domingo, abril 19, 2009

O viral


Susan Boyle é uma escocesa de 47 anos, desempregada, solteira, provinciana, feia, com sobrancelhas que nunca foram arranjadas, que confessou em palco nunca ter sido beijada por amor.
Haverá pior forma de começar?

Viral é o nome dado aos conteúdos (pequenos vídeos) disseminados de forma epidémica pelas novíssimas plataformas de comunicação: o mail, os blogs, os microblogs, os vlogs, os instant messengers, os telemóveis e outros.
A divulgação é exponencial, em pirâmide, e faz de cada um de nós, simultâneamente, receptor (porque recebemos de alguém), emissor (porque enviamos para muita gente) e editor de conteúdos (porque seleccionamos o que enviamos e para quem enviamos, criando micro-comunidades na nossa lista de contactos).

Há exactamente uma semana, no sábado passado, Susan Boyle enfrentou o júri e o auditório do Britain’s Got Talent (um equivalente britânico dos nossos Operação Triunfo ou Ídolos) num daqueles castings demolidores de minuto e meio para “glória ou morte súbita”.
O cabelo desgrenhado, o buço, a figura disforme, tudo conduzia para o desfecho previsível de humilhação pública de Susan Boyle, num espectáculo triturador de talentos medianos que exige genialidade, no mínimo, para quem queira merecer o acesso a alguns minutos de fama.

Um viral pode ter produção e divulgação espontânea - porque alguém fez (filmou ou gravou) uma coisa que os outros, e a comunidade, gostam de ver e de fazer circular.
Outros virais podem ser o resultado de um propósito comunicacional, comercial ou industrial – alguém produz um pequeno vídeo com características que lhe permitam circular “viralmente” para com ele conseguir determinado efeito comunicacional ou de divulgação de marca ou imagem.

Com a plateia londrina a gozar a humilhação eminente, Susan Boyle arrancou para os dois minutos de desempenho que lhe foram concedidos.
Sorriu ingenuamente aos primeiros acordes do playback instrumental para a seguir soltar as cordas vocais ao som de I Dreamed a Dream d’Os Miseráveis.
Bastaram-lhe 2 segundos e meio (cronometrados por mim) para paralizar o júri e o auditório que no final se renderam, numa ovação de pé, à mais brilhante vocalização a que tinham assistido em três anos de concurso, vinda de um saloia escocesa.

O vídeo do casting , com 5 minutos, saltou no dia seguinte para o You Tube
Em menos de uma semana o viral da arrepiante performance de Susan Boyle teve no You Tube, por mais de 30 milhões de acessos.
Em 24 horas a fama de Susan Boyle atravessou o Atlântico e esteve no Good Morning America e no Today Show (mais 15 milhões de espectadores) e foi convidada para o show da Oprah.
O Reino Unido parece ter encontrado uma nova heroína, vinda da Escócia agreste e rural. E Susan Boyle já pediu um pequeno prazer: gostaria de cantar para a rainha.
O You Tube recebeu pedidos formais para desactivar o acesso directo ao link porque já há quem queira ter o privilégio de o “distribuir” comercialmente ou para fins “humanitários”.
Já existem versões do vídeo de Susan Boyle legendadas em muitas línguas (incluindo o português).
Susan Boyle já tem uma página biográfica na wikipédia.
Tudo isto em menos de uma semana. Desde sábado passado.
E o que mais irá acontecer, nos próximos dias?

O que é notável é que a actuação musical de Susan Boyle na televisão ainda mal começou.
As audiências da ITV e do Britain’s Got Talent, quando Susan Boyle subir ao palco para cantar a sério, já estão garantidas.
Poderia ter havido melhor campanha promocional, melhor auto-promoção do que esta, que um viral conseguiu lançar?
Terá sido inocente o momento e a forma como a produção do espectáculo lançou um trunfo escondido no corpo desajeitado de uma rural, para o embate com um júri, um publico e uma lógica de concurso, preconceituosos, gravando os cinco minutos de impacto, e dispensando-os logo a seguir ao You Tube?
Não será este caso um extraordinário exemplo da “gestão” multi-plataforma de conteúdos?
Tudo leva a crer que na ITV inglesa se conhecem bem os truques do ofício, e se sabe utilizar as ferramentas da televisão do futuro.
Mesmo salvaguardando as diferenças de escala, estamos bem longe de ver tais requintes de utilização de plataformas, nas velhas televisões portuguesas.

1 comentário:

Sílvia Moura disse...

Labaredas Enooooooooooooormes!

Olá, lembrei-me de ti e resolvi deixar-te aqui um beijinho... Texto muito bem escrito, este.