha, por exemplo, sempre me fascinou.
Valeram-me os anos em que me senti possuída desse encantamento, até regressar a casa onde iniciei esta existência cinzenta de onde agora vos escrevo - mais anémica que académica - de uma modesta professora da António Arroio.
Aqui estou, hoje, sendo o que sou e fazendo a gestão possível do que aprendi e por onde passei.
E lembrei-me: que pena, na altura, naquele tempo, não ter tido atrevimento para subir ainda mais em latitude, e ir perder-me na generosidade dos costumes do Midwest, aprendendo aí os fundamentos da pós-modernidade política, tão actuais e que tanta falta me fizeram nesta última semana. Bem podia ter aqui opinado sobre a miudagem de Torremolinos, os gays da Chechénia, o Canelas, o Samaris e os cânticos da claque do Porto, ou a madrasta de todas as bombas e a sobremesa de chocolate do Trump antes do ataque à Síria.
Sendo que “pós-moderna” é mesmo (mais que a qualidade dos temas a debate) a forma como todos aderimos à narrativa fragmentada, à rejeição da linearidade, no modo como lemos a actualidade. Espezinhamos cada assunto com dois likes e um comentário, saltando depressa para o tema seguinte, que se faz tarde e que a actualidade é o AGORA, todo o resto já foi.
Hoje, graças a deus, lá me ligou pelo fixo, a tia Eugénia, de Grijó de Parada, a única irmã ainda viva do avô Lourenço que deus tem. Ela, alheia a pós-modernismos, mantém-se agarrada às narrativas lineares, sem que nunca tenha lido Proust, Virginia Woolf ou James Joyce.
Para a tia Eugénia, adaptada a esse solilóquio transmontano que cultiva e mede a passagem dos dias, há o Entrudo, segue-se a Quaresma e depois vem a Páscoa - e esta previsibilidade sequencial alimenta-a a em Felicidade, que inveja.
E pensei cá para mim: “se as pessoas me ligam, se são atenciosas e simpáticas, é porque se preocupam comigo e me querem ver feliz. Deixa estar, então. Por isso lhe agradeci e retribui: páscoa feliz também para si, tia Eugénia!”
Mas fiquei a pensar, inquisitiva, o que quererá dizer isso de “páscoa feliz”?