quinta-feira, outubro 29, 2009

O Juiz Decide



Seis meses depois da data que determinou o início oficial das emissões de televisão digital terrestre (TDT), nada está feito.
A PT afirma ter aberto, aqui e alí, a “torneira” do sinal digital, mas nem uma pinga de conteúdos TDT corre nas casas dos consumidores.
Portugal, sempre tão animado pelos choques de inovação tecnológica senta-se, nesta matéria, na fila de trás do comboio europeu, arriscando-se a falhar o calendário comunitário.

A entidade reguladora é directamente culpada dos maus préstimos no “tratamento” do concurso público, e os comissários que nela prestam serviço deveriam, em tempo, ser chamados aos tribunais para responder pelos danos que as “suas” decisões políticas provocaram aos espectadores, aos investidores do sector audiovisual (*), aos técnicos, aos criativos e autores que vêm na Telecinco a esperança de ressurgimento do mercado adormecido e viciado (em jeito de cartel) pelos actuais players.

À falta de melhor interlocutor foi o tribunal que agora veio dar razão à Telecinco, aceitando a providência cautelar que relança o concurso para atribuição do alvará do quinto canal.
Por isso dei comigo, alegremente, a pensar – desde o velho (e talvez saudoso) “Juíz Decide” que não via o martelo da justiça ter influência tão activa na produção televisiva.

(*) – Os danos causados à TELECINCO pela paragem do concurso público, ascendem já a mais de 1 milhão de euros.

Um som olímpico



Em 1987, quando regressei da Holanda, do projecto pan-europeu “Europa TV”, fundei a SINCRO, uma empresa produtora de audiovisuais que fez vida por aí na produção de conteúdos até definhar e morrer no final dos anos 90 derrubada pela torrente de outras mortes que me agitaram a vida.

A SINCRO deu o primeiro emprego a alguns jovens que hoje são profissionais maduros e vão sobrevivendo às agruras do mercado. Alguns foram-me “roubados” bem cedo, pela emergência da “televisão privada” – a SIC, em 1992. Foram danos infligidos à SINCRO, que eu, “patrão cúmplice”, encarei com a maior pacividade porque tinha o coração dividido entre as duas casas.

Um deles, o Nuno Duarte, apareceu-me na SINCRO recomendado por alguém... já não me lembro quem, e integrei-o na equipa como assistente de áudio. Lembro-me do Nuno, baixinho, calado, atento, perspicaz e cumpridor das tarefas operacionais que lhe eram atribuídas.

Depois, na SIC, encontrávamo-nos por vezes em produções conjuntas – eu como realizador e o Nuno como operador de áudio – e recordo com carinho a forma educada e desnecessariamente reverente como o Nuno me cumprimentava, como se ainda estivesse submetido ao dever de respeito pelo “patrão”.
E do Nuno nada mais soube, até hoje.

Encontrámo-nos agora, ocasionalmente, numa dessas esquinas das redes sociais. “Adicionámo-nos” no Facebook, e, na volta, fico a saber que o Nuno é hoje um grande profissional de som, convidado para um importante cargo de engenharia operacional, ao serviço de uma das maiores organizações de eventos de televisão – a Olympic Broadcasting Services.
Corre o mundo a preparar gigantescas operações de televisão pelas quais é o mais alto responsável, apesar da sua estatura modesta. Está agora no Canadá a preparar “Vancouver 2010” – os Jogos Olímpicos de Inverno e enviou-me via Facebook a seguinte mensagem:

Olá Joao,
Venho agradecer-lhe a oportunidade que me deu pelo primeiro trabalho na área da televisão, há 16 anos. Fiquei feliz na altura e sinto reconhecimento agora.
Foi o primeiro de muitos degraus. E o primeiro tem sempre uma importância especial.
Neste momento estou a trabalhar na OBS, empresa do comité Olímpico para a produção do “host brodcast” de todos os jogos olímpicos.
Fui convidado para responsável máximo pelo som, desenho e concepção de engenharia e concretização do projecto.
Estou no degrau mais alto, mas nao me esqueço do primeiro.
Espero que esteja tudo bem consigo espero um dia voltar a Portugal e ter a oportunidade de trabalhar de novo consigo.
Um grande abraço,
Nuno Duarte

O Nuno chegou ao topo. É um internacional, um grande profissional de áudio, e como outros grandes profissionais não perdeu a modéstia, a humildade e a cortesia que os homens de verdadeira fibra sempre mantêm.
Por ele fiquei muito contente e orgulhoso.

quinta-feira, outubro 15, 2009

O alarme

Parto na auto-estrada




Chicago, 13 de Outubro de 2009. Quase três da manhã. Tracy conduzia na Chicago Eisenhower Expressway visivelmente nervoso, enquanto Judy, sua mulher, se torcia de forma quase animalesca no banco ao lado, arfando e bradando palavras sem sentido.
- Queres que pare já aqui? gritou Tracy.
- Não sei! sussurrou Judy visivelmente assolada pelas dores de parto e em total negação com as circunstâncias em que o corpo se rebelava.
Tracy tentou manter a serenidade e decidiu, sozinho, que não havia outra solução. Não conseguiria chegar a tempo com a mulher ao hospital. Seria mais prudente parar na berma, chamar a emergência médica e assumir que o seu quarto filho iria nascer ali mesmo, à beira da estrada.

Que há de fascinante na aventura narrada nesta história? Nada.

Bebés nascidos a caminho do hospital dariam para encher bairros de infantários. Ainda assim não chegariam a ser notícia.
Mas a história poderá ganhar consistência se eu disser que a parturiente Judy, Judy Hsu, é pivô na ABC7 de Chicago – faz o noticiário das 11:00.

Tudo começa a fazer sentido. Judy não é uma mulher qualquer – é pivô na ABC7.
Não seria mulher para parir na beira da estrada a não ser que isso representasse uma experiência radical, digna de uma história narrada em tons épicos na TV.
Vejamos, ao contrário de outras mulheres, parturientes ou não, Judy tem uma vida muito preenchida em que tudo faz sentido.
Começa o dia bem cedo, numa azáfama de cabeleireiros e maquilhadores, com interposição constante de briefings de produção, com telefonemas do editor, com a leitura dos jornais da manhã e um olhar cruzado pela resminha de papéis, mails e uma resenha de sites impressos que a assistente de produção diariamente lhe prepara e entrega em mão, já com sublinhados a highlighter rosa e verde, consoante correspondam à codificação de “negativo” ou “positivo”, páginas salpicadas de post-it nas partes que requerem anotações de produção, tudo agarrado por um clip no canto superior esquerdo. Judy nem sempre se interessa pela leitura da info referente aos convidados que recebe em estúdio, porque acha enfadonho fazê-lo e porque, com uns anos de plateau, cedo aprendeu que pode facilmente conduzir uma entrevista sem dominar o tema ou conhecer o perfil do convidado.
Depois, todos os dias às 11:00 Judy tem o directo, o estúdio - o teleponto, a leitura, a entoação, a entrevista, a credibilidade nas perguntas, o jogo de câmaras, a segurança do domínio dos temas e dossiers. A responsabilidade da prestação perante o olhar devorador de milhares de donas de casa, admiradoras invejosas, que não lhe perdoariam um erro. Não é uma manhã, é um inferno.
O almoço é muitas vezes uma salada vegetariana que a assistente lhe traz ao gabinete. Outras vezes, quando a Direcção justifica um lunch meeting, vão em trabalho até ao resguardado Takashi, em Bucktown, para um sushi onde Judy não dispensa os divinais handmade noodles.
As tardes de Judy são igualmente árduas. Há sempre dois ou três flash meetings, às vezes há mesmo uma reunião pesada que pode durar mais de uma hora. Tem frequentemente sessões fotográficas e entrevistas para a imprensa cor de rosa de Chicago. Nuns dias tem o briefing para a crónica semanal, que os copy escrevem e ela assina, no blog da estação; outro dia tem as sessões de prova de vestuário.
Ginásio só raramente, quando pode.
Às quintas há a reunião de styling, com Jeff Barry Davis, um coreógrafo frustrado que faz de art director no canal e controla a imagem da estação. Frenético, tiquoso e excessivamente interventivo – dos penteados à cor das unhas, dos acessórios de vestuário à iluminação, implica com tudo. Proibiu os cinzentos e os castanhos em antena. Não fosse a relação secreta que (dizem) tem com um dos directores da “major” e já o teriam posto a andar.
Só depois das 15:00, Judy Hsu, consegue desligar o telemóvel de trabalho, activar o pessoal, e regressar a casa pela mesma estrada que haveria de tornar famoso o parto do seu quarto filho, num percurso de 20 minutos, totalmente ocupado pela conversa em alta-voz com Soledad, a mexicana gorda, de tinta preta a vincar as sobrancelhas, que lhe governa a casa e lhe dá conta de todas as novidades – não as do mundo, mas as do lado mais prosaico da vida, como a lasanha que descongela no micro-ondas e os trabalhos de casa dos meninos. Só mesmo à porta de casa Judy desliga o telefone, coisa que sempre confundiu Soledad, desajeitada a cumprimentar e acolher a mulher a quem disse tudo o que havia de relevante nos 20 minutos anteriores.
Mas estes minutos de conversa são o momento estruturante da transfiguração de Judy que, todos os dias pelas 15 horas, passa de pivô a mãe/esposa/mulher.

A reportagem do parto na auto-estrada foi matéria de desenvolvimento nos telejornais da ABC7 de Chicago, ontem e hoje. Mais, todo o estado de Illinois, 13 milhões de habitantes, ou no mínimo aqueles que sintonizam a ABC e suas “afiliadas” tiveram a oportunidade de ver a história do parto não assistido de Judy Hsu – nada que nos possa surpreender, a nós portugueses que neste cantinho do mundo já nos habituámos às falsas notícias que os “telejornais” nos entregam com frequência.
Mas do mal o menos. Convenhamos que um bebé a nascer na auto-estrada é bem mais ternurento e menos obsceno, do que as reportagens do Jornal Nacional sobre o lançamento da nova novela ou, na SIC, a notícia sobre os preparativos dos globos de ouro, ou se quisermos apontar com mais acutilância a ousadia e obscenidade do “jornalismo” nacional, refiram-se os 5 minutos diários do Jornal da Noite dedicados à digestão do programa de entretenimento “Gato Esmiuça...” do dia anterior.

Para quem se quiser deixar comover pelo gesto heróico do pai Tracy que cortou o cordão umbilical do recém-nascido com o atacador do sapato, ali no banco da frente do mono-volume, os berros de Judy misturados com as buzinas de protesto de quem não aprova paragens na auto-estrada, e ele, qual McGiver, antes mesmo de chegar a ambulância com o enfermeiro Kevin Farrow, um bisonte fardado de paramédico, que haveria de conseguir o seu minuto de fama ao ser entrevistado para a ABC, onde teve a oportunidade de transmitir a todo o Illinois, elogioso, verdades grandiloquentes como: “Tracy did a good job!” e “Judy was in great spirit!”, que encaixam soberbamente na construção narrativa da fatalidade do estoicismo popular, tão grata à dramaturgia americana, nas grandes e nas pequenas histórias.
Para quem ainda se comove com coisas destas, a reportagem fica aqui.




As circunstâncias épicas do parto determinaram que ali mesmo, porta do mono-volume aberta, quatro piscas ligados, tapetes de borracha empastados de sangue, placenta e urina, os progenitores, olhando enbevecidos o seu fruto genético, tenham decidido:
- Vamos simbolicamente chamar-lhe Ike!

Ike completará 18 anos no final de 2027. Filho de um caucasiano e de uma asiático-americana, será à entrada do segundo quartel do Sec. XXI, mais um cidadão mestiço do Illinois num continente já totalmente miscigenado.
Nessa altura terá idade para decidir se muda de nome ou se mantém a fórmula “Ike” que o obrigará, nalgumas circunstâncias, a explicar como nasceu... e sobretudo onde nasceu.
Em 2027, a explicação dos acontecimentos da noite de 13 de Outubro de 2009, irá requerer algum enquadramento histórico. A saber: Ike terá que explicar que no início do século as pessoas viam televisão - que através daquela lâmina rectangular a que ironicamente chamavam plasma, lhes chegava um pacote hedonista de impulsos audiovisuais, uma mistura indecifrável de informação e entretenimento, tudo embrulhado em emoções, cor e ritmo, que apaziguava os consumidores, governava os produtores e por isso parecia satisfazer toda a gente.
Que a sua mãe era protagonista nesse circo, dava a cara pelo produto, o que lhe conferia privilégios. E que isso explicava e justificava que um anónimo tivesse recheado a primeiras páginas do seu baby book fotográfico com tão relevante documentação audiovisual.

João Salvado
Lisboa, 14 Outubro 2009

Nota: Li hoje que Tracy e Judy mudaram de opinião e resolveram dar ao bebé o nome Alexander James.

sexta-feira, junho 26, 2009

Michael Jackson


As redes sociais Twitter e Facebook foram as primeiras - as mais rápidas - fontes de divulgação da morte de Michael Jackson.

25 de Junho, quase meia-noite, hora de Portugal - a CNN ainda anuncia o estado de coma de Michael Jackson, hesitando na confirmação da morte do artista, já na Wikipédia tinha sido actualizada a página biográfica do "rei da pop" com os dados da sua morte.

Ficam os factos para reflexão.

quinta-feira, junho 25, 2009

Vitela ali na mesa


Alguns professores (ou alguém em nome da classe) decidiram "realizar" e difundir um pequeno vídeo, um clip, que se propõe "trazer para a primeira página a questão das reformas destruidoras promovidas pelo Ministério da Educação".

Tudo estaria bem, nada justificaria este comentário, não fosse o vídeo em questão ser uma vergonhosa cópia, um descarado plágio, do pequeno filme Mankind is no Island feito com telemóvel, que ganhou o prémio de melhor curta metragem do mundo e que rapidamente obteve consagração e divulgação internacional.
O mail que embrulha o convite viral ao visionamento do vídeo dos "professores" refere ingenuamente: "já esteve no YouTube mas (estranhamente) foi bloqueado"... ora, porque terá sido, senhores realizadores/professores?
Há uma enorme diferença entre Mankind is no Island e o plágio Professores Unidos - o primeiro é genial, o segundo é medíocre.
Pela qualidade formal e pelas causas que agitam, comparar ou querer equivaler um ao outro seria a mesma coisa que confundir vitela à milanesa com vitela ali na mesa.

Os "realizadores" deste viral assumem, erradamente, que apontar a câmara para o mesmo local significa obter os mesmos resultados... que imitar o artista significa fazer arte... e, igualmente, confundem tique com estilo, presunção com qualidade.

Copiar, é um péssimo exemplo para professores.

Copiar às escondidas é ainda pior e chama-se cabular.

Exibir desavergonhadamente a cábula, nos meus tempos de aluno dava falta de castigo.

O vídeo "dos professores" não merece visionamento, sequer.
Mas o mail que o dissemina roga com clareza: "Toca a clicar... O objectivo é conseguir o maior número de visualizações possível, de forma a que o vídeo passe a ter destaque na página principal do Sapo Vídeos. Quem sabe se não conseguimos mais uma atenção nos media nacionais".
(Imagem: Aquamanil, vaso persa, 1206)

terça-feira, junho 09, 2009

Eleições I - A noite em que os partidos voltaram a não perceber nada do que se está a passar


É sempre bonito ver todos os partidos contentes, satisfeitos com o resultado eleitoral.
Ontem, foi a noite em que toda a gente venceu, como explicou Ricardo Araújo Pereira, na SIC.

O PSD venceu porque ganhou ao PS.
O PS venceu porque sobreviveu às dificuldades.
O Bloco de Esquerda venceu porque ultrapassou o PCP.
A CDU venceu porque o PC vence sempre.
O CDS venceu porque ganhou às sondagens.

Contabilize-se também a vitória de 6 milhões de portugueses (200 milhões de europeus) que votaram... as urnas ao abandono.
E sairam naturalmente vencedoras as mentes hipócritas que acham que não votar é sinal de ignorância, de irresponsabilidade e apropriado a quem não tem preocupações sociais. Venceram, porque são invencíveis na presunção e no convencimento. Nenhum argumento conseguirá demovê-los. Cabeças destas são o maior estímulo ao incremento da abstenção.

Haverá diferentes razões para a abstenção. Uma delas traduz um veemente voto de protesto. Protesto contra a actuação de políticos e partidos. Contra as soluções em oferta.
Muita gente terá decidido não votar, não por indiferença ou comodismo, mas por reconhecer utilidade estratégica no acto – por sentir necessidade de incomodar os políticos (autistas, falsos e ineficientes, quando instalados) sabendo que a abstenção é o que mais os pode perturbar.

A líder do partido vencedor, Manuela Ferreira Leite, referiu ontem no discurso de vitoria: “Dos resultados eleitorais há que sublinhar, em primeiro lugar, o elevado nível de abstenção. Este facto, que não é novo, tem necessariamente de conduzir à ponderação e à correcção das suas causas. Infelizmente é uma questão que todos refereciam nas noites eleitorais, mas que no dia seguinte deixa de estar na agenda dos responsáveis políticos.
Um tiro no pé!
Vamos aguardar uns meses até perguntar à líder e ao partido, o que terão, entretanto, feito para corrigir a situação e agir de acordo com o sentido das palavras da noite eleitoral – nada, seguramente!
Esta hipocrisia, esta diferença entre praxis e teoria, só pode contribuir para o incremento do abstencionismo militante ou da indiferença.

Na noite de ontem ficaram algumas perguntas por responder:
- inimaginável! Porque chorou Paulo Portas de alegria, na noite em que "trotskistas" ultrapassaram "democratas-cristãos" (segundo a nomenclatura do próprio)?
- nas últimas Europeias, em 2004, o PSD obteve 33% dos votos, e perdeu as eleições. Ontem, ganhou-as com 31%. O que é que celebra?
- ...porque será? É tão evidente que o PSD não esperava estes resultados, não estava preparado para a vitória! Desde o primeiro, nenhum discurso de vitória tem sido prospectivo, virado para o futuro, mas, pelo contrário, são ressabiados, virados contra o derrotado.
Na semântica da vitória as pobres cabeças do PSD continuam insistentemente a exorcizar o passado, a fazer a carpição e o pranto de oposição, a que estão habituados.

Em resumo, estes resultados eleitorais trouxeram-nos a alegria de ver castigado o partido e o governo que tem gerido mal o país, com arrogância, mas deixam-me também um amargo de boca... aliás, dois:
- a oposição, a alternativa de governação ao PS (à direita, porque a outra só conta em termos parlamentares), é ainda mais incompetente que o próprio governo. Isso é notório, e não augura nada de bom.
- os resultados eleitorais internacionais viabilizam a permanência de Durão Barroso na Presidência da Comissão. Vamos continuar a levar com essa nódoa política que nos envergonha por tudo, e ainda mais por falar a nossa língua.

Já que a eleição era europeia, fica aqui mais um registo, vindo de um círculo eleitoral bem distante do nosso - na Suécia, o Partido Pirata elegeu um deputado ao arrecadar 7,1% dos votos nacionais.
O Partido Pirata que reivindica a livre circulação e download de ficheiros – música, filmes, etc. (eMule, torrents, por ex.) exige uma “nova ordem internacional” quanto às políticas de direitos autorais, de liberdade de utilização das redes informáticas, contra a regulação da net ao serviço dos interesses corporativos e multinacionais.
A velha Europa ainda nos traz destas alegrias. Quem disse que somos um continente envelhecido?
Há alguém por aí que alinhe em formar o PPP – Partido Pirata Português?

quarta-feira, junho 03, 2009

Western Pita Shoarma


Março de 2006, Mahmoudiya, arredores de Bagdad.
Steven Green, um cabo para-quedista norte-americano destacado num pequeno aquartelamento cuja missão era vigiar um cruzamento de duas estradas nacionais, resolveu quebrar a rotina das enfadonhas noites de calor e bebedeira com whisky iraquiano e animar o serão dos camaradas de combate com dose reforçada de adrenalina.
Planeou uma noite memorável, uma festa que só o sangue árabe lhe poderia proporcionar.
Green e quatro soldados amigos equiparam-se com roupa interior preta – ninja suits, como lhe chamam em combate – e bem bebidos, com os vapores do whisky marado a bater, escaparam-se à surrapa do aquartelamento, dirigindo-se a uma casa nas proximidades, uma moradia rural isolada, a escassa centena de metros do aquartelamento militar.
Já sabiam quem iam encontrar.

Arrombaram a porta, entraram em casa e isolaram a filha mais velha da família, a jovem Abeer Qasim Hamza, de 14 anos.
Steven, sempre o mais ousado do grupo, arrastou o pai, a mãe e a irmã de 5 anos, para um quarto anexo e matou-os sumariamente com tiros na cabeça.
Aliviado, regressou à sala onde os companheiros se divertiam a violar a jovem iraquiana de 14 anos exclamando: - Já está! Matei-os a todos!
Dedicou-se então a partilhar com os companheiros o corpo da jovem Abeer Qasim
Aquele corpo virgem já lhe tinha passado pelas mãos nas revistas de checkpoint, mas agora ia poder consumi-lo com prazer descartável.
Consumada a satisfação, Steven tapa a cabeça da jovem com uma almofada e dispara vários tiros, desfazendo-lhe o crânio.
Antes da retirada incendeiam o corpo violado e a casa, para destruição de pistas e regressam ao aquartelamento, para descansar.

Havia já algum tempo que aquela família iraquiana lhes andava debaixo de olho – a jovem Abeer Qasim, sobretudo.
Diariamente, no regresso da família a casa, a monotonia do deserto ganhava alguma animação: no checkpoint, contra a parede e de arma bem apontada à nuca, a pretexto dessa abstracção que é a ameaça terrorista, aproveitavam-se para revistar Abeer Qasim, humilhando-a, apalpando-a com grotesco detalhe táctil, nos seios e nas coxas.
Na privação da guerra, aqueles momentos de volúpia eram pólvora para o pequeno grupo de soldados. Abeer Qasim, a jovem iraquiana, aguçava-lhes o desejo, dia após dia. A vontade de gang-rape já lhes rangia os dentes, talvez por ser a única presença feminina, com um corpo apetitoso de mulher já feita, escondido pelas roupas tradicionais, pouco atraentes.
Abeer Qasim tinha referido em família o medo dos soldados americanos e tinha pedido para mudar temporariamente para casa dos tios, mas o pai tinha desvalorizado o assunto.

Um irmão de Abeer Qasim, único sobrevivente da família, um rapaz de 13 anos que na noite do massacre não se encontrava em casa, foi a peça fundamental para desvendar e reconstruir as razões do crime.

Durante meses as autoridades militares americanas teimaram em atribuir o massacre de Mahmoudiya à violência civil iraquiana.
Foi preciso muito tempo e a paciência inesgotável dos investigadores iraquianos, que coleccionaram um conjunto inquestionável de provas, para que o assunto passasse de mera carpição muçulmana, atravessasse fronteiras e sensibilizasse a justiça americana a levar o caso a julgamento. Steven Green já tinha regressado a casa, depois de ter sido despedido do exército por sindroma de personalidade anti-social e por revelar obsessão por matar árabes – admitiram os seus chefes militares.
Quando o destemido soldado Green foi agarrado pela polícia federal, na Carolina do Sul, regressava do funeral de um soldado americano caido em combate e preparava-se para levar a avozinha ao cinema. Limitou-se a comentar aos agentes: - Já sabia que haviam de aparecer para me vir buscar.
As sessões de julgamento que se seguiram tiveram pouco interesse para o confronto da matéria de prova, mas foram muito animadas na audição das bizarras confissões de Green, que desapaixonadamente reconheceu ter querido ir para a guerra porque lhe andava a apetecer matar pessoas, o que é complicado de realizar nos EUA.
Admitiu estar deliciado com o facto de, no Iraque, se poder matar com a mesma facilidade com que se esmaga uma formiga e que isso lhe enchia o peito de adrenalina.
- Matei um tipo que não tinha parado num checkpoint e a partir daí tomei-lhe o gosto. Mata-se um tipo e é como “Meu! Agora vamos mas é comer uma pizza!” – disse Green no tribunal.

O julgamento terminou há dias, em Maio de 2009. Steven Green foi condenado por 17 crimes de violação e homicídio, entre outros. Ainda assim, os jurados do tribunal federal de Kentucky não conseguiram unanimidade na pena a aplicar.
Nove mulheres e três homens, o júri que na derradeira sessão do julgamento precisou de mais de 10 horas para discutir o caso, entendeu que o stress de combate e o ambiente hostil vivido no triângulo da morte, em Bagdad, eram condicionantes do desvio comportamental do soldado Green. Por consequência, Steven Green viu a sentença comutada de pena de morte para prisão perpétua.

O stress de combate dificilmente conduz à violação de uma rapariga de 14 anos, mas o júri, ou parte dele, foi seguramente sensível ao apelo de Scott Wendelsdorf, o advogado de defesa judeu que, nas alegações finais, gritava com os olhos postos nos jurados: - Poupem este rapaz! A América não mata os seus combatentes falhados. Por amor de Deus, poupem-no!

Os outros quatro companheiros de Steven no gang-rape de Mahmoudiya, foram julgados em tribunal militar e receberam penas que vão de 27 meses a 110 anos de prisão, com liberdade condicional daqui a 10 anos, no caso das penas mais severas.

Num sistema judicial tido como eficaz, num país onde matar com crueldade conduz frequentemente à pena capital, numa sociedade acossada pela paranóia securitária onde deixar cair uma garrafa de água no aeroporto pode desencadear o estado sítio... a justiça continua a ter ascendente de classe, de preço e de cor ou etnia.
Como há um século, na conquista do Oeste, matar índios era um gesto heróico celebrizado na cultura cinematográfica do western; nos dias que correm continua a haver quem faça da intervenção no Iraque a mesma leitura primitiva dos bons que matam os maus, ao jeito da mais barata produção western – já não a spaguetti, mas neste caso a pita shoarma.

- Fui para lá (Iraque) porque queria matar pessoas. – confessou serenamente Steven Green no julgamento.
- Todos os meus companheiros estavam a tombar, a morrer na guerra. O alferes do meu batalhão morreu-me nos braços, de crânio desfeito.
Quem deveria estar agora aqui, preso e a ser julgado, era George Bush e Dick Cheney.
Steven Green cresceu em Midland, no Texas, a cidade onde também cresceu e foi criado George W. Bush, o homem que ideologicamente o inspirava quando em 2005 se alistou no exército, para se libertar de uma vida de problemas, de droga, álcool e pequenos crimes.

O caldo ideológico americano suporta de tudo um pouco, valha-nos isso.
Embora o incidente seja recente, o desfecho do julgamento é da semana passada (21 Maio 2009), os movimentos cívicos e os activistas sociais americanos não perderam tempo para puxar o assunto, trazendo-o à luz dos media internacionais.
No Outono de 2007 Brian de Palma estreou o filme Redacted que trabalha em versão meio documental meio ficcionada o massacre de Mahmoudiya.
O antigo jornalista da TIME, Jim Frederick, está a escrever um livro sobre o assunto, com o título Black Hearts, com edição prevista para a primavera de 2010.

Na semana em que a América celebra os mártires de guerra no Memorial Day, eu gostaria de lembrar e celebrar também as vítimas civis que tombaram inocentes, não para que o mundo respirasse mais liberdade e segurança, mas sacrificadas à satisfação dos interesses hegemónicos da oligarquia americana.

sexta-feira, maio 29, 2009

sexta-feira, maio 22, 2009

Que descanse em paz


A notícia da morte de Bénard da Costa chegou-me via twitter.
A informação relevante ou de última hora chega-me habitualmente online.
Prefiro o acesso online à comunicação porque é mais eficaz – mais rápido, mais completo, mais simples. E pode ser gerido por mim.
Gradualmente, sem me aperceber, vou alterando os hábitos de consumo, e os culturais. Por isso compro menos jornais e raramente vejo televisão.
A notícia da morte de Bénard da Costa chocou-me, deixou-me triste. Era um chato, às vezes, mas eu gostava dele, respeitava-o intelectualmente.
Eu sei que não é o elogio fúnebre apropriado mas tenho que o dizer: eu via o Bénard como o óleo de fígado de bacalhau, muito bom, enriquecedor, mas um pouquinho intragável.
Aprendi muito com ele, desde cedo... lembro-me do Tempo e o Modo.
O que eu não imaginava é que também haveria de aprender com ele no acto da sua retirada de cena.
Quando, pelo twitter, tomei conhecimento do falecimento, tive também a consciência de que já pouco me serviam os canais de televisão ou os jornais do dia seguinte - qualquer informação adicional, dossier ou vídeo relevante sobre o Bénard, já estava disponível online.
Que o Bénard descanse em paz, bem merece.
O televisor que tenho em casa também. A menos que o utilize para passar os filmes que o Bénard tanto gostava de comentar, tem os dias contados. Vai ficar desligado – paz à sua alma.

quarta-feira, maio 20, 2009

Twiteiros...


Nesta febre viral das redes sociais tem-me acontecido criar amizades (seguir e ser seguido) por gente que nunca teria pensado juntar no meu círculo de amigos.
Bush, Obama, Sócrates, Bin Laden, a Senhora de Fátima, Oprah, Sara Palin, Richard Branson, Mário Soares e Paris Hilton, são alguns dos meus compinchas twiteiros com quem me sinto “tu cá, tu lá” nesta coisa de mandar recados e do ké ke tás a fazer?
A característica epidémica da rede ajuda a que se aceda facilmente a novas amizades, que são os amigos dos nossos amigos e assim sucessivamente.
Foi nesta circunstância que encontrei o martimavillez, nick para Martim Avillez, com fotografia condizente e bio que anunciava: journalist last 16 years, now publisher to Lena Comunicação – era ele, sem dúvida.
Cliquei entusiasmado. Não porque o quisesse provocar ou confrontar com as minhas opiniões teimosas sobre a qualidade, o alinhamento politico e o futuro do jornal que dir-i-ge, mas apenas porque o queria seguir – leia-se: o queria ouvir e ler, naquilo que a sua douta sabedoria jornalistico/editorial determine partilhar com a humilde rede.
I-mpossível - cliquei, e nada... néstes.
Apenas um recado admin@twitter a anunciar que o cavalheiro tinha protected os updates e eu teria que send a request para que pudesse start following this person.
Que diabo, nunca me tinha acontecido.
Entre os amigos de Martim Avillez (deduzo que o sejam porque estão na lista de quem ele segue) encontram-se três importantes figuras internacionais. A saber: Al Gore, José Manuel Fernandes e McCain.
Ora, havia o diabo de tecê-las... são também meus listados twiteiros, os três. E nenhum deles me bateu com a porta quando cliquei para os seguir.
Agora estou confrontado com esta dúvida... Não sei se peça ao Al Gore que interceda junto do Martim para que eu possa ser seu humilde seguidor... ou talvez pudesse tentar pela via do Partido Republicano e consiga, assim, lá chegar com mais eficácia... Na verdade não sei.
Mas por outro lado, o meu orgulho somado ao fatinho e ao nó da gravata do Avillez fazem-me pensar – que se lixe! Deve haver mais vida para além de 16 anos de jornalismo que desembocam em publisher do Lena Communications.
Não se pode ter tudo.

terça-feira, maio 19, 2009

Para reflectir


A frase é retirada de um mail mais longo que recebi, hoje, de um amigo. Quem a escreve é um professor que lecciona ciber-jornalismo numa universidade pública portuguesa: "...tenho conversado com os jovens e costumo perguntar-lhes se vêem televisão. A resposta é sempre negativa ou então algo do tipo "ligo quando vou dormir". Um deles disse-me que "se a TV fosse na Internet seria mais fácil ver".
Fica aqui para reflexão.

Sem Comentários - III - b

Sem Comentários - III - a

Sem Comentários - II

Sem Comentários - I

Preocupo-me com o futuro porque é o sítio onde irei viver!


Não tenho a certeza mas penso que é de Woody Allen a frase (título do post) que motiva o visionamento do documentário que aqui proponho.
Acompanhe-se com um cosmopolitan, o cocktail mais adequado a uma hora de visionamento sem legendas.

domingo, maio 17, 2009

Hollywood aqui tão perto!



Estúdios da SP Televisão, produtora de conteúdos – ficção, séries, novelas e o que mais houver, ou lhes venha a ser encomendado.
Zona suburbana de S. Marcos, Sintra, a poucos metros de uma via rápida, em linha recta, mas a quilómetros dela pelo acesso da velha estrada.

Almoço no restaurante da produtora a convite de amigos que gerem a empresa.
O pretexto da visita é profissional. Equipamentos, tecnologia, sistemas.
Mas, circulando pelos estúdios, o olhar escapa-se-me sempre pela observação das peças, dos objectos mundanos, que evocam apetitosos ambientes cénicos.
Tudo o que a nossa memória consiga espremer de anos de ficção televisiva se vem encontrar nestes locais.
Num estúdio vivo, viaja-se sempre entre cenografias. Algumas em utilização e rodagem; outras arrumadas, em desuso; outras em construção, para servirem histórias cuja identidade ainda não é conhecida.
São salões, quartos, jardins interiores, cabinas de avião, leitos de cama para romance e sexo... que nos remetem para marcas como Podia acabar o mundo, Liberdade XXI, Conta-me Como Foi, Pai à Força, Vila Faia, Malucos do Riso, e outros.
Passo apertado por carreiros entre adereços de casa rica, pobre ou remediada... mobiliário e acessórios do Século XIX ou dos anos 60... viçosas plantas de plástico, uma esquadra de polícia, bancos de escola primária desproporcionadamente grandes, aquários de marisqueira... de tudo se encontra no backstage de um bom estúdio de televisão, como no baú de quarto de uma criança gigante.

Saio do estúdio pela porta dos fundos, enfrentando com dificuldade a luz do dia, para deparar com a mais surpreendente peça cenográfica da visita. Por detrás de um muro, já em terreno alheio, espreita um pino de mobiliário urbano com um emaranhado de sugestões de destino, que me passaria despercebido, não fora o local onde está implantado e o embaraço de lugares para que aponta.
Detenho-me a observá-lo enquanto me explicam com ironia:
- O edifício aqui ao lado é de uma empresa de sinalética... pelos vistos eles gostam de guardar parte do catálogo cá fora!
O meu interlocutor sorri e segue, indiferente, em direcção ao carro estacionado no parque, mais a baixo. Eu fico mais alguns momentos a olhar a peça, a observá-la, como se ela requeresse melhor interpretação.
Pensei – aqui mesmo virado para a porta de um estúdio de televisão... terá sido posto com que intenção? Talvez seja um desafio... uma provocação, uma pista inspiradora?
Mas acho que não. Bati a fotografia, avancei para o carro e assumi – se fosse uma provocação teriam acrescentado Hollywood 9116 km.

sexta-feira, maio 15, 2009

...e não digam que não foram avisados!

# video kills the radio star #

A corrida está renhida, mas a próspera e culta cidade de São Francisco, na Califórnia, (quatro milhões de habitantes - malha urbana), encontra-se bem posicionada para conseguir tornar-se "a primeira grande cidade americana sem um único jornal diário" - um estatuto sempre prestigiante num país que aprecia feitos absolutos.
O San Francisco Chronicle, quase 150 anos de vida, agoniza pelas bancas da cidade, já (visivelmente) entregue a cuidados paliativos.
E quando o jornal fechar, será que os leitores da cidade se irão entregar ao luto e à lamúria do defunto?
- Nem pensar!
Dizem mesmo que "o ppl com menos de trinta anos nem vai dar por isso!"
Que comentário desapropriado!... Certamente proferido numa daquelas disparatadas reportagens de vox populi?
- Absolutely no way!
Quem o disse, exactamente nestes termos, foi mesmo Gavin Newsom, o Mayor da cidade da Golden Gate, numa entrevista ao The Economist.
A migração de públicos para os novos media é uma realidade inquestionável.

Postei aqui, recentemente, as ideias agourentas de Michael Wolff sobre a morte dos jornais tradicionais e as "virtudes" do seu News Aggregator cujo sugestivo lema é... - arrepia-me escrevê-lo, mas cá vai - Read Less, Know More.

Ok, adiante... estão a ver o gráfico acima?
Vejam para onde vão as barrinhas. Onde se cruzam. Em que direcção se desenvolvem.
Então, do que é que estamos à espera?
Se sabemos de onde vimos e para onde vamos, por que é que não vamos já?
É esse pragmatismo, esse desprendimento face aos tropeções da vida, que estes Yankees são bons a gerir... e que, a nós, nos faz tanta falta.
Como eles são pragmáticos a superar obstáculos!
Que ingrato constatar que, quer do lado de lá, pela Gonden Gate, quer do lado de cá, pela Brooklyn Bridge, são sempre eles, ao fim ao cabo, quem melhor incorpora a nossa asserção poética de "a ponte é uma passagem, para a outra margem!"

Vocês aí, estão à espera de quê para se mexerem?...
Já lhes fiz o desenho... agora querem o quê? Um estudo económico?

A Evidência

segunda-feira, maio 11, 2009

i - um jornal porreiro, pá!


Bastaram três dias para ver o filme.
O filme, neste caso, é um jornal, o i.
Três dias, três edições, muitas páginas, uma revista.
Notícias, zero; cachas, zero; interesse, gozo e sumo informativo, muito reduzidos.
A revista (que me perdoe o Pedro Rolo Duarte) é uma brincadeira sem interesse. Tudo mau. Só me merece um comentário: nenhuma árvore merecia morrer por causa tão pouco nobre.
Mas será mesmo um jornal desprovido de novidade?
Bem, tem uma... e nem sequer é a paginação o grafismo ou o online: é um novo estilo, new age, de fazer jornalismo (chamemos-lhe assim, por benevolência).
A manchete do segundo dia de vida diz tudo - Governo Obriga Caixa a Salvar outro Banco”.
O percurso do i é previsível: dou-lhe um ano de vida.
Com legislativas e autárquicas agendadas para o Outono, a vida do i vai ser mais ou menos assim.
Em Janeiro de 2010 estará a reestruturar o conceito editorial, o visual e a equipa redactorial.
Em Setembro do ano que vem, fecha portas.

Será prematuro e injusto fazer tão duro julgamento a um jornal com três dias de vida?
Talvez seja.
Vamos então aguardar mais uns tempos.
Enquanto esperamos, sugiro um passatempo.
Imprima e recorte cada um dos nomes abaixo e experimente montar um puzzle.
Complicado? As peças não ligam nem fazem sentido?
Nos próximos dias apresentarei aqui a solução, as instruções de construção, e as peças em falta, para completar o interessante e lúdico puzzle i.
Tome nota.

Grupo Lena
Partido Socialista
Hugo Chavéz
Família Barroca Rodrigues
Manuel Maria Carrilho
Movie light
Pedro Falé, empresário audiovisual
Pedro Falé, reporter de imagem da SIC
Luis Bernardo, assessor do PM
Televisão full HD
Jornalismo
João Pereira Coutinho
Pedro Silva Pereira
Martim Avillez Figueiredo
Sojormedia
Venezuela


O Conselho Editorial do i integra dois nomes de jornalistas respeitáveis, meus amigos profissionais, a quem sugiro vigilância e bom trabalho... mas não está fácil.

quinta-feira, abril 30, 2009

Contar histórias - Bora lá - I


Há dias cruzei-me no ciber-espaço com um amigo, um ex-colega, que não reconheci.
No momento não lhe vi a cara e não tivesse ele acenado uma salvação este texto nunca existiria.
Não que o ciber-espaço seja uma viela sombria mas apenas porque o amigo me apareceu sob a forma de texto, sem assinatura visível, e eu, desabituado a passar por aquelas esquinas literárias, não percebi quem era.
O ciber-espaço tem destas coisas.
Feitos os cumprimentos lá celebrámos o ciber-encontro, resumido neste diálogo imaginário.
- Bons tempos... e tantas histórias para contar. Fulano e sicrano, que saudades!
- É verdade, quantas histórias!
- Então “bora lá” contar essas histórias – Desafiou-me o Paulo
O Paulo, assim se chama o amigo e colega, anda por aí. Dá aulas, não sei bem o que faz desde que saiu da SIC.
Nunca fomos muito chegados no trabalho, mas sempre apreciei a forma exuberante como ele expressava um humor caustico e pulsante.
Nunca lho terei dito ou demonstrado, mas gostava dele.
A melhor memória que dele retenho havia de ficar guardada para o final. Nunca a vou esquecer. E isso constitui, porque não, uma história do “bora lá contar!”, desta vez com o estímulo de que ele também a estará a ler.
Bora lá!

Estávamos em 2001, acho. A SIC tinha entrado na fase de despedimentos, descartando-se às mãos cheias dos seniores, dos mais caros, dos mais experientes, dos mais incómodos... ou, se quiserem, na fase de se desfazer das excrescências, das adiposidades, emagrecendo a equipa, ajustando-a às novas circunstâncias empresariais.
Whatever?... Que interessa?
Viviam-se dias difíceis naquela comunidade de três centenas de pessoas. Todas as semanas novos nomes se juntavam à lista dos que tinham sido convidados a considerar as vantagens de assinar uma rescisão amigável que sempre evitaria a humilhação do despedimento. Outros chegavam-se à frente e batiam com a porta - por descrédito no projecto, por melhor oferta cá fora ou simplesmente por medo e atracção do abismo – avançavam.
Em silêncio e à boca fechada ia-se sabendo quem eram as novas vítimas.
Uma família profissional que antes tinha tocado a lua, agitava-se agora desnorteada.
Quando alguém recebia a marca de saída era como se tivesse sido colocado numa rampa de lançamento.
Por medo ou coragem, ganhava peito, voz, energia buliçante. Virava atracção de todos os colegas. Era paliativamente acarinhado por olhares, conversas e silêncios carregados de diferentes significados – de admiração, de piedade, de respeito e solidariedade, até de desprezo e inveja, porque tinhamos alcançado a liberdade.
Quem não saberá do que estou a falar? Quantas empresas, quantas micro-sociedades terão vivido o mesmo estado de alma?
Mas bastaram duas ou três fornadas para se perceber que havia uma dramaturgia no despedimento.
No countdown de cada partida havia um momento de catarse colectiva - o Ignition! da rampa de lançamento: o mail de despedida de quem saía. Todos o ansiávamos.
A natureza humana tem destas fraquezas – shadenfreude, como lhe chamam os alemães.
Observar como o companheiro resiste à dor infligida, para percebermos como vai ser, quando chegar a nossa vez.
Cada mensagem de despedida deixada nos computadores era o primeiro som de um corpo que se soltava e vertia no texto o estado de alma em que saía – triste, alegre, enraivecido, aliviado, assustado – um ajuste de contas mas também um exercício de serena liberdade.
Havia de tudo nos mails. Eram longos, curtos, literários, mal escritos, nervosos, serenos, agressivos, ressabiados, felizes.
Ao Paulo atribuo o melhor mail de despedida da história (conhecida) da SIC. De tal forma que o decorei quase por completo.
Foi o mais criativo, o mais pragmático, o mais ousado - diferente.
Presumindo que uma empresa de televisão possa ser, nalgumas circunstâncias, um lugar que privilegia a criatividade, se eu fosse patrão daquela casa teria obrigado o Paulo a voltar para dentro, pela porta principal, já não a recibos verdes mas com contrato renovado.
A mensagem de despedida do Paulo dizia simplesmente “O meu NIB é 0007 4325 ____ ____ __ "
Só esqueci os números. O mail e o Paulo nunca mais irei esquecer.
Bora, Paulo! Estamos por aí... um abraço.
Obrigado e um pedido de anuência pela utilização da imagem dos amigos fotografados.

Bairrão & Balsemão Lda



29 de Abril de 2009, dia 1 da televisão digital em Portugal – comprei pipocas.
Sentei-me em frente ao plasma, sala na penumbra, na expectativa de que uma emoção digital me fizesse sentir a novidade tecnológica.
Fiz zaping, refiz sintonias, varri frequências, explorei menus, sempre na esperança de que a minha relação com o digital fosse além das dedadas melosas no painel do plasma e do besuntado de açucar das pipocas no comando do televisor... mas nada. Nem canais, nem emissões, nem dolbys e widescreens, nem sequer sinais teste.
Esgotada a coca (cola), as pipocas e a paciência, a única sensação digital do dia chegou-me às 19:25, com a leitura online do Diário Económico “Ao Diário Económico, Bernardo Bairrão, administrador delegado da Media Capital, e Francisco Maria Balsemão, vice-presidente da Impresa, defenderam que o Governo deveria optar por dar aos actuais canais generalistas (RTP1, SIC e TVI) a possibilidade de lançarem cada um canal em alta definição. Estes seriam emitidos no espaço reservado ao quinto canal e a um canal em alta definição, que está previsto ser partilhado entre os três operadores.
Ora aí está uma óptima sugestão, pensei. Pedir não custa.
Estou certo que o Bairrão vai apanhar o ministro ASS nos corredores de Queluz e sensibilizá-lo para a ideia de que tudo se troca por tempo de antena.
Quanto ao Balsemão (Xico Maria) vai certamente pôr em prática alguns dos ensinamentos “impresariais”.
Primeiro há que conseguir a licença à borla e na secretaria, desvalorizando sempre o valor milionário do bem público.
A seguir há que pedir facilidades e contrapartidas ao Estado: financiamento público, privilégios fiscais, etc., porque as empresas vão necessitar de condições para se equiparem tecnologicamente e cumprir um calendário de interesse nacional, imposto internacionalmente.
Mais tarde pode-se aplicar a velha tradição: recusar o pagamento de taxas e contribuições à Entidade Reguladora alegando que “não faz sentido o regulado pagar o regulador”.
Se o canal cair à mão por doação, assim, como se sugere na entrevista, também facilmente se passa à margem do caderno de encargos que um rigoroso concurso público exigiria e, sobretudo, ultrapassa-se o incómodo das avaliações intercalares, bienais, que analisam o “comportamento” da empresa concessionada.
Por fim, os anos passam, a memória é curta, a opinião pública está controlada do lado de cá, e pode-se mais tarde, quem sabe, vender, comercializar aquilo que nunca se comprou.
Bravo, Bairrão & Balsemão. Se resultar é de mestre.
Francisco Maria Balsemão detalha no currículo, disponível online:
Participou na elaboração do projecto de televisão privada SIC (Sociedade Independente
de Comunicação, S.A.), na fase de candidatura ao 3º canal de televisão (Abril de 1991)”.

Em Abril de 91 Xico Maria tinha 20 anos.
Se contribuiu com algum parecer ou indicação determinante para a criação do 3º canal, é coisa que eu não sei. Nem eu nem os restantes profissionais, uma centena que, juntos, tivemos o privilégio de criar o primeiro canal de televisão privada. Ninguém se lembra de ter visto o Xico Maria andar por lá.
Talvez o acrescente curricular do moço que aos 20 anos já elabora projectos de televisão não passe de uma ajuda pessoal. Terá sido facilitado por... vá-se lá saber quem?
Entretanto, lembrei-me, há um detalhe que me escapava - é público que a licença do 3º canal, a SIC, foi negociada por Balsemão e Cavaco (então primeiro-ministro) sem o formalismo e a chatice dos concursos e dos cadernos de encargos actuais. A candidatura consistia num único documento com página e meia, em A4.
Talvez tenha passado por aí a colaboração do jovem Francisco Maria.

segunda-feira, abril 27, 2009

Venham os gentornalistas que Abril não está fácil


Última semana de Abril, primeiros dias de Maio, jornada habitualmente marcada por outro tipo de agenda – a evocação das datas que celebram o ADN da nossa democracia.
Abril não esperava que estes dias viessem a ser marcados por um conjunto de acontecimentos relevantes na área da comunicação social, mas foi isso que aconteceu... para o bem ou para o mal. Vejamos:

A TDT
29 de Abril de 2009. Início formal, mas desastroso, da televisão digital terrestre em Portugal.
Um serviço tecnológico novo que começa vazio, sem conteúdos.
As três televisões, a PT, o governo, a ANACOM, a ERC, vão enganar o país. Vão mentir-nos dizendo que tudo está a funcionar como previsto. O país, sem informação crítica e perante um tema demasiado técnico, vai acreditar.
A TDT começa mal. Vejamos algumas verdades que nos serão omitidas:
1 - O calendário português de implementação da televisão digital põe o país na cauda da Europa. Fazemos mal e tarde. Estamos no grupo da retaguarda, com a Letónia, Chipre e a Roménia, por exemplo.
2 – Pior, Portugal será uma excepção no espaço europeu. Talvez o único país que não associa um novo produto, um novo canal, à inovação tecnológica. Dia 29 estaremos a inaugurar uma “onda hertziana”.
3 - Portugal confinou a televisão generalista free to air a um único multiplexer. O que traduzido para linguagem que se entenda quer dizer: limitou a televisão gratuita a cinco canais. As restantes dezenas de canais (muitas), que a tecnologia digital irá permitir, ficam reservados para a televisão paga. Uma decisão muito pouco social, do governo, a que não serão alheios os interesses da PT a quem foi adjudicada, num concurso público polémico, a exploração de toda a rede digital (6 multiplexers).
4 - Oposto ao caso português refira-se, por exemplo, a República Checa, com um calendário muito à frente do nosso, onde o governo decidiu autorizar 24 novos canais que lançou a concurso público. Aparecem “apenas” 6 candidatos e foram atribuídas 6 licenças. (O coração do Dr. Balsemão não teria resistido, se vivesse na República Checa).
5 – O esvaziamento do concurso público para o quinto canal, por interesses claramente políticos e de pressão de grupos económicos, é uma vergonha nacional que humilha a independência das entidades reguladoras.
6 - Sem direito a desmentido por parte das entidades técnicas, em particular da ANACOM, tem-se generalizado a ideia de que o futuro (temporariamente comprometido) quinto canal será o último possível no espectro radioeléctrico. Totalmente falso.

O Dividendo Digital
É importante sublinhar que Portugal não terá mais canais generalistas free to air (FTA) porque apenas lhes foi reservado um dos multiplexers. Os 5 restantes foram atribuídos à pay-tv. Isto é, cerca de 80% das frequências ficam destinadas à comercialização. A política do interesse comercial prevaleceu sobre a política do interesse público.
A transição do analógico para o digital irá libertar frequências – um canal de televisão que transmita em digital irá ocupar cerca de 25% do “espaço” hertziano que necessitava para emitir em analógico – ganha-se em qualidade e poupa-se espectro. As frequências que sobram podem ser utilizadas para outros fins. A esse “ganho espectral” foi atribuído o nome de “dividendo digital” e em todo o mundo, país a país, a sua utilização está a ser pensada. A União Europeia estimulou fortemente os Estados membros a discutir e a gerir com critério esse bem radioeléctrico.
Em Portugal, durante todo o mês de Abril e até 13 de Maio está a decorrer, sob os auspícios da ANACOM, a Consulta Pública sobre o Dividendo Digital, que pretende recolher ideias e sugestões da sociedade, sobre o assunto. O assunto esteve em discussão, recentemente, no aconchego das salas do CCB, para conversa de engenheiros e poucos mais, enquanto a opinião pública, sem participação na consulta, continua amarrada à ideia de que não poderá haver mais do que cinco canais generalistas. Estranho! É o mínimo que se pode dizer.

NAB 2009
24 de Abril. Em Las Vegas termina a NAB 2009, o maior certame mundial de tecnologia de televisão. Apareceram novidades, uma delas apresentada por David Rehr: a utilização das frequências dos canais de televisão já existentes para transportar emissões de rádio para dispositivos móveis, rentabilizando serviços e custos (lá voltarei, num próximo post).

Quinto canal, o juiz decide
23 de Abril. A Telecinco, o quinto canal de televisão, passou para uma nova fase – a judicial. A menos que a justiça seja “uma batata”, será apenas uma questão de meses (anos, no sistema judicial português) até que a verdade seja reposta. Para quem conhece bem o dossier não há razões para que qualquer juiz não determine repor a Telecinco no concurso público. Até lá, vou imaginando Azeredo Lopes no banco do tribunal a explicar porque leu NÃO numa resolução do Conselho de Ministros que diz SIM.
Espera-se uma decisão justa, mas não apenas isso. Espera-se que seja exigida responsabilidade extracontratual aos eventuais condenados, com efeito moralizador na sociedade. De futuro, outros comissários políticos deverão pensar duas vezes antes de tomarem decisões abstrusas e levianas, apenas porque o fazem a coberto dos interesses do patrão.
Com o canal parado numa repartição judicial faz sentido que os responsáveis pelo projecto Telecinco pensem numa solução transitória. É preciso aguentar a travessia, mas sentados à espera não se chega a lado nenhum.
O projecto Telecinco consubstancia uma televisão multi-plataforma, não apenas 1 televisão + 1 site, como acontece com as existentes.
A ERC coarctou a capacidade broadcasting da Telecinco mas, para o bem de todos, a ERC não tutela nem detém autoridade sobre as outras plataformas de emissão, a Internet, por exemplo. (Teríamos Internet como tem o Irão, se a ERC a pudesse regular). Faz sentido que a Telecinco utilize as tecnologias não tangíveis pela ERC para se poder afirmar como órgão de comunicação emergente. Criando nome e marca. Operando num patamar intermédio. Criando públicos. Treinando rotinas. Potenciando serviços que irá prestar mais tarde.
O mundo dos new media é um universo fascinante que se abre à nossa frente todos os dias, como numa caixa de surpresas. É para ele que devemos olhar, estudando, aprendendo. Quem não lhe atribuir importância, estará condenado.
É nesse sentido que se enquadram as duas histórias, os dois case studies, que refiro a seguir.

Michael Wolff e a morte dos jornais
2009, última semana de Abril. Michael Wolff prevê que 80% dos jornais em papel irão desaparecer dentro de um ano e meio.
Quem é Michael Wolff? É o fundador do Newser – o Newser é um serviço de notícias online que junta inteligência humana e trabalho automatizado de agregação de conteúdos, disponibilizando aos utilizadores toda a informação para consulta "em menos tempo e de forma mais visual e atractiva".
Wollf explica o funcionamento do site: “procuramos as melhores histórias por toda a web, lê-mo-las e reescrevê-mo-las de forma mais sucinta e agradável, numa grelha visual rica em imagem, vídeo, áudio e links para o texto de origem.”
O Newser é um site (um serviço) que recolhe admiração crescente no mercado americano.
Se Michael Wollf vir realizadas as suas profecias restam-nos os livros e as revistas até que alguém anuncie também a morte, o fim, do ciclo Gutemberg.

Lepost.fr oito milhões de visitantes mensais.
Lepost é outro site inovador. Menos espectacular na componente visual, mas mais sólido que o Newser e assente em conceitos extremamente ousados. Nasceu há ano e meio a partir do Le Monde Interactif, o website do jornal Le Monde.
Lepost é um caso de sucesso e tornou-se um case study na comunidade francesa e internacional. Não pára de crescer, no mês passado (Março de 2009) contou com quase oito milhões de utilizadores regulares. O negócio conta atingir o breakeven em 2010.
É um site de informação, de jornalismo, com uma linha editorial um pouco mais tablóide que o jornal mãe”, o Le Monde. Mas quais as singularidades do Lepost que o expõem à atenção internacional?
Benoît Raphaël (na foto), o chefe de redacção do Lepost explica: “o que faz a diferença do Lepost, para outros sites de informação é que as notícias são feitas pelos jornalistas da redacção e pelo público”. Aquilo a que chamam conteúdos pro (profissionais) e conteúdos am (amadores).
A redacção do Lepost é composta por nove jornalistas:
- 1 jornalista sénior, o chefe de redacção;
- 4 jornalistas especializados em áreas temáticas (política, media, Internet, crime e acidentes);
- 2 na desk agregando notícias, reescrevendo-as;
- 1 “vídeo-jornalista” que investiga em permanente zapping na net, conteúdos visuais que possam ser agregados;
- 1 “coach-jornalista” encarregado da relação com a comunidade. Parte do seu trabalho é validar a informação enviada pelos gentornalistas (1), procurar testemunhos, etc.
O site criou uma comunidade de 25.000 membros. Cerca de 1.000 são participantes activos, escrevendo, por exemplo, comentários. Cerca de 250 são convidados – produzem conteúdos, são bloggers e colunistas... e recebem dinheiro. São pagos à percentagem em função dos pageviews. Os gentornalistas recebem 50% da receitas da publicidade associada ao conteúdo, com um mínimo garantido de (500 USD) 380 euros mensais.
Os gentornalistas enviam para o Lepost cerca de 500 contribuições diárias. “Valorizam as notícias mais do que os jornalistas convencionais, porque conhecem bem o assunto, sabem do que escrevem, trazem emoção, autenticidade e conhecimento. São especialistas, testemunharam o acontecimento. São apaixonados por um assunto, sabem tudo sobre ele”, explica Benoît Raphaël.
Além dos nove membros da equipa editorial, o site conta com:
- 1 director de marketing
- 1 product manager
- 1 comercial para venda de publicidade
- 2 developers
E o site “mãe” o lemonde.fr colabora, partilhando alguns técnicos e informáticos.
A relação entre conteúdos profissionais e amadores é de 1/10. O Lepost publica diariamente cerca de 40 novos artigos pro e 400 am. Mas a contabilidade não tão linear como isso, a estratégia editorial é a de co-produzir conteúdos. Perderia interesse e eficácia dividir o site em dois lados distintos, o profissional e o amador.
As notícias am que chegam ao Lepost são processadas: a informação é validada, “filtrada” por moderadores para assegurar que não há matéria ilegal, falsa informação e que não é contraditória com o estatuto editorial do site.
Na redacção, o primeiro contacto com as notícias am é feito pelo coach-jornalista e depois pelos jornalistas especializados. Cada jornalista do Lepost gere uma pequena comunidade de contactos em quem confia. Qualquer conteúdo informativo recém-chegado à redacção é rapidamente “checado” mediante uma técnica, um conjunto de procedimentos, que a redacção criou, a que chamam FFC (fast fact checking).
Foi graças à tecnica de FFC e à ajuda de um amador, que descobrimos, há uns tempos, que um vídeo dramático sobre a faixa de Gaza era falso. Descobrimos a fraude e evitámos a sua publicação. Na mesma altura, a France 2, o canal público de televisão, precipitadamente, emitiu-o, porque não tinha validado a origem” explica Benoît.
O ciber-jornalismo traz-nos um mundo novo, não apenas o velho jornalismo assente numa nova plataforma. Um ciber-jornalista do Lepost é um produtor de informação, um agregador, um activista na comunidade. Pela forma como elabora a informação é uma jornalista em rede. O ciber-jornalista pesquisa o que sobre o mesmo assunto foi publicado noutros media, noutras plataformas. Congrega material de diferentes origens, como blogs, twitter, You Tube, etc., e meios tradicionais” diz Benoît Raphaël
Nota curiosa: o Lepost cancelou os serviços de agência, a France Presse e a Reuters, alegando que “nada acrescentavam à produção informativa”. Benoît explica: “será sempre necessário ter acesso à informação “breaking news”, mas ela está espalhada por toda a parte, ao mesmo tempo. Era frequente sermos informados de uma notícia antes da Reuters e da AFP a conhecerem, bastava-nos consultar a nossa conta de twitter”.
E mais – sublinha com pragmatismo Benoît Raphaël – num mundo de comunicação em rede não faz sentido enviar jornalistas para toda a parte para cobrir a notícia, porque a notícia está acessível em toda a parte, gratuita, partilhada instantaneamente por centenas de jornalistas que produzem os mesmos parágrafos, as mesmas imagens
A redacção do Lepost faz lembrar uma redacção de radio. A informação não cristaliza depois de publicada, está sempre a ser processada e re-processada, mesmo estando já “no ar”.

É de Benoît Raphaël a frase “O ADN da Informação mudou. Agora é preciso mudar o ADN dos jornalistas”.
Fica o aviso.

(1) - Gentornalista é uma palavra que decidi inventar para este texto. É uma contribuição liberal para a tradução do termo inglês “citizen-journalist”.
Espero que funcione. Se não funcionar, esqueçam-na e substituam por outra melhor.

quarta-feira, abril 22, 2009

O Ground Zero da televisão digital


Maio de 2009 marca o início da televisão digital terrestre (TDT) em Portugal. O início da disponibilidade tecnológica, mas não o início das emissões regulares. O governo determinou (e a PT assume cumprir) que no final de 2010 a cobertura da TDT no território nacional será de 100%. Dentro de ano e meio, sensivelmente, todo o país estará pronto a deitar fora mais de 50 anos de “velha” televisão.
O que vai mudar de imediato na televisão em Portugal?

O impacto da televisão digital nos lares portugueses nos próximos meses será mínimo, quase inexistente.
Quem aderir à TDT recebendo o sinal de televisão por antena irá observar pequenas diferenças – mais definição na imagem e menos fantasmas, sobretudo se viver numa zona de má cobertura, apenas isso. Quem já recebe televisão por cabo não irá notar diferença nenhuma, literalmente.
Não estaremos longe da verdade se dissermos que, para já, a TDT não representa mais que uma nova forma de a velha televisão nos chegar a casa. Haverá duas ou três funcionalidades acessíveis nos descodificadores digitais (menus, guias de programação, pause e rewind, etc.) que não existem na televisão analógica, mas tudo isso somado, não faz uma nova televisão. O que falta, então?
Falta alta-definição, formato panorâmico, som de alta qualidade, multi-pistas de áudio para o espectador optar pela língua em que quer ver o conteúdo, idênticas opções para escolha de legendagem, funcionalidades para portadores de deficiência, conteúdos on demand, etc. Enfim, tudo aquilo a que já estamos habituados no media DVD, e mais algumas coisas como interactividade, conteúdos e conceitos multi-plataforma, com acesso por internet, por exemplo.
A televisão digital é uma nova tecnologia de transmissão que só faz sentido quando potenciada por conteúdos de alta-definição associados a novas tecnologias de produção e concebidos em ambiente digital.
Corremos o risco de ver o espectador divorciar-se na inovação tecnológica se não lhe dissermos a verdade: há um enorme equívoco na oferta que lhe será proposta nos primeiros tempos de vida da TDT em Portugal.
Nenhuma das estações de televisão produz em alta-definição. Nenhuma das actuais televisões produz conteúdos multi-plataforma. Por isso, tão cedo não iremos gozar dos verdadeiros prazeres da TDT.
É óbvio que as estações de televisão irão seduzir públicos anunciando emissões digitais. Mera publicidade. Estarão apenas a codificar para suporte digital os mesmos conteúdos que produzem para o ambiente analógico.
Enquanto não forem forçadas pela concorrência, isto é, enquanto não houver um novo operador a produzir em ambiente digital, as televisões (as privadas, sobretudo) não têm razões comerciais para fazer investimentos em alta-definição ou inovar nos métodos de produção. E se a concorrência não aparecer com brevidade, irão mesmo exigir contrapartidas ao Estado para concretizar os investimentos tecnológicos que lhes permitam cumprir o calendário oficialmente traçado.
O aparecimento de um novo canal privado de TDT, generalista, gratuito, de alta-definição e de produção em ambiente digital, será a “pedra de toque” que fará remexer todo o sector audiovisual com evidentes vantagens para o espectador/consumidor.
Em boa hora foi tomada a decisão de pôr a concurso um novo canal de televisão generalista, nascido no novo ambiente tecnológico; mas numa hora menos feliz se voltou atrás esvaziando o concurso público, com a desqualificação das propostas concorrentes.
Numa Europa cheia de televisões generalistas, públicas, privadas, digitais, etc., Portugal encontrou mais um motivo para se sentar, de novo, na fila de trás da modernidade.
Então o que vai mudar a curto prazo na televisão portuguesa? Este ano, quase nada.A auto-estrada está construída. Pronta. Um tapete para alta velocidade que atravessa o país rasgando montanhas e vales. Mas pouco funciona. Não há acessos e tão cedo ninguém a vai utilizar. Que desperdício!
João Salvado, realizador
Publicado na revista PREMIERE de Maio 2009

domingo, abril 19, 2009

O viral


Susan Boyle é uma escocesa de 47 anos, desempregada, solteira, provinciana, feia, com sobrancelhas que nunca foram arranjadas, que confessou em palco nunca ter sido beijada por amor.
Haverá pior forma de começar?

Viral é o nome dado aos conteúdos (pequenos vídeos) disseminados de forma epidémica pelas novíssimas plataformas de comunicação: o mail, os blogs, os microblogs, os vlogs, os instant messengers, os telemóveis e outros.
A divulgação é exponencial, em pirâmide, e faz de cada um de nós, simultâneamente, receptor (porque recebemos de alguém), emissor (porque enviamos para muita gente) e editor de conteúdos (porque seleccionamos o que enviamos e para quem enviamos, criando micro-comunidades na nossa lista de contactos).

Há exactamente uma semana, no sábado passado, Susan Boyle enfrentou o júri e o auditório do Britain’s Got Talent (um equivalente britânico dos nossos Operação Triunfo ou Ídolos) num daqueles castings demolidores de minuto e meio para “glória ou morte súbita”.
O cabelo desgrenhado, o buço, a figura disforme, tudo conduzia para o desfecho previsível de humilhação pública de Susan Boyle, num espectáculo triturador de talentos medianos que exige genialidade, no mínimo, para quem queira merecer o acesso a alguns minutos de fama.

Um viral pode ter produção e divulgação espontânea - porque alguém fez (filmou ou gravou) uma coisa que os outros, e a comunidade, gostam de ver e de fazer circular.
Outros virais podem ser o resultado de um propósito comunicacional, comercial ou industrial – alguém produz um pequeno vídeo com características que lhe permitam circular “viralmente” para com ele conseguir determinado efeito comunicacional ou de divulgação de marca ou imagem.

Com a plateia londrina a gozar a humilhação eminente, Susan Boyle arrancou para os dois minutos de desempenho que lhe foram concedidos.
Sorriu ingenuamente aos primeiros acordes do playback instrumental para a seguir soltar as cordas vocais ao som de I Dreamed a Dream d’Os Miseráveis.
Bastaram-lhe 2 segundos e meio (cronometrados por mim) para paralizar o júri e o auditório que no final se renderam, numa ovação de pé, à mais brilhante vocalização a que tinham assistido em três anos de concurso, vinda de um saloia escocesa.

O vídeo do casting , com 5 minutos, saltou no dia seguinte para o You Tube
Em menos de uma semana o viral da arrepiante performance de Susan Boyle teve no You Tube, por mais de 30 milhões de acessos.
Em 24 horas a fama de Susan Boyle atravessou o Atlântico e esteve no Good Morning America e no Today Show (mais 15 milhões de espectadores) e foi convidada para o show da Oprah.
O Reino Unido parece ter encontrado uma nova heroína, vinda da Escócia agreste e rural. E Susan Boyle já pediu um pequeno prazer: gostaria de cantar para a rainha.
O You Tube recebeu pedidos formais para desactivar o acesso directo ao link porque já há quem queira ter o privilégio de o “distribuir” comercialmente ou para fins “humanitários”.
Já existem versões do vídeo de Susan Boyle legendadas em muitas línguas (incluindo o português).
Susan Boyle já tem uma página biográfica na wikipédia.
Tudo isto em menos de uma semana. Desde sábado passado.
E o que mais irá acontecer, nos próximos dias?

O que é notável é que a actuação musical de Susan Boyle na televisão ainda mal começou.
As audiências da ITV e do Britain’s Got Talent, quando Susan Boyle subir ao palco para cantar a sério, já estão garantidas.
Poderia ter havido melhor campanha promocional, melhor auto-promoção do que esta, que um viral conseguiu lançar?
Terá sido inocente o momento e a forma como a produção do espectáculo lançou um trunfo escondido no corpo desajeitado de uma rural, para o embate com um júri, um publico e uma lógica de concurso, preconceituosos, gravando os cinco minutos de impacto, e dispensando-os logo a seguir ao You Tube?
Não será este caso um extraordinário exemplo da “gestão” multi-plataforma de conteúdos?
Tudo leva a crer que na ITV inglesa se conhecem bem os truques do ofício, e se sabe utilizar as ferramentas da televisão do futuro.
Mesmo salvaguardando as diferenças de escala, estamos bem longe de ver tais requintes de utilização de plataformas, nas velhas televisões portuguesas.

sábado, abril 18, 2009

O que pequeno nasce, grande pode tornar-se


Nos anos 90, John Polson, um actor/realizador trintão e meio encalhado nos negócios da produção cinematográfica resolveu juntar uns amigos e organizar um festival de cinema de curtas metragens.
A “coisa” podia passar-se ali mesmo, no Tropicana Caffe, nos subúrbios de Sydney, na Austrália, onde se juntavam quase todos os dias para “tomar a bica”.
O TropFest nasceu e a aventura correu bem. Muito bem, mesmo, ao ponto de, com os anos, ser acarinhado pelo público como um dos principais eventos culturais e artísticos da Austrália.
Polson soube dinamizar o festival introduzindo novas categorias, mas mantendo sempre o foco no formato “curtas”.
Mais três anos e o Tropfest, que do café Tropicana já só tinha a metade frontal do nome, subia por mérito, à classificação guiness de “o maior festival de curtas metragens do mundo”.
Encheu de orgulho o país, mas Polson tratou de criar um desdobramento com uma versão complementar do certame a decorrer em Nova Iorque.
O Tropfest vive agora, orgulhosamente, nos dois lados do planeta na versão Atlântica e na “Pacífica”. E é cada vez mais o maior festival de curtas do mundo.
Pelas características do formato em competição, está receptivo a tudo e, por isso, aberto à criatividade e à inovação.
De amador já não tem nada. A indústria mainstream vive de olhos postos no festival, qual grande clube de futebol a observar os treinos da escolinha de infantis.
Russell Crowe e Nicole Kidman, pela costela aussie, certamente, são alguns dos apoiantes assumidos do Tropfest.
Para rematar a coisa, a versão mãe do evento, a australiana, já mudou de nome - chama-se agora “SONY TropFest” – está tudo explicado.

Na última edição Nova Iorquina do festival, que decorre em Setembro, a curta vencedora arrecadou pela primeira vez os dois prémios em jogo: o troféu do público e o troféu do júri.
Mas mais, também pela primeira vez o vencedor foi um filme “inteiramente rodado” no suporte “cellphone”, isto é, feito com o telemóvel.
20.000 dolares e umas viagens de avião dizem ter sido o prémio do vencedor. Mas não, muito mais do que isso: contratos, convites, e a porta aberta para a indústria mainstream que fará de Jason van Genderen, o realizador (na foto), um dos nomes a acrescentar na lista telefónica de Hollywood, assim ele saiba manter o talento e o juízo.
Quanto ao filme, a mensagem “romantico-globo-humano-sócio-poético-urbano-pacifista” de Mankind is no Island – 3 minutos de duração, 57 dolares de orçamento global – vale o click de visionamento que aqui proponho.
Mesmo a música – composição original, totalmente suportada pelo orçamento da produção – poderia passar por obra em estado adulto da inspiração e do piano de um Keith Jarret qualquer.
Fruto da admiração e simpatia que o “filme” suscitou, o viral no You Tube neste link...



...é um pequeno espectáculo que também eu aconselho a não perder.
(Desligue primeiro a música de internet radio deste blog e depois oiça e veja com atenção)

sábado, abril 11, 2009

A Ferramenta


Todos os dias é utilizado por milhões de pessoas para alterar a realidade – transformá-la naquilo que os olhos querem ver.
Para muita gente é um instrumento permanente de trabalho por isso lhe chamam ferramenta.
Retocar, recriar, inventar, mudar, alterar, retirar, aumentar, renovar... é interminável a lista de verbos regulares que se podem ajustar aos pequenos gestos que fazem a rotina do utilizador de Photoshop.

Nas mãos do fotógrafo, sonhador, refazem-se sombras, removem-se acnes e rugas e muitas jovens modelo, candidatas à perfeição, vêem a celulite sumir-se das suas fotos de portfolio.

Nas mãos do gráfico, cismático, compõem-se colagens e fotomontagens, construindo narrativas que, apenas com palavras, não se poderiam contar.

Nas mãos do publicista, finório, desenham-se bolhas de condensação, tentadoras, que nascem do seco das embalagens haurindo-nos a sede e o desejo.

Nas mãos do director de campanha, demagogo, apagam-se detalhes indesejados do fácies cansado do político, retiram-se-lhe papos, olheiras e agrisalha-se o penteado.

Nas mãos do agente de turismo, sedutor, troca-se betão por palmeiras de areal e azul, recortam-se e colam-se famílias felizes em fundos tropicais onde nunca estiveram.

Nas mãos do director de arte, diligente, recolhe-se mobiliário urbano limpando cidades das vistas enfadonhas da modernidade.

Nas mãos do falsificador, sombrio, truncam-se partes, alteram-se nomes e detalhes, refazendo sucedâneos de verdade.

Nas mãos do pornógrafo, assanhado, agigantam-se glândulas, embelezam-se órgãos ao sabor do desejo maníaco do espectador.

Nas mãos do vendedor, previdente, etiquetam-se preços, anexam-se legendas, transformando fotografias em folhetos de catálogo comercial.

Nas mãos do artista, romântico, filtra-se o mundo em sépias, contrastes, saturações e highlights de aguarela.

Nas mãos do caricaturista, mágico, deforma-se a figura recriando, com ironia e humor, visões ostensivas do mundo.

Que bom terem inventado o photoshop.


Photoshop é o nome do programa de manipulação de imagem que se impôs comercialmente como standard de mercado. Existem outros programas como, por exemplo, o GIMP (GNU Image Manipulation Program), igualmente sofisticados e poderosos e de utilização gratuita.

Nos Bastidores dos Oscars



Alguém disse sobre os oscar – “é um espectáculo para televisão, realizado num teatro, para celebrar o cinema”. Esta natureza híbrida do evento não ajuda a resolver os problemas de construção do espectáculo. A duração do formato (longa para tv), e algumas declarações de vitória, do estilo “tenho tanta gente a quem quero agradecer”, fazem tremer os organizadores que todos os anos tentam aplicar novas ideias para puxar o brilho ao evento que constitui um dos maiores rituais partilhados do nosso mundo global. Este ano o reconhecimento chegou – o espectáculo dos oscars foi um êxito. Nos preparativos da cerimónia ergueu-se um verdadeiro show à boa maneira de Hollywood.
Os responsáveis... não faziam parte dos nomeados, mas acabaram todos por fazer parte dos vencedores.
Os produtores do espectáculo, Bill Condon e Laurence Mark (foto 01). Bill Condon, 53 anos, é produtor, realizador e argumentista. Tinha subido ao palco dos oscars há 10 anos para receber o prémio pela adaptação para cinema do Deuses e Monstros, que também realizou. Foi argumentista do Chicago e realizador do Dreamgirls, o que o arruma definitivamente na secção dos especialistas em musical. Da equipa de Dreamgirls arrastou para os oscars 2009 o seu amigo e co-produtor Laurence Mark, 59 anos. Os dois, nova-iorquinos apaixonados pelo teatro e pelo musical, caracterizaram o perfil de mestre de cerimónias e de ambiente cénico que gostariam de criar, e foram buscar Hugh Jackman e David Rockwell. O primeiro, actor moldado para a representação musical, veio inverter o estilo de monólogos humorísticos há anos marcado por Billy Crystal e outros que se lhe seguiram; o segundo, foi talvez a grande aposta e a chave do sucesso do espectáculo deste ano.
O cenógrafo, David Rockwell, 52 anos, (foto 02) famoso arquitecto e designer de Nova Iorque, é o primeiro arquitecto a cenografar os oscars. Rockwell tem uma longa experiência no mundo do espectáculo – cresceu no meio teatral, filho de uma bailarina e coreógrafa de vaudeville, foi autor cenográfico de vários shows da Broadway. Mais, Rockwell é o arquitecto autor do Kodak Theatre, sala onde se realizam os oscars desde 2002. Conhece melhor que ninguém o recinto que ele próprio desenhou, e teve agora a oportunidade de reescrever a sua própria criação.
Nos oscars, começou o processo criativo analisando aquilo a chamou “a mecânica física do espectáculo”, principalmente as transições entre os diferentes segmentos da cerimónia.
Concebeu uma solução visual repartida por 12 quadros – 12 propostas cénicas que, ao longo da noite, iriam construir uma coerência narrativa. Em vez do tradicional púlpito com écran de projecção enquadrado atrás, Rockwell definiu uma bateria de 19 écrans dinâmicos, móveis, geradores de efeitos cativantes, vibrantes, mesmo discordantes, e cinco grandes LED screeens que se recriavam em diferentes posições, e que serviram para tudo, até como porta por onde entrou Spielberg (foto 03) – “quisemos usar uma surpreendente e dramática utilização de tecnologia e movimento”, disse Rockwell. Às vezes juntos, outras vezes separados, os LED screens executaram uma coreografia própria, como aconteceu na brilhante ideia da apresentação “pentapartida” – cinco actores/actrizes de diferentes gerações, juntos em palco, a anunciar uma nomeação (foto 04). Se aplaudir um grande actor no palco é uma emoção; aplaudir a aparição súbita de 5 “monstros” da representação é uma vertigem. Alguém comentava depois do espectáculo: “a ideia da apresentação a cinco, é a ideia mais inovadora em muitos anos de oscars”.
A linha narrativa do espectáculo centrou-se na ideia da cultura cost-conscious, em voga nos tempos que correm. “Este ano tudo foi cortado por causa da recessão”, parodiou Jackman ao abrir o show com um número de musical e dança recheado de adereços de cartão, ostensivamente artesanais (foto 05) que anunciou ter preparado na garagem. O backstage look e o tom de simplicidade, tão grato à ideia de “estamos em crise”, foi contra-balanceado com um extravagante detalhe decorativo expresso numa fantástica e multi-colorida cortina de proscénio (foto 06) feita de 100.000 cristais swarovski, que restituía o look de luxo e glamour que a cerimónia sempre exigirá.
Mas o rasgo de criatividade cenográfica mais admirável consistiu em redesenhar a relação do palco com a plateia. Rockwell e Condon tinham reunido no Outono em Nova Iorque onde discutiram vivamente a questão: “os protagonistas da noite são os actores nomeados, que estão sentados na plateia. Não faz sentido sentá-los num modelo tradicional de teatro onde cada um olha para a nuca do que se senta à sua frente”, concordaram. A proposta de Rockwell consistia em criar uma extensão do palco, em curva, que penetra a plateia provocando um re-arranjo das cadeiras e uma nova relação dos espectadores sentados não apenas com o palco, mas entre si. Esta alteração veio potenciar o trabalho da realização permitindo melhores ângulos de câmara (nos planos de amorcé para plateia) gerando proximidade e emoção (foto 07). A distância de Hugh Jackman à primeira fila era de pouco mais de 2 metros, (foto 08) mas em compensação os fluxos de circulação e de acesso ao palco saiam beneficiados. A realização defendeu e beneficiou a opção cenográfica.
O realizador, Roger Goodman, tinha assinado no ano passado a realização do show red carpet. Subiu agora ao evento principal. Soube integrar e dar coerência narrativa às propostas cenográficas. Perdoam-se-lhe alguns erros de raccord e planos cruzados, sobretudo na dificuldade de integrar os cantos da plateia, como na apresentação de Robert Downey Jr, nos agradecimentos de Chris Dickens, Slumdog Millionaire, melhor montagem a Christian Colson, e principalmente nas apresentações de Melissa Leo (foto 09) e Meryl Strip, com a realização durante segundos a trespassar pânico para o écran. Alguns erros de timing no corte, que sempre acontecem no directo, e que fizeram perder a expressão de Hugh Jackman, quando se auto-anuncia no gag inicial,“hosting!”. Mas num show em que (quase) tudo está planificado, Goodman não perdeu o sentido de improviso e de reacção ao imprevisto – no momento em que Kate Winslet, emocionada, pediu ao pai, algures na sala, que assobiasse para saber onde ele estava. O pai assobiou e a câmara estava lá. Parabéns Goodman, o directo é isso mesmo.
Tire-se o chapéu à realização em dois aspectos: foi uma das edições em que menos se viu a imagem ruidosa de câmaras portáteis agachadas nas coxias da plateia e braços de grua a varrer o auditório; e a ousadia de literalmente “virar as costas” aos apresentadores, optando pela exploração do espaço cénico, deixando apresentadores em off durante mais de 40 segundos – aconteceu nas categorias de art direction e custume design (foto 10). A envolvente cenográfica justificava-o, mas os actores vivem da exposição da sua imagem, e sabemos como deve ter sido difícil negociar com Daniel Craig e Sarah Jessica Parker retirar-lhes 80% do tempo de palco.
Goodman realizou todo o espectáculo menos o segmento in memorian, que foi dirigido por Allen Haines, um pensilvânico de 49 anos. O in memorian integrava de forma muito elegante as componentes cenográfica, gráfica, de movimento de câmara e corte de imagem. Um segmento realizado com rigor milimétrico que, acredito, possa ter levado semanas a preparar. O que nos leva a pensar que Allen Haines estará na calha para realizar os oscars numa das próximas edições.
Curiosamente, produtores, cenógrafo e realizador são nova-iorquinos, ainda que residentes na Califórnia (Hollywood transplantes, como lhes chamam) o que deixa um sabor a Broadway associado ao sucesso deste ano, na cerimónia dos oscars.
Danny Boyle, oscar da melhor realização, disse no palco: “Obrigado. Que magnífico show vocês fizeram! Não sei como terá saído na tv, mas aqui na sala foi maravilhoso, perfeito!”
As receitas anuais da Academia, superiores a 70 milhões de dólares, estão dependentes do sucesso e das audiências deste espectáculo, e a posição negocial da Academia na renovação de contratos que se aproxima, com a ABC e a Walt Disney Co, poderia sair fragilizada. Mas por enquanto The Show Must... and Goes On.
João Salvado, realizador
Publicado na revista PREMIERE de Abril 2009