sábado, abril 11, 2009

Nos Bastidores dos Oscars



Alguém disse sobre os oscar – “é um espectáculo para televisão, realizado num teatro, para celebrar o cinema”. Esta natureza híbrida do evento não ajuda a resolver os problemas de construção do espectáculo. A duração do formato (longa para tv), e algumas declarações de vitória, do estilo “tenho tanta gente a quem quero agradecer”, fazem tremer os organizadores que todos os anos tentam aplicar novas ideias para puxar o brilho ao evento que constitui um dos maiores rituais partilhados do nosso mundo global. Este ano o reconhecimento chegou – o espectáculo dos oscars foi um êxito. Nos preparativos da cerimónia ergueu-se um verdadeiro show à boa maneira de Hollywood.
Os responsáveis... não faziam parte dos nomeados, mas acabaram todos por fazer parte dos vencedores.
Os produtores do espectáculo, Bill Condon e Laurence Mark (foto 01). Bill Condon, 53 anos, é produtor, realizador e argumentista. Tinha subido ao palco dos oscars há 10 anos para receber o prémio pela adaptação para cinema do Deuses e Monstros, que também realizou. Foi argumentista do Chicago e realizador do Dreamgirls, o que o arruma definitivamente na secção dos especialistas em musical. Da equipa de Dreamgirls arrastou para os oscars 2009 o seu amigo e co-produtor Laurence Mark, 59 anos. Os dois, nova-iorquinos apaixonados pelo teatro e pelo musical, caracterizaram o perfil de mestre de cerimónias e de ambiente cénico que gostariam de criar, e foram buscar Hugh Jackman e David Rockwell. O primeiro, actor moldado para a representação musical, veio inverter o estilo de monólogos humorísticos há anos marcado por Billy Crystal e outros que se lhe seguiram; o segundo, foi talvez a grande aposta e a chave do sucesso do espectáculo deste ano.
O cenógrafo, David Rockwell, 52 anos, (foto 02) famoso arquitecto e designer de Nova Iorque, é o primeiro arquitecto a cenografar os oscars. Rockwell tem uma longa experiência no mundo do espectáculo – cresceu no meio teatral, filho de uma bailarina e coreógrafa de vaudeville, foi autor cenográfico de vários shows da Broadway. Mais, Rockwell é o arquitecto autor do Kodak Theatre, sala onde se realizam os oscars desde 2002. Conhece melhor que ninguém o recinto que ele próprio desenhou, e teve agora a oportunidade de reescrever a sua própria criação.
Nos oscars, começou o processo criativo analisando aquilo a chamou “a mecânica física do espectáculo”, principalmente as transições entre os diferentes segmentos da cerimónia.
Concebeu uma solução visual repartida por 12 quadros – 12 propostas cénicas que, ao longo da noite, iriam construir uma coerência narrativa. Em vez do tradicional púlpito com écran de projecção enquadrado atrás, Rockwell definiu uma bateria de 19 écrans dinâmicos, móveis, geradores de efeitos cativantes, vibrantes, mesmo discordantes, e cinco grandes LED screeens que se recriavam em diferentes posições, e que serviram para tudo, até como porta por onde entrou Spielberg (foto 03) – “quisemos usar uma surpreendente e dramática utilização de tecnologia e movimento”, disse Rockwell. Às vezes juntos, outras vezes separados, os LED screens executaram uma coreografia própria, como aconteceu na brilhante ideia da apresentação “pentapartida” – cinco actores/actrizes de diferentes gerações, juntos em palco, a anunciar uma nomeação (foto 04). Se aplaudir um grande actor no palco é uma emoção; aplaudir a aparição súbita de 5 “monstros” da representação é uma vertigem. Alguém comentava depois do espectáculo: “a ideia da apresentação a cinco, é a ideia mais inovadora em muitos anos de oscars”.
A linha narrativa do espectáculo centrou-se na ideia da cultura cost-conscious, em voga nos tempos que correm. “Este ano tudo foi cortado por causa da recessão”, parodiou Jackman ao abrir o show com um número de musical e dança recheado de adereços de cartão, ostensivamente artesanais (foto 05) que anunciou ter preparado na garagem. O backstage look e o tom de simplicidade, tão grato à ideia de “estamos em crise”, foi contra-balanceado com um extravagante detalhe decorativo expresso numa fantástica e multi-colorida cortina de proscénio (foto 06) feita de 100.000 cristais swarovski, que restituía o look de luxo e glamour que a cerimónia sempre exigirá.
Mas o rasgo de criatividade cenográfica mais admirável consistiu em redesenhar a relação do palco com a plateia. Rockwell e Condon tinham reunido no Outono em Nova Iorque onde discutiram vivamente a questão: “os protagonistas da noite são os actores nomeados, que estão sentados na plateia. Não faz sentido sentá-los num modelo tradicional de teatro onde cada um olha para a nuca do que se senta à sua frente”, concordaram. A proposta de Rockwell consistia em criar uma extensão do palco, em curva, que penetra a plateia provocando um re-arranjo das cadeiras e uma nova relação dos espectadores sentados não apenas com o palco, mas entre si. Esta alteração veio potenciar o trabalho da realização permitindo melhores ângulos de câmara (nos planos de amorcé para plateia) gerando proximidade e emoção (foto 07). A distância de Hugh Jackman à primeira fila era de pouco mais de 2 metros, (foto 08) mas em compensação os fluxos de circulação e de acesso ao palco saiam beneficiados. A realização defendeu e beneficiou a opção cenográfica.
O realizador, Roger Goodman, tinha assinado no ano passado a realização do show red carpet. Subiu agora ao evento principal. Soube integrar e dar coerência narrativa às propostas cenográficas. Perdoam-se-lhe alguns erros de raccord e planos cruzados, sobretudo na dificuldade de integrar os cantos da plateia, como na apresentação de Robert Downey Jr, nos agradecimentos de Chris Dickens, Slumdog Millionaire, melhor montagem a Christian Colson, e principalmente nas apresentações de Melissa Leo (foto 09) e Meryl Strip, com a realização durante segundos a trespassar pânico para o écran. Alguns erros de timing no corte, que sempre acontecem no directo, e que fizeram perder a expressão de Hugh Jackman, quando se auto-anuncia no gag inicial,“hosting!”. Mas num show em que (quase) tudo está planificado, Goodman não perdeu o sentido de improviso e de reacção ao imprevisto – no momento em que Kate Winslet, emocionada, pediu ao pai, algures na sala, que assobiasse para saber onde ele estava. O pai assobiou e a câmara estava lá. Parabéns Goodman, o directo é isso mesmo.
Tire-se o chapéu à realização em dois aspectos: foi uma das edições em que menos se viu a imagem ruidosa de câmaras portáteis agachadas nas coxias da plateia e braços de grua a varrer o auditório; e a ousadia de literalmente “virar as costas” aos apresentadores, optando pela exploração do espaço cénico, deixando apresentadores em off durante mais de 40 segundos – aconteceu nas categorias de art direction e custume design (foto 10). A envolvente cenográfica justificava-o, mas os actores vivem da exposição da sua imagem, e sabemos como deve ter sido difícil negociar com Daniel Craig e Sarah Jessica Parker retirar-lhes 80% do tempo de palco.
Goodman realizou todo o espectáculo menos o segmento in memorian, que foi dirigido por Allen Haines, um pensilvânico de 49 anos. O in memorian integrava de forma muito elegante as componentes cenográfica, gráfica, de movimento de câmara e corte de imagem. Um segmento realizado com rigor milimétrico que, acredito, possa ter levado semanas a preparar. O que nos leva a pensar que Allen Haines estará na calha para realizar os oscars numa das próximas edições.
Curiosamente, produtores, cenógrafo e realizador são nova-iorquinos, ainda que residentes na Califórnia (Hollywood transplantes, como lhes chamam) o que deixa um sabor a Broadway associado ao sucesso deste ano, na cerimónia dos oscars.
Danny Boyle, oscar da melhor realização, disse no palco: “Obrigado. Que magnífico show vocês fizeram! Não sei como terá saído na tv, mas aqui na sala foi maravilhoso, perfeito!”
As receitas anuais da Academia, superiores a 70 milhões de dólares, estão dependentes do sucesso e das audiências deste espectáculo, e a posição negocial da Academia na renovação de contratos que se aproxima, com a ABC e a Walt Disney Co, poderia sair fragilizada. Mas por enquanto The Show Must... and Goes On.
João Salvado, realizador
Publicado na revista PREMIERE de Abril 2009

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