terça-feira, novembro 06, 2012

Lojas FNAC






Lembro-me de as lojas FNAC serem uma bebedeira de livros.

“Bebedeira”, ainda que usado como adjectivo, pode soar deselegante... por isso a marca FNAC repensou o negócio. Foi evoluindo, digamos, “refundando” o conceito.

Agora, as FNAC viraram qualquer coisa como “lojas de porcelana do sec. XXI”. Nomeie-se um autor, preferencialmente um autor pouco literato mas famoso, idealmente um não autor mas famosíssimo, e veremos que ele lá está, na FNAC, na versão para iPad, Android, DVD, Blu-ray, capa para iPhone, plasticina, autocolante e boneco de silicone articulado.
Mas se o quiserem mesmo em livro, vão ter que esperar que um funcionário gótico, de piercings faciais e blusão porta-crachás, vos atenda, e após sessão autista de consulta ao sistema informático, vos diga que a prateleira dos livros é lá bem ao fundo, logo a seguir à secção das Moleskine.

quinta-feira, outubro 18, 2012

Visita de Estado




A foto parece antiga, mas não. É futurista.
Foi tirada aquando da terceira visita da chanceler Merkel aos Territórios do Sul do Império. Mais exactamente numa zona chamada Portugal.
- “Veja como está tudo dizimado, Chanceler. Tal como nos tinha recomendado. Observe a vastidão do território libertado. Só restamos nós, governo, e um banco, literalmente.”
Diz o janota do meio, um tal “passos coelho”, acotovelando contra a parede um acólito, o “portas”, que com o tempo lhe mereceu estatuto de insignificante.
O “portas” refugiava-se naquele tique estranho que tinha adquirido no Reich anterior: quando se sentia pouco à vontade, olhava em frente, para evitar ser notado.
Mais à direita, o quinto, era o “relvas” que olhava sempre a obra realizada, de queixo emproado. Tudo para ele era honoris causa.
O último, o pequenino da direita, era o “gaspar”. Aparentemente reservado nas apresentações protocolares, era exigente numa coisa: queria sempre ser visto o mais próximo possível da Fuhrer, sabia que era aí o seu lugar.


quinta-feira, setembro 20, 2012

Fora da box




Quem hoje entrar no edifício da consulta externa do hospital S. Francisco Xavier, em Lisboa, não encontra um balcão de informações, não encontra uma zona de acolhimento a idosos, não encontra um local onde se possa obter, por aluguer ou empréstimo, uma cadeira de rodas. Não encontra sequer informação sinalética apropriada que lhe indique como chegar ao parque de estacionamento, ao hospital de dia ou à capela mortuária. Mas encontra, isso sim, uma banca da PT/Meo que lhe explicará com prontidão que fibra óptica é coisa que se está sempre a tempo de comprar.
Não será um pouco "fora da box"?
Se os hospitais começam a alugar espaço "público" para serviço de vendas, ainda corro o risco de acordar da anestesia, já de caneta na mão, para abrir uma conta Cristiano Ronaldo.

segunda-feira, setembro 10, 2012

Leave Her to Heaven



O que é o preço da fama?

Será uma apresentadora de televisão fugir do estúdio enroscada no porta-bagagens do meu carro, para evitar o psicopata que a espreita no estacionamento e todos os dias lhe entrega cartas de amor?
Será o pivô do jornal que recebe diariamente uma gravata de seda, vinda de admiradora anónima, com indicações precisas do pandã para camisas e casacos?
Já tenho visto celebridades no check out do hotel, ser-lhes recusado o pagamento da despesa porque “o privilégio da sua estadia foi inteiramente nosso!” – isso não é também um preço para a fama?
Já vi aldeias paradas a aplaudir um carro que passa porque traz o emblema da SIC ou da TVI. Vi policias desculparem-se por ter mandado parar famosos da televisão, que iam apenas bem bebidos e em excesso de velocidade, “siga lá, e já agora um autografozinho para a minha filha, pode ser?
Vi um matulão fazer uma espera ao apresentador, porque não gostou da forma derretida como a esposa, que segurava debaixo do braço, olhava para o entertainer durante o espectáculo.
paparazzi a incomodar gente famosa, e há gente famosa a telefonar ao paparazzo para lhe dizer onde irá estar a certa hora.

“O preço da fama” não passa de um jargãozito,  valorizado para lá ou para cá, consoante a conveniência e as circunstâncias.

Por cá, o mundo dos famosos é um agregado pouco numeroso.
Tudo o que se passa é mundano e o nosso “preço da fama”, seja para pagar seja para receber, nunca ultrapassa uma mão cheia de moedas.
Assistimos, por vezes, a um ou outro episódio despoético, mas nada que perturbe a a nossa capacidade de acomodação da realidade.
Fazemos as coisas assim, pequenas, talvez felizmente.

Mas sobre “o preço da fama” há uma história que sempre me impressionou.
Vem da terra onde se fabricam sonhos e se constrói a ficção, mas é dolorosa, por ser sórdida e verdadeira.
Lembrei-a este fim de semana ao revisitar uns clássicos do cinema: “Heaven Can Wait”, de Ernst Lubitsch; “Leave her to Heaven” (Amar foi a minha perdição), de John Stahl; e “Laura”, de Otto Preminger.
As três obras são atravessadas pela presença da actriz Gene Tierney.
E é no filme da sua vida privada, não na tela, que esta história acontece.

Gene era dotada de uma beleza deslumbrante. Diz-se que o seu primeiro desempenho teatral consistiu, tão só, em atravessar o palco com um balde de água na mão. Poderia ter envelhecido condenada a papéis de figuração, mas não. Logo nesse dia um crítico perspicaz se apressou a escrever na resenha: “é a mais bela carregadora de baldes que alguma vez vi na vida!
Daí até a Twentieth Century-Fox se aperceber do potencial daquela figura, da sua força expressiva e dramática, foi um passo. Acresce que o verde luminoso dos olhos de Gene assentava que nem uma luva nas novas nuances tonais que a anunciada paleta “technicolor” permitia explorar.
Trabalhada por mãos profissionais como Lubitsch e Preminger – e antes disso, pelos braços não menos profissionais de John F. Kennedy – Gene Tierney arrematou tudo: beleza natural, expessão dramática, glamour, trabalho, influência social e talento – a star was born!

A parte menos original é que, a par da fama e do sucesso, corria um lado privado turbulento e pouco feliz na vida da actriz. Instabilidade emocional, azar aos amores... e outras coisas que ainda estavam para vir.
Em 1943, já assoberbada de problemas, Gene cumpriu uma incontornável obrigação social, visitou a Hollywood Canteen.

A Hollywood Canteen, era um armazém transformado em salão de espectáculos, de dança e  restaurante. Funcionava como instituição de motivação e honra para os heróis militares destacados para a guerra. Uma iniciativa patriótica impulsionada por Bette Davis.
Na Hollywood Canteen, entrava-se, comia-se, bebia-se, dançava-se, socializava-se... tudo sem pagar – a farda era o único bilhete de entrada.
Homens e mulheres ligados às forças armadas ou à máquina do Estado que a alimentava, tinham divertimento garantido.
Para tornar a ideia ainda mais brilhante, a Hollywood Canteen funcionava com empregados muito especiais. A gente famosa de Hollywood garantia todos os serviços, em voluntariado.

Actores, actizes, músicos, cantores, bailarinas, produtores, realizadores, técnicos, criativos, enfim, artistas e famosos... todos por lá passavam para homenagear os que serviam a Pátria. Famosos aos magotes serviam à mesa, lavavam a loiça, cozinhavam e limpavam as casas de banho (ou fingiam), cantavam, dançavam, improvisavam espectáculos e galvanizavam a soldadesca em torno do ideal patriótico – um lugar de epifania para quem daí a dias embarcava para a guerra do Pacífico
Era uma espécie de botequim em porto de abalada, mas com fins nobres, respeitáveis e patrióticos. Um soldado motivado é meia guerra vencida.
Em menos de um ano um milhão de soldados, tinham passado pela “cantina”, convencidos que não se morre nas ilhas Marianas nem nas Salomão carregando na mochila um beijo e um autógrafo de Lucille Ball ou de Mary Pickford.
Mas não eram só essas que serviam à mesa. Também lá iam Abbott & Costello, Fred Astair, Louis Armstrong, Cecil B DeMille, Lauren Bacall, Frank Sinatra, Count Basie, Shirley Temple, Robert Mitchum, Marlene Dietrich, Cole Porter, Ava Gardner, Ginger Rogers, e tantos, tantos outros... Aliás, sabe-se, iam lá todos.

Todos passaram pela Hollywood Canteen, selando a obrigação patriótica e, já agora, colhendo o reconhecimento público por o terem feito.

Foi num cenário difícil, deprimida pelo insucesso no amor, exausta pela rodagem de “O Céu Pode Esperar”, e já numa gravidez muito avançada, que Gene Tierney cumpriu a obrigação solidária de passar, também ela, por Hollywood Canteen.
Em finais de 1943, a “cantina” recebeu a visita da “mulher mais bonita da história do cinema” como lhe chamava Darryl Zanuck, fundador da Twentieth Century-Fox.
Uma visita fugaz, apenas uma, porque Gene não estava em condições de festança.
Mas mesmo assim tudo havia ainda de piorar.
Após a visita, Gene adoeceu com rubéola. E em consequência da doença, a bebé Daria, a sua primeira filha, nasceu cega, surda e deficiente profunda.

Por razões que não colhem nesta narrativa, a Hollywood Canteen fechou as portas uns anos mais tarde. Já tinha feito felizes por uma noite, 3 milhões de soldados aliados.

Os problemas da filha, o desgosto de uma vida carregada de dor e insucesso afectivo, contrastando com a imagem pública que alimentava, devastavam Gene Tierney.

Mas a amargura de Gene dilacerou, quando anos mais tarde uma fã confessa se aproximou e lhe contou uma história: admirava-a de tal forma, que naquela noite, na Hollywood Canteen, não pode deixar de a ir ver. Toda a gente dizia que Gene era ainda mais bonita ao vivo que na tela. A vontade de a ver era tão forte que decidiu desrespeitar as indicações de isolamento e quarenta a que estava clinicamente obrigada, por ter rubéola, para a poder ver e beijar em carne osso.

Gene, recebeu a informação mortificada. E num doloroso silêncio, afastou-se.

Nunca haveria de comentar este episódio, em público, mas deixou uma referência no seu livro de memórias: “A partir dessa data tornei-me totalmente insensível a qualquer comentário elogioso!

Daria Cassini, assim se chamava a filha deficiente de Gene, sobreviveu à mãe. Viveu até aos 66 anos. Muito provavelmente graças à assistência e aos cuidados médicos generosamente garantidos em testamento, por Howard Hughes, amigo solidário de Gene.
Daria faleceu, faz agora dois anos, simbolicamente a 11 de Setembro de 2010.
Leave her to Heaven.

Lisboa, 10 Setembro 2012
JS

sábado, setembro 01, 2012

Em casa de ferreiro...?

shooting the MGM logo, 1924

Há na RTP bons profissionais da imagem, do som, da edição, do guião, do texto e da narrativa, da realização, da ilustração gráfica, da reportagem e do jornalismo, da produção, etc., etc.
Tantos!
Serão centenas, milhares?
São criativos, habituados a trabalhar histórias e enredos, reais ou ficcionados, em que os protagonistas são sempre os outros – nós, o mundo.

Desta vez, o coração desta família profissional, palpita incomodado com o que se passa dentro de sua casa.
Há tanta coisa para contar, para perguntar, para explicar... e há sobretudo a vontade de exercer o direito inalienável de debater a verdade.
Mas pouco tenho visto por aí feito com o seu trabalho o seu saber.

Encontram-se uns blogs, uns posts, uns comentários de facebook, uns links, uns artigos.
É pouco, para as ferramentas poderosas que esta família domina.

Não falo dos meios da RTP, claro; nem dos conteúdos, nem das antenas. Não há apelos insurrectos nesta ideia. São gente com princípios éticos bem claros, não manipulam em causa própria.

Mas têm em casa as ferramentas e o saber: os telemóveis, as câmaras amadoras; têm os portáteis que fazem edição e grafismo; dominam as técnicas e têm o conhecimento das linguagens e das narrativas... Detêm, como todos, o acesso às plataformas digitais onde a opinião ainda vai circulando democrática e universal.

Que outra família profissional poderia gabar-se desta agilidade?
Estranho, não os ter visto por aí.

Se um viral, um flash mob, vlog, uma animação gráfica, um stop-motion, um stand-up, podem fazer milagres para alavancar uma ideia comercial, um produto de consumo, um serviço... Porque não fazê-lo, com criatividade e objectividade, para alavancar uma razão, um argumento válido esquecido ou filtrado pela comunicação mainstream, que eles também fazem, por obrigação de ofício?

Não é agitação panfletária, nem subversiva, nem cinema-guerrilha.

Um viral é um viral.
E um viral pode ter mais verdade informativa e mais visibilidade que uma entrevista em prime time.

Estou com eles. Espero vê-los mais por aí.

JS

sexta-feira, agosto 31, 2012

Concessionar a consciência

Petar Meseldžija - Giants and the Bullfight

Numa altura em que a RTP tanto precisa do carinho público, e o público tanto precisa de uma RTP distinta, logo aparece a costela marialva da televisão e espeta um ferro curto nessa relação de confiança.

quarta-feira, agosto 29, 2012

Bilhete de ida



Preservo as raízes, mas perdi as razões, Excelências.
Obrigado Senhor Presidente e meus Senhores, pela carta de embarque.
Aceito viajar com bilhete de ida, para qualquer destino, desde que me deixem levar caneta e um prontuário ortográfico.
A ser possível levaria também o dicionário de Sinónimos, sempre me poderia corresponder com Vossas Excelências.