domingo, março 29, 2009

O empata-canais


As declarações do ministro Augusto Santos Silva (ASS) acerca do esvaziamento do concurso público para o quinto canal de televisão são deselegantes e humilhantes para ambas as candidaturas derrotadas.
Nem o projecto da Telecinco, nem o da Zon são "televisões de vão de escada", como acusou o ministro.
O projecto Telecinco configura uma estação de televisão moderna com a envergadura das grandes televisões privadas generalistas.
A proposta Zon2 traduz-se numa televisão menos ambiciosa, menos apropriada à classificação de "generalista", vocacionada para servir de montra promocional aos conteúdos do cabo, mas ainda assim, profissional, e adequada aos objectivos que a Zon definiu.
Foram ambos feitos por equipas multi-disciplinares de profissionais da Comunicação e nenhum dos técnicos envolvidos merecia ser enxovalhado nesta fase de (temporária) derrota.
Mas, claro, o problema não é dos candidatos ao quinto canal, é do ministro.
ASS tem mau perder, e também não sabe comportar-se à altura, quando ganha.
A acidez que lhe ferve na alma é superior ao esforço de contenção que o dever de missão pública (que lhe pagamos), mereceria.
Na euforia da vitória, mal tinham passado 24 horas sobre a decisão reprobatória, já ASS “malhava” nos reprovados, humilhando-os profissionalmente e assumindo, na substância das declaração, a paternidade da decisão da ERC.
ASS poderia ter-se demarcado da decisão, poderia ter simulado que foi apenas espectador do veredicto da Entidade Reguladora, mas não. Quis deixar claro de onde emanam as orientações. Por tabela, ASS humilha também os (3) comissários que a executaram a seu mando, remetendo-os para a figura de meros executantes, de correias de transmissão do aparelho partidário. Para concluir com “cereja no topo”, ASS escolheu desferir a perfídia em sede de uma Comissão Parlamentar de Ética. ASS é o ministro que temos.
O escândalo ERCgate do quinto canal ainda irá fazer correr muita tinta, e provavelmente, acabará nos tribunais com decisões que pouco abonarão o comportamento e a política do actual ministro.
Para que conste, convém deixar aqui algumas verdades que o ministro quis ignorar.
O projecto "vão de escada" da Telecinco, representa:
- um bem público e social gratuito. Uma oferta alternativa à televisão generalista existente.
- pago e montado por capitais privados. O investimento é totalmente privado e ronda os 18 milhões de euros.
- com elevadas receitas para o Estado. O quinto canal não representa despesa, nem ónus financeiro para o Estado. Pelo contrário, o Estado receberá dinheiro, tributação directa e impostos, do operador do quinto canal.
- com garantia de suporte financeiro. O investimento assegura a subsistência económica do canal nos primeiros três anos de actividade (pressuposto da candidatura).
- com a criação de 330 novos postos de trabalho directos, e muitos indirectos, com contratos sem termo (compromisso da candidatura).
- sujeito a avaliações intercalares (bienais) da ERC, para a eventualidade de incumprimento do alvará, o que não acontece com os outros canais licenciados (pressuposto do concurso público).
A decisão salomónica de ASS, apenas motivada pelo forte preconceito pessoal, desperdiça ainda a capacidade tecnológica já preparada pela PT para acolher conteúdos de televisão digital e atrasa Portugal na convergência com a Europa no cumprimento dos calendários comunitários de TDT.
Pelo que faz e pelo que diz ASS envergonha-nos. A missão pública que lhe confiaram deveria impor competência, integridade e elevação.
Não o queríamos, mas é o ministro que temos, por enquanto.

João Salvado
Realizador de televisão
Sócio e co-autor do projecto TELECINCO

sexta-feira, março 27, 2009

As armas de destruição maciça da ERC


Para excluir a TELECINCO, a ERC muniu-se de todas as armas. Mesmo aquelas de que apenas Durão Barroso e George Bush conhecem o paradeiro: as de destruição maciça.
A mentira, ou melhor, a mãe de todas as mentiras, que consiste em trocar cirurgicamente um “sim” por um “não” foi uma das tácticas de Azeredo Lopes. E isto, pasme-se, no texto de uma Resolução do Conselho de Ministros publicada no Diário da República.
Sabemos como é fácil manipular argumentos e matéria subjectiva. Mas o esmero e o empenho persecutório da ERC foram mais longe.
Veja-se este exemplo:
- O Conselho de Ministros determinou a 17 de Março, com publicação no Diário da República, que a cobertura do território nacional (para a Televisão Digital Terrestre) será de 100% no final de 2010.
- A 23 de Março, a ERC delibera a exclusão da TELECINCO com o seguinte fundamento: nos primeiros anos de funcionamento do novo canal, (leia-se, final de 2010, 2011 e 2012, caso a licença fosse atribuida já nos próximos meses) não é tecnicamente possível a cobertura da totalidade do território nacional

Alguém faça o favor de transmitir esta pérola aos advogados da Telecinco.

sábado, março 21, 2009

O jogo de amanhã


Esta noite o Jornal da Noite da SIC dedicava longuíssimos minutos do alinhamento à notícia que não o é - só será notícia amanhã - o jogo Benfica-Sporting, final de uma taça que também não é - nem Taça de Portugal nem Campeonato.
Foram minutos intermináveis de reportagens, directos, comentários, entrevistas, acerca do estádio que ainda está vazio, dos preparativos da polícia para o estádio cheio, da taça (objecto inerte) à espera de dono, das interrogações sobre a lesão do jogador A e as teorias do treinador B. Vida e paixão do espectáculo de amanhã - uma construção dramática do nada, uma ansiedade colectiva montada teatralmente.

Tudo graficamente enquadrado pela frase, em rodapé, e em permanência, mais promocional do que informativa: “Amanhã às 19:45... tem transmissão em directo na SIC”.
Três jornalistas no terreno num “ping pong de informação”. Um dos reporteres, jornalista com a carteira profissional nº ___5, captado pela câmara de um repórter de imagem igualmente detentor de carteira profissional, elabora sobre o vazio da notícia enquadrado num fundo onde se destaca a marca publicitária do patrocinador. Tudo isto para descanso do departamento comercial da estação que certamente acordou um conjunto de cláusulas apensas ao contrato de transmissão.

Um conteúdo da grelha de programas de amanhã, foi o tema forte da “informação” da SIC, de hoje. Os jornais das televisões concorrentes, alheados noutros temas, não tocaram no assunto.
E porquê? Porque não sobrevalorizam os interesses comerciais à matéria informativa? Nada disso. Fariam (fazem) exactamente o mesmo se tivessem sido os detentores dos direitos de transmissão do espectáculo. Mas por não o serem, a RTP e a TVI ficaram entregues à sua “rotina informativa”: a RTP mostrando a realidade deturpada do mundo, passada pelo filtro cinzento, pró-governamental; a TVI animada no exuberante friek-show das sextas-feiras, populista, pistoleiro, demagógico, onde todas as maleitas do mundo vão a julgamento no jornal, e no final, por veredicto do pivô e comentadores, é atribuida culpa formal ao primeiro-ministro.
No país em que vivemos é este o “jornalismo” que temos.
Amanhã de manhã o (eventualmente existente) Conselho de Redacção da SIC viverá pacificamente com a assunto – nada se passou, nada aconteceu.
Também amanhã, eventualmente, o Conselho Regulador da ERC pronunciar-se-á pelo esvaziamento do concurso para um canal alternativo de televisão, barrando o caminho ao nascimento de uma televisão inovadora (leia-se perturbadora), dando corpo e razão à vontade niilista dos interesses instalados que querem que nada mude, que nada aconteça, para perpetuar o estado de coisas em que a Televisão e o País vivem.

João Salvado
Sexta-feira, 20 Março 2009, 22.30.