sábado, abril 11, 2009

A Televisão do Futuro


Vem aí a televisão digital terrestre e, com ela, o quinto canal de televisão generalista em Portugal. O que irá mudar com o aparecimento de uma nova televisão? Iremos beneficiar em qualidade e alternativas, ou será que cinco vai ser igual a quatro mais um?
A cinco – por enquanto vamos chamar-lhe assim – será o primeiro canal generalista do Séc. XXI. E não adianta desvalorizar-lhe o significado. O quinto canal irá nascer 15 a 20 anos depois do seu irmão mais próximo, a TVI. Mas a revolução nas comunicações e as mudanças sociais das últimas décadas, representam, entre eles, um salto maior do que as quatro décadas que antecederam. Significa que o quinto canal nascerá “geracionalmente” mais afastado dos irmãos próximos, TVI e SIC, do que estes da primogénita RTP. Os 35 anos que separam o nascimento da RTP, da televisão privada, parecem, à distância, um instante de calmia – o que determina que, neste caso, 15 ou 20, seja maior do que 35. Fasquia alta para a nova televisão.
Por isso assiste perguntar, como vai ser o quinto canal? O que o irá distinguir dos restantes?
Se o espectro radioeléctrico favorece o aparecimento de uma nova televisão, a conjuntura dos media e do país, dir-se-ia, vem desaconselhá-la – nascido, assim se prevê, em época de avidez e penúria, incumbe-lhe uma tarefa difícil: ser competitivo, partindo na corrida mais tarde e desfavorecido pelas circunstâncias. Mas, por outro lado, aponta-se-lhe tarefa facilitada: irá beneficiar da debilidade e da letargia da concorrência já instalada - anquilosada pelo desuso da agilidade criativa; fragilizada funcionalmente pela ausência de competências profissionais, que descartou; viciada pela lógica, redundante, da programação e contra-programação dos mesmos produtos.
Ao quinto canal, para ser sucedido, só se lhe admite uma via – a posição titânica: para sobreviver terá que vencer. E em televisão vencer é inovar, criar, ser imaginativo, compreender o caminho dos públicos (do que precisam, não do que pedem), interpretar a sociedade, a tecnologia, as comunicações, e surpreender.
O canal cinco não será a terceira versão do modelo estafado TVI/SIC. Não o pode ser em termos funcionais ou empresariais, nem o pode ser em termos de programação e oferta de conteúdos.
Quem ousar lançar-se na aventura do novo canal também não deverá cometer o erro de replicar um modelo estrangeiro, seja francês, italiano, ou alemão. Não há no espectro soluções de importação, à vista, que se ajustem ao nosso mercado.
Pode dizer-se que o canal cinco só será viável se for diferente, se assumir e liderar a mudança. Se começar à frente, mudar primeiro e mexer em tudo. Em suma, criar um novo paradigma.
Espreitemos um pouco para trás, para compreender o futuro: num passado recente, crescemos com o romantismo da televisão única, a pública. Depois inventámos a “televisão privada” – em boa verdade foi a “privada” que nos trouxe a cor, o movimento, a acção, o mundo e a vida contados em directo e pela voz dos protagonistas. Mas o mundo não pára, e foi também a “privada” que nos conduziu à letargia da trash tv, ao “direito” do espectador à sedação electrónica. Nivelando sempre por baixo, a televisão “privada” confinou-se finalmente à essência da lógica “comercial” – e com ela arrastou a progenitora, a televisão pública. Em poucos anos, do reivindicado direito à informação e à cultura, o espectador viu ser-lhe atribuido o direito à alienação e à narcose.
Entretanto, fora das televisões, completa-se o figurino: os jornais gratuitos quase fuzilaram os jornais de referência, para a seguir desfalecerem por exaustão, a favor do desprazer da leitura. A literatura muda de autores. O livro resiste, com dificuldade. A escrita está em desuso, alguns propõem o audio-livro. Os números são fulminantes: 80% do texto escrito, no mundo ocidental, já não é impresso no papel, na carta, no livro ou revista; lê-se no word, no mail, na legenda, no sms, no chat, no messenger... com a consequente altercação “kmpleta d skrita”. O mundo continua a mudar... Para pior e para melhor.
A televisão generalista perde auditório. Foge-lhe. Escorrega para a net, para o google, os chats, o messenger, o webcasting, o YouTube, os outros Tube’s, os blogs, o cabo, as séries da Fox, o video clube, o vod, o emule, os torrents, o Hi5, o orkut, o second life, o dvd, a playstation, o iPhone, a iptv, o ping pong viciante de sms e mms, etc, etc. Há quem teorize sobre “a rejeição do media”, ainda assim as televisões continuam teimosamente a programar para o mesmo universo absoluto - 100%.
A nova televisão, e o paradigma que dela advier, terá que contar com isso.
Muito público – talvez o mais jovem - desalinha de tal forma do “velho media” que poderão estar irremediavelmente perdidos. Os novos media oferecem novas semânticas, outras funcionalidades, interactividade e a capacidade de manuseamento dos conteúdos. Voltar à linguagem flat da televisão, para alguns, é uma ideia de “cota”!
As funcionalidades dos novos media permitem alterar a construção narrativa à vontade do utilizador: o trejeito de uma cantor pimba, pode não ter grande piada; o mesmo trejeito, repetido à exaustão, trocado por mail entre amigos, circulando viral na rede, cria um efeito de comicidade contagiante e de cumplicidade tribal. Ganha valor comunicacional. Alterou-se a lógica narrativa, destruiu-se a hierarquia emissor/receptor. O media agora é de todos. A nova televisão terá também que compreender o que isso significa.
Um vídeo caseiro descarregado do YouTube, tem mais hits numa semana, do que o número de espectadores que assistem a um talk show, em prime time, num canal generalista. Os anunciantes já perceberam, e reagiram. Veja-se como estão a redireccionar o investimento publicitário (leia-se a este propósito A Cauda Longa, de Chris Anderson). É fundamental que o novo paradigma da televisão, saiba gerir conteúdos em multi-plataforma.
Finalmente, há um interessante aspecto a considerar, favorável à nova televisão. Haverá desta vez um regulamento a cumprir. Um caderno de encargos a observar. A nova televisão irá nascer no estrito cumprimento dessas regras - uma fina grelha de exigências e de rigorosos critérios de programação, aplicáveis universalmente a todos os parceiros. Novas regras que até aqui as televisões nunca tiveram necessidade de cumprir, e à luz das quais TVI e SIC, pelo menos, com as actuais grelhas de programação, teriam que fechar portas no dia seguinte.
Que venha então o futuro, e a nova televisão digital, nós cá estaremos para a receber.
João Salvado, realizador
Publicado na revista PREMIERE de Fevereiro 2009

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