Sábado, Maio 19, 2012

Assim vai o mundo!





Abril de 2012. Num destes dias a Ucrânia acordou assustada.
Alguém tornou pública a declaração de rendimentos do presidente Yanukovich, apresentada recentemente às finanças.
No item oitavo do equivalente a uma declaração de IRS, o cidadão Viktor Yanukovich, presidente da república da Ucrânia, declara ter recebido mais de 16 milhões de grívnias, a moeda local, o equivalente a 1,6 milhões de euros, em direitos de autor.
Mais de milhão e meio de euros em royalties por textos publicados. Textos que são a compilação dos seus discursos públicos, coligidos pelos assessores.
O montante daria para pagar várias vezes os direitos autorais de todos os artistas, escritores, poetas, dramaturgos e outros, da Ucrânia, durante vários anos. E ainda sobraria o suficiente para oferecer uma edição legal do Harry Potter a cada um dos 50 milhões de ucranianos.

Num ambiente de democracia musculada algumas vozes têm vindo a público denunciar envergonhadamente que a cobrança pode ter sido “um bocadinho exagerada”. O presidente da Associação Ucraniana de Editores, Oleksandr Afonin, declarou que “para o mercado nacional tal remuneração não tem precedentes”. Mas logo a seguir vem Volodymyr Symynozhenko, o presidente da Agência do Estado para Ciências, Inovação e Informação dizer que não, este valor em nada o surpreende. “...escrever memórias e obter dinheiro com elas é prática internacional. Vejam o que fez De Gaulle, Reagan, Thatcher e Clinton. Então, o nosso presidente é pior que os de além-mar?”

Convém explicar que o sucesso autoral foi garantido pela “Novo Mundo”, uma editora de Donetsk, a cidade natal do presidente Yanukovich.

A “Novo Mundo” conseguiu a façanha de arrecadar o exclusivo editorial dos discursos públicos do presidente pronunciados até 2010. Mas mais ainda, no pacote de milhão e meio de euros a “Novo Mundo” garantiu também a exclusividade de direitos da escrita futura do presidente.

Garantidos na colecção da “Novo Mundo” já estão os seguintes títulos:
     - Um ano na oposição
     - Um ano no poder – da crise ao crescimento económico
     - Superar o caminho
     - Continuar a viver na Ucrânia

A encomendar, logo que haja tradução numa língua tragável.


O golpe de agilidade contratual da “Novo Mundo” irá relança-la no bom caminho do negócio editorial. É que há quase um ano a editora tinha investido uma quantia elevadíssima numa edição extravagante, em língua inglesa, impressa na Áustria, da obra "Opportunity Ukraine”, do mesmo autor, Viktor Yanukovich. Apesar da tiragem muito elevada, destinada ao mercado internacional, a edição teve que ser retirada porque veio a perceber-se que muitas passagens do texto do presidente não eram originais, mas sim plagiadas de outros autores.


16,449 milhões de grívnias é muito dinheiro. Um autor ucraniano recebe actualmente entre 25 a 50 cêntimos do euro, em média, por cada livro publicado.


Na simpática cidade de Donetsk, nas margens do rio Kalmius, no sudeste do país, tal maquia daria para encher o carrinho do supermercado durante muitos anos... e ainda sobraria dinheiro para comprar também a cadeia de supermercados, mais os autarcas, mais a polícia e as autoridades fiscais que tudo regulamentam.

Mas, depreende-se, Viktor Yanukovich não terá tido necessidade de recorrer ao seu pé de meia de propriedade intelectual para pagar tais serviços. Poderá ter encontrado forma de resolver a questão no âmbito das suas actividades não autorais.


(Fonte: http://noticiasdaucrania.blogspot.pt
imagens: wikipédia)

Quinta-feira, Dezembro 16, 2010

Memória


Vasculhai os arquivos da RTP e encontrareis uma brilhante entrevista, gravada há mais de 20 anos, que nunca foi emitida e pergunto-me se algum dia o será.

É um interessante casamento de imaginação e jornalismo – uma entrevista post mortem a Carlos Pinto Coelho.

Eu explico. O entrevistado, Carlos Pinto Coelho, responde, para registo futuro, a algumas perguntas sobre o que foi a sua vida e percurso profissional, no uso persistente do pretérito perfeito – eu fui, eu fiz, eu estive, eu amei. Um ousado exercício que só as mentes rasgadas sabem equilibrar.

O que pinta de tons trágicos este diletante desempenho expressionista é que, a partir de hoje dia 16 de Dezembro de 2010, fica fechado o ciclo de três razões que nos responsabiliza no dever de entregar à História tal pedaço de espólio.

Primeira, o entrevistador, António Amaral Pais, um príncipe do jornalismo, deixou-nos há muitos anos vitimado por esse sezão mortal que fazemos questão de evocar todos os anos no primeiro de Dezembro. Segunda, o Carlos deixou-nos hoje, há poucas horas, também tão despropositadamente. Terceira, o registo audiovisual ter-se-á perdido nalguma caixa poeirenta, aos pés do arquivista, à espera de vez para classificação.

Perdoem-me os notáveis concursantes da O. Triunfo mas esta entrevista era o programa que eu quereria ter visto hoje na televisão.

Perdeu-se a memória. Por isso eu faço questão de a evocar.

Domingo, Fevereiro 07, 2010

Salvemos o audiovisual

Agredir um jornalista estimula o aparecimento de notícias, logo estimula o jornalismo; sentar bufos em mesas de restaurante nos hotéis, estimula o jornalismo porque gera mais notícias; publicar escutas estimula tudo e ainda mais, mas não estimula a indústria audiovisual (a minha pobre indústria... onde eu trabalho). E porquê?

É sempre o som, o áudio! Seremos um país de invisuais? Vivemos às apalpadelas? Onde está a imagem, a luz, a cor, a forma, o relevo, que nos dá a relação biomórfica das coisas? Queremos ver. Queremos imagem no túnel, no balneário, na sala de embarque, no restaurante. Onde quer que o país palpite, há que montar um estaminé. Ver para crer! Noticias às apalpadelas, não! Salvem o audiovisual português.

Contribuo com a reconstituição do almoço do Tivoli.

Terça-feira, Janeiro 26, 2010

Admirável Mundo Novo


Acabei de ler (e reler com espanto, vezes sem fim) o “Meu Jornal” pasquim de distribuição gratuita em Loures e Odivelas.

Que haveria eu de encontrar? Notícias sobre as comemorações do Dia dos Reis no externato Pica-Pau da Ramada? ...Também! Mas não foi isso o que mais me impressionou.

Fiquei a saber que a Google vai lançar o primeiro automóvel que não precisa de condutor... logo o condutor não precisa de ir no automóvel, logo não tem que o comprar. Este veículo funciona com um sistema revolucionário de GPS 3D que não requer programação humana, é totalmente autónomo.. logo, o dono do veiculo não precisa ir, vai o GPS e o automóvel... dispensando mais tempo para o automobilista ficar na Amazon a fazer compras online.

Associado a este pacote está o novo telemóvel 3D da Nokia que acciona automaticamente telefonemas tridimencionais que reportam o estado da viagem e a performance do carro. O automobilista nem precisa de atender porque tudo é transmitido pela centralina Apple à General Motors ...e também porque chegado a este ponto já não quer saber do carro para nada.

Refira-se que a Google comprou a Apple que por sua vez comprou a Ebay que por sua vez comprou a Amazon que por sua vez comprou General Motors, que tinha comprado a Google.

Está a ser preparada uma mega campanha publicitária com um spot protagonizado por George Clooney que irá integrar como screensaver todos os produtos da Apple, da Nokia, do YouTube (que é da Amazon), etc. O anúncio que explora ao limite o charme de Clooney, terá exibição massiva a partir do próximo trimestre, em todas as estações de TV e grupos media (que são controlados pelo consórcio Google/Nokia).

A propósito - muito recentemente a Nespresso comprou a Google.

Trata-se de um spot verdadeiramente revolucionário que aconselha a não comprar nada, que a Google, a Ebay, a Apple, etc., fazem o resto por nós, mediante simples entrega do número de cartão de crédito.

Maravilhoso Mundo Novo - é o Home Shopping na versão mais revolucionária.

Segunda-feira, Janeiro 25, 2010

A Invasão do Carlos Alberto


Caro Ruca,

Evocas magistralmente a multidimensionalidade da BCN.Apetecia-me igualmente citar a Formato C e, quiçá, a Ampex duas polegadas, bem mais primitiva e robusta, que me reporta àquela imagem do escancho de pernas de Faustinos, Cunhas e Pimentas, que à custa de balanço e poder braçal bobinavam de forma exímia, nove voltas exactas, anti-clockwise, para o mais primitivo pre-roll da humanidade. Um simples corte, um assemble artesanalmente arrancado a pedido de Peyroteos, Listopads, Cecílias e outros Pretos Pachecos, todos de boa memória.

São verdadeiras pérolas da faina, esses momentos do tracking das nossas vidas.
Roland Barthes, se vivesse, teria inventado uma qualquer explicação semântica para isto. Qualquer coisa como - há um pre-roll do pre-roll.

Antes de continuar permite-me que saúde o aparecimento do querido engenheiro Carlos Alberto Henriques (CAH) nesta troca de correspondência – querido no sentido very nIce Cream do termo, é obvio. O mesmo Carlos Alberto que nos surpreendeu há uns anos com a invenção do audio 2D, que a indústria tão injustamente rebaptizou de stereo.
Qual McGiver do electrão CAH, a partir de uns óculos de celofane inventa agora o cinema e a televisão 3D e com eles invade Hollywood seduzindo num pestanejar, Jacinto Camarão, realizador. ...E não só. Alcançou também o coração de Ava Gardner, cuja essência e vida, Alberto, alquimista audiovisual, conseguiu ressuscitar mediante administração doseada do elixir secreto de concentrado de bagaceira da herdade do Ramalhão.
Gardner, a diva, agora de cabelo oxigenado para se fazer passar por ucraniana na pastelaria Primavera, está com CAH - sabe-se, mas não é suposto dizer-se. Mantêm uma relação de copioso e ardente fervor passional, num apartamento ali para os lados de Odivelas Norte, casa posta a expensas das migalhas sucessivamente raspadas à lauta reforma de Carlos Alberto. É a partir de Odivelas que o casal Gardner-Henriques se prepara para arrasar o mundo audiovisual com o advento das inovações tecnológicas, desde o 4D até ao 7D.
Eles não sabem mas eu vi. Vi Ava Gardner à janela, meio escondida pelas cortinas da marquise que dá para o lado de Santo António dos Cavaleiros. Porte elegante, cigarro numa mão, iPhone na outra, com o olhar vidrado em lado nenhum, talvez orientado para o veludo suburbano da colina de Frielas, com um semblante tão displicentemente arrebatador que me fez recordar o remate que dirigiu a Gregory Peck em As Neves de Kilimanjaro:– Antevejo a batalha. Há uma guerra, Uma guerra tão aprazível lá fora!”
Inexcedível, a mística de Ava Gardner, mesmo ressuscitada pelas virtudes do bagaço.

E Barreto, o Vitor, o mais ribatejano dos realizadores ibéricos, o verdadeiro inventor do “cut” como oposição planítica às diatribes tomasianas do entrosado mixing ou dissolve?
Cut is beautiful! – confessou Barreto, pegando de caras o tema, numa célebre entrevista concedida a Christianne Amanpour.
Para mim, foi a tangibilidade do cut e a influência barretiana que me empurrou a escrita para o anagrama que eu haveria de publicar, mais tarde, onde enquadro a minha agonia perante o “corte”. Como escrevi, realizar não é meter no ar... Dialecticamente, é também tirar do ar.
É o frame que entra que mata o frame que sai. Há nascimento e há morte. É in, é out, com o rigor gélido da natureza parideira. Tudo certo e tão fatal como “encontrar garrafa de cerveja em entulho de trolha” – nunca falha!
Parafraseando os teóricos Valado Santos e Piedade Mendes, mestres do barramento de 24 inputs em mesa Grass Valley, a realização confronta-nos hoje com a iminência do frame – como se a vida fosse uma nano-experiência e qualquer acto de edição tivesse que obedecer à dualidade do assemble/insert com a mesma concentração e rigor disciplinar que a cozinheira chinesa dedica aos tiques de fritura das óstias de camarão.

Menos significativo na abrangência postular, dizem, mas igualmente delicioso na fruição do sintagma, é o opúsculo provocatório assinado por Maria Alice Pinho intitulado “Monte da Virgem, eu realizo cá mais acima!” - conquistou-me.
Alice Pinho desafia o velho paradigma, ousando introduzir na nomenclatura e na gramática audiovisual o “plano FdP” - uma valorização semântica de dimensão intermédia na escala narrativa. Situa-se entre o plano médio e o grande plano.
O plano FdP - acrónimo de "plano de filho da puta" - é o enquadramento ajustado a qualquer interveniente ou convidado em estúdio ou em plateau, de quem a realizadora ou a equipa não gostem. Não há desconstrução niilista no plano FdP, explica Alice Pinho, pelo contrário é um plano forte e estruturante na narrativa fílmica. No plano FdP há sempre um elemento do desenho ou da volumetria cenográfica, ilusoriamente pontiagudo, que aparenta sair da testa da non grata figura entrevistada.
(Visíveis influências barretianas, neste caso. Se bem que Alice Pinho não seja seguidora da linha ribatejana na realização. Seria interessante também aqui consultar o engenheiro Carlos Alberto Henriques acerca da especificidade do “plano de filho da puta” no âmbito do 3D e da Realidade Aumentada – nomeadamente quanto ao efeito exponencial do “filha-de-putismo” em algoritmos de paralaxe positivo ou de paralaxe negativo na tridimensionalidade. O recente filme Avatar suscita-me essa interrogação).
Para Maria Alice Pinho o plano FdP não constitiu apenas uma inovação semiótica na operação de câmara, mais do que isso, remete para a multi-disciplinaridade na operação de estúdio, para a importância da abordagem cenográfica, da iluminação, do desenho de luz ou da direcção de fotografia... até mesmo das opções de óptica, objectivas, distância focal, profundidade de campo, etc.
A realizadora teve o cuidado de condensar a fracturante vivência FdP numa obra de alguma forma biográfica, mas formalmente fiel à narrativa teatral. Dramaturgia ousada, viva, na boa tradição vicentina, que "helás" nunca viu o prelo, mas da qual eu guardo uma cópia secreta, deliciosamente obtida em ilícito ou pecado, sacada a fôlegos do original que Alice arrecada na étagère do quarto, ao lado da cabeceira, meio escondida por detrás do guarda-jóias e das embalagens de Olcadil e outros medicamentos.
Ao longo de vários meses fotografei o original de forma sistemática, semana a semana, página a página, até à cópia integral, sempre aproveitando a janela de oportunidade dos dez minutos que Alice me permitia, pelo uso da prerrogativa de ser a primeira a entrar no duche em cada desfecho suado das nossas manhãs partilhadas. Saltar da cama para o banho quando lhe apetece, é prerrogativa de dona da casa, e de mulher do norte, e as minhas idas furtivas ao Porto, aliás Castêlo da Maia, freguesia do Amioso, eram expedições punitivas que eu assumia numa vingança de costela sulista.
Um dia o pior quase aconteceu:
- Adoro esta bergère, Alice, desde a primeira vez que dormimos juntos que reparo nela. É Homes & Heaven? – Perguntei, desajeitado, na vertigem de ter sido apanhado com a máquina ainda na mão após fotografar o original. Tinha negligenciado o óbvio, Maria Alice sai do banho, como toda a gente, descalça, e a docura do seu pisar mesmo sobre cerâmica Revigrés era naturalmente inaudível. Cabelos emaranhados, encharcados, bravios, Alice, de secador na mão, sem perceber o meu embaraço, respondeu-me:
- Anda, faço-te uma omoleta com presunto e depois temos que sair, tenho o Jornal da Uma para meter no ar. Nessa momento eu sabia que tinha na minha posse, no cartão de memória da pequena câmara digital, seguramente, sete capítulos da obra, surripiados sem suspeita da minha amante. E nunca uma omoleta de presunto me soube tão bem.
É com autorização implícita da autora – isto é, na assunção que Alice Pinho não se importaria que eu publicasse um excerto da sua obra se porventura ela soubesse que eu a tinha e desse facto ela também não se importasse... (confuso?... um pouco). É, portanto, com putativa autorização e com a devida vénia – e ainda com a certeza de que não voltarei a partilhar os segredos daquela cama no apartamento de Castêlo da Maia... Porquê? As razões sabe-as ela, sei-as eu, e talvez um tal Fernando “Qualquer Coisa” que “calça” porsche cinzento e, dizem, anda agora enrolado com ela – que fecho a correspondência por hoje deixando-te o saboroso diálogo entre a autora, realizadora de um programa, e um operador de câmara no estúdio, diálogo recolhido pelo circuito de intercom e gravado na pista 4 da betacam digital, a páginas 117 do manuscrito.
Aqui vai, meu caro Ruca:

- Câmara cinco, tás a ouvir? Tens muito ar à esquerda, corrige lá essa merda! – grita inquieta Alice Pinho.
- Qual ar à esquerda? Aqui no viewfinder tá tudo bem... Não me digas que tens a monição aí em widescreen? Tás a ver isso esticado?
- Não está nada widescreen... Pelo contrário, até me parece mas é anamórfico.
- Pois, então é disso. Acertem aí as monições que aqui está tudo bem. Já piquei o final para confirmar. Se abrir mais, rompe no painel, ao fundo... É isso que queres?
- Então chega-te para a direita para não romper no cenário! – Alice mais calma, conciliando.
- Para a direita como? Queres que eu vá para cima do braço da Jimmy? Ou queres que eu te dê um plano igual ao da três? P'ra isso não precisavas de tantas câmaras... Organizem-se! Pensem nestas merdas quando mandam fazer os cenários. Depois vêm para aqui e a gente é que leva com os problemas. Nem um monitor decente pôem aqui no estúdio para podermos ver o final como deve ser... estou farto de foder o juízo ao Escarigo, e nada!
- Ó cinco, qual é a tua? Vá lá, deixa-te de merdas e faz o plano FdP do cabrão do convidado.

Um abraço,
João Salvado

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

O Juiz Decide



Seis meses depois da data que determinou o início oficial das emissões de televisão digital terrestre (TDT), nada está feito.
A PT afirma ter aberto, aqui e alí, a “torneira” do sinal digital, mas nem uma pinga de conteúdos TDT corre nas casas dos consumidores.
Portugal, sempre tão animado pelos choques de inovação tecnológica senta-se, nesta matéria, na fila de trás do comboio europeu, arriscando-se a falhar o calendário comunitário.

A entidade reguladora é directamente culpada dos maus préstimos no “tratamento” do concurso público, e os comissários que nela prestam serviço deveriam, em tempo, ser chamados aos tribunais para responder pelos danos que as “suas” decisões políticas provocaram aos espectadores, aos investidores do sector audiovisual (*), aos técnicos, aos criativos e autores que vêm na Telecinco a esperança de ressurgimento do mercado adormecido e viciado (em jeito de cartel) pelos actuais players.

À falta de melhor interlocutor foi o tribunal que agora veio dar razão à Telecinco, aceitando a providência cautelar que relança o concurso para atribuição do alvará do quinto canal.
Por isso dei comigo, alegremente, a pensar – desde o velho (e talvez saudoso) “Juíz Decide” que não via o martelo da justiça ter influência tão activa na produção televisiva.

(*) – Os danos causados à TELECINCO pela paragem do concurso público, ascendem já a mais de 1 milhão de euros.

Um som olímpico



Em 1987, quando regressei da Holanda, do projecto pan-europeu “Europa TV”, fundei a SINCRO, uma empresa produtora de audiovisuais que fez vida por aí na produção de conteúdos até definhar e morrer no final dos anos 90 derrubada pela torrente de outras mortes que me agitaram a vida.

A SINCRO deu o primeiro emprego a alguns jovens que hoje são profissionais maduros e vão sobrevivendo às agruras do mercado. Alguns foram-me “roubados” bem cedo, pela emergência da “televisão privada” – a SIC, em 1992. Foram danos infligidos à SINCRO, que eu, “patrão cúmplice”, encarei com a maior pacividade porque tinha o coração dividido entre as duas casas.

Um deles, o Nuno Duarte, apareceu-me na SINCRO recomendado por alguém... já não me lembro quem, e integrei-o na equipa como assistente de áudio. Lembro-me do Nuno, baixinho, calado, atento, perspicaz e cumpridor das tarefas operacionais que lhe eram atribuídas.

Depois, na SIC, encontrávamo-nos por vezes em produções conjuntas – eu como realizador e o Nuno como operador de áudio – e recordo com carinho a forma educada e desnecessariamente reverente como o Nuno me cumprimentava, como se ainda estivesse submetido ao dever de respeito pelo “patrão”.
E do Nuno nada mais soube, até hoje.

Encontrámo-nos agora, ocasionalmente, numa dessas esquinas das redes sociais. “Adicionámo-nos” no Facebook, e, na volta, fico a saber que o Nuno é hoje um grande profissional de som, convidado para um importante cargo de engenharia operacional, ao serviço de uma das maiores organizações de eventos de televisão – a Olympic Broadcasting Services.
Corre o mundo a preparar gigantescas operações de televisão pelas quais é o mais alto responsável, apesar da sua estatura modesta. Está agora no Canadá a preparar “Vancouver 2010” – os Jogos Olímpicos de Inverno e enviou-me via Facebook a seguinte mensagem:

Olá Joao,
Venho agradecer-lhe a oportunidade que me deu pelo primeiro trabalho na área da televisão, há 16 anos. Fiquei feliz na altura e sinto reconhecimento agora.
Foi o primeiro de muitos degraus. E o primeiro tem sempre uma importância especial.
Neste momento estou a trabalhar na OBS, empresa do comité Olímpico para a produção do “host brodcast” de todos os jogos olímpicos.
Fui convidado para responsável máximo pelo som, desenho e concepção de engenharia e concretização do projecto.
Estou no degrau mais alto, mas nao me esqueço do primeiro.
Espero que esteja tudo bem consigo espero um dia voltar a Portugal e ter a oportunidade de trabalhar de novo consigo.
Um grande abraço,
Nuno Duarte

O Nuno chegou ao topo. É um internacional, um grande profissional de áudio, e como outros grandes profissionais não perdeu a modéstia, a humildade e a cortesia que os homens de verdadeira fibra sempre mantêm.
Por ele fiquei muito contente e orgulhoso.

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

O alarme

Parto na auto-estrada




Chicago, 13 de Outubro de 2009. Quase três da manhã. Tracy conduzia na Chicago Eisenhower Expressway visivelmente nervoso, enquanto Judy, sua mulher, se torcia de forma quase animalesca no banco ao lado, arfando e bradando palavras sem sentido.
- Queres que pare já aqui? gritou Tracy.
- Não sei! sussurrou Judy visivelmente assolada pelas dores de parto e em total negação com as circunstâncias em que o corpo se rebelava.
Tracy tentou manter a serenidade e decidiu, sozinho, que não havia outra solução. Não conseguiria chegar a tempo com a mulher ao hospital. Seria mais prudente parar na berma, chamar a emergência médica e assumir que o seu quarto filho iria nascer ali mesmo, à beira da estrada.

Que há de fascinante na aventura narrada nesta história? Nada.

Bebés nascidos a caminho do hospital dariam para encher bairros de infantários. Ainda assim não chegariam a ser notícia.
Mas a história poderá ganhar consistência se eu disser que a parturiente Judy, Judy Hsu, é pivô na ABC7 de Chicago – faz o noticiário das 11:00.

Tudo começa a fazer sentido. Judy não é uma mulher qualquer – é pivô na ABC7.
Não seria mulher para parir na beira da estrada a não ser que isso representasse uma experiência radical, digna de uma história narrada em tons épicos na TV.
Vejamos, ao contrário de outras mulheres, parturientes ou não, Judy tem uma vida muito preenchida em que tudo faz sentido.
Começa o dia bem cedo, numa azáfama de cabeleireiros e maquilhadores, com interposição constante de briefings de produção, com telefonemas do editor, com a leitura dos jornais da manhã e um olhar cruzado pela resminha de papéis, mails e uma resenha de sites impressos que a assistente de produção diariamente lhe prepara e entrega em mão, já com sublinhados a highlighter rosa e verde, consoante correspondam à codificação de “negativo” ou “positivo”, páginas salpicadas de post-it nas partes que requerem anotações de produção, tudo agarrado por um clip no canto superior esquerdo. Judy nem sempre se interessa pela leitura da info referente aos convidados que recebe em estúdio, porque acha enfadonho fazê-lo e porque, com uns anos de plateau, cedo aprendeu que pode facilmente conduzir uma entrevista sem dominar o tema ou conhecer o perfil do convidado.
Depois, todos os dias às 11:00 Judy tem o directo, o estúdio - o teleponto, a leitura, a entoação, a entrevista, a credibilidade nas perguntas, o jogo de câmaras, a segurança do domínio dos temas e dossiers. A responsabilidade da prestação perante o olhar devorador de milhares de donas de casa, admiradoras invejosas, que não lhe perdoariam um erro. Não é uma manhã, é um inferno.
O almoço é muitas vezes uma salada vegetariana que a assistente lhe traz ao gabinete. Outras vezes, quando a Direcção justifica um lunch meeting, vão em trabalho até ao resguardado Takashi, em Bucktown, para um sushi onde Judy não dispensa os divinais handmade noodles.
As tardes de Judy são igualmente árduas. Há sempre dois ou três flash meetings, às vezes há mesmo uma reunião pesada que pode durar mais de uma hora. Tem frequentemente sessões fotográficas e entrevistas para a imprensa cor de rosa de Chicago. Nuns dias tem o briefing para a crónica semanal, que os copy escrevem e ela assina, no blog da estação; outro dia tem as sessões de prova de vestuário.
Ginásio só raramente, quando pode.
Às quintas há a reunião de styling, com Jeff Barry Davis, um coreógrafo frustrado que faz de art director no canal e controla a imagem da estação. Frenético, tiquoso e excessivamente interventivo – dos penteados à cor das unhas, dos acessórios de vestuário à iluminação, implica com tudo. Proibiu os cinzentos e os castanhos em antena. Não fosse a relação secreta que (dizem) tem com um dos directores da “major” e já o teriam posto a andar.
Só depois das 15:00, Judy Hsu, consegue desligar o telemóvel de trabalho, activar o pessoal, e regressar a casa pela mesma estrada que haveria de tornar famoso o parto do seu quarto filho, num percurso de 20 minutos, totalmente ocupado pela conversa em alta-voz com Soledad, a mexicana gorda, de tinta preta a vincar as sobrancelhas, que lhe governa a casa e lhe dá conta de todas as novidades – não as do mundo, mas as do lado mais prosaico da vida, como a lasanha que descongela no micro-ondas e os trabalhos de casa dos meninos. Só mesmo à porta de casa Judy desliga o telefone, coisa que sempre confundiu Soledad, desajeitada a cumprimentar e acolher a mulher a quem disse tudo o que havia de relevante nos 20 minutos anteriores.
Mas estes minutos de conversa são o momento estruturante da transfiguração de Judy que, todos os dias pelas 15 horas, passa de pivô a mãe/esposa/mulher.

A reportagem do parto na auto-estrada foi matéria de desenvolvimento nos telejornais da ABC7 de Chicago, ontem e hoje. Mais, todo o estado de Illinois, 13 milhões de habitantes, ou no mínimo aqueles que sintonizam a ABC e suas “afiliadas” tiveram a oportunidade de ver a história do parto não assistido de Judy Hsu – nada que nos possa surpreender, a nós portugueses que neste cantinho do mundo já nos habituámos às falsas notícias que os “telejornais” nos entregam com frequência.
Mas do mal o menos. Convenhamos que um bebé a nascer na auto-estrada é bem mais ternurento e menos obsceno, do que as reportagens do Jornal Nacional sobre o lançamento da nova novela ou, na SIC, a notícia sobre os preparativos dos globos de ouro, ou se quisermos apontar com mais acutilância a ousadia e obscenidade do “jornalismo” nacional, refiram-se os 5 minutos diários do Jornal da Noite dedicados à digestão do programa de entretenimento “Gato Esmiuça...” do dia anterior.

Para quem se quiser deixar comover pelo gesto heróico do pai Tracy que cortou o cordão umbilical do recém-nascido com o atacador do sapato, ali no banco da frente do mono-volume, os berros de Judy misturados com as buzinas de protesto de quem não aprova paragens na auto-estrada, e ele, qual McGiver, antes mesmo de chegar a ambulância com o enfermeiro Kevin Farrow, um bisonte fardado de paramédico, que haveria de conseguir o seu minuto de fama ao ser entrevistado para a ABC, onde teve a oportunidade de transmitir a todo o Illinois, elogioso, verdades grandiloquentes como: “Tracy did a good job!” e “Judy was in great spirit!”, que encaixam soberbamente na construção narrativa da fatalidade do estoicismo popular, tão grata à dramaturgia americana, nas grandes e nas pequenas histórias.
Para quem ainda se comove com coisas destas, a reportagem fica aqui.




As circunstâncias épicas do parto determinaram que ali mesmo, porta do mono-volume aberta, quatro piscas ligados, tapetes de borracha empastados de sangue, placenta e urina, os progenitores, olhando enbevecidos o seu fruto genético, tenham decidido:
- Vamos simbolicamente chamar-lhe Ike!

Ike completará 18 anos no final de 2027. Filho de um caucasiano e de uma asiático-americana, será à entrada do segundo quartel do Sec. XXI, mais um cidadão mestiço do Illinois num continente já totalmente miscigenado.
Nessa altura terá idade para decidir se muda de nome ou se mantém a fórmula “Ike” que o obrigará, nalgumas circunstâncias, a explicar como nasceu... e sobretudo onde nasceu.
Em 2027, a explicação dos acontecimentos da noite de 13 de Outubro de 2009, irá requerer algum enquadramento histórico. A saber: Ike terá que explicar que no início do século as pessoas viam televisão - que através daquela lâmina rectangular a que ironicamente chamavam plasma, lhes chegava um pacote hedonista de impulsos audiovisuais, uma mistura indecifrável de informação e entretenimento, tudo embrulhado em emoções, cor e ritmo, que apaziguava os consumidores, governava os produtores e por isso parecia satisfazer toda a gente.
Que a sua mãe era protagonista nesse circo, dava a cara pelo produto, o que lhe conferia privilégios. E que isso explicava e justificava que um anónimo tivesse recheado a primeiras páginas do seu baby book fotográfico com tão relevante documentação audiovisual.

João Salvado
Lisboa, 14 Outubro 2009

Nota: Li hoje que Tracy e Judy mudaram de opinião e resolveram dar ao bebé o nome Alexander James.