quinta-feira, abril 30, 2009

Bairrão & Balsemão Lda



29 de Abril de 2009, dia 1 da televisão digital em Portugal – comprei pipocas.
Sentei-me em frente ao plasma, sala na penumbra, na expectativa de que uma emoção digital me fizesse sentir a novidade tecnológica.
Fiz zaping, refiz sintonias, varri frequências, explorei menus, sempre na esperança de que a minha relação com o digital fosse além das dedadas melosas no painel do plasma e do besuntado de açucar das pipocas no comando do televisor... mas nada. Nem canais, nem emissões, nem dolbys e widescreens, nem sequer sinais teste.
Esgotada a coca (cola), as pipocas e a paciência, a única sensação digital do dia chegou-me às 19:25, com a leitura online do Diário Económico “Ao Diário Económico, Bernardo Bairrão, administrador delegado da Media Capital, e Francisco Maria Balsemão, vice-presidente da Impresa, defenderam que o Governo deveria optar por dar aos actuais canais generalistas (RTP1, SIC e TVI) a possibilidade de lançarem cada um canal em alta definição. Estes seriam emitidos no espaço reservado ao quinto canal e a um canal em alta definição, que está previsto ser partilhado entre os três operadores.
Ora aí está uma óptima sugestão, pensei. Pedir não custa.
Estou certo que o Bairrão vai apanhar o ministro ASS nos corredores de Queluz e sensibilizá-lo para a ideia de que tudo se troca por tempo de antena.
Quanto ao Balsemão (Xico Maria) vai certamente pôr em prática alguns dos ensinamentos “impresariais”.
Primeiro há que conseguir a licença à borla e na secretaria, desvalorizando sempre o valor milionário do bem público.
A seguir há que pedir facilidades e contrapartidas ao Estado: financiamento público, privilégios fiscais, etc., porque as empresas vão necessitar de condições para se equiparem tecnologicamente e cumprir um calendário de interesse nacional, imposto internacionalmente.
Mais tarde pode-se aplicar a velha tradição: recusar o pagamento de taxas e contribuições à Entidade Reguladora alegando que “não faz sentido o regulado pagar o regulador”.
Se o canal cair à mão por doação, assim, como se sugere na entrevista, também facilmente se passa à margem do caderno de encargos que um rigoroso concurso público exigiria e, sobretudo, ultrapassa-se o incómodo das avaliações intercalares, bienais, que analisam o “comportamento” da empresa concessionada.
Por fim, os anos passam, a memória é curta, a opinião pública está controlada do lado de cá, e pode-se mais tarde, quem sabe, vender, comercializar aquilo que nunca se comprou.
Bravo, Bairrão & Balsemão. Se resultar é de mestre.
Francisco Maria Balsemão detalha no currículo, disponível online:
Participou na elaboração do projecto de televisão privada SIC (Sociedade Independente
de Comunicação, S.A.), na fase de candidatura ao 3º canal de televisão (Abril de 1991)”.

Em Abril de 91 Xico Maria tinha 20 anos.
Se contribuiu com algum parecer ou indicação determinante para a criação do 3º canal, é coisa que eu não sei. Nem eu nem os restantes profissionais, uma centena que, juntos, tivemos o privilégio de criar o primeiro canal de televisão privada. Ninguém se lembra de ter visto o Xico Maria andar por lá.
Talvez o acrescente curricular do moço que aos 20 anos já elabora projectos de televisão não passe de uma ajuda pessoal. Terá sido facilitado por... vá-se lá saber quem?
Entretanto, lembrei-me, há um detalhe que me escapava - é público que a licença do 3º canal, a SIC, foi negociada por Balsemão e Cavaco (então primeiro-ministro) sem o formalismo e a chatice dos concursos e dos cadernos de encargos actuais. A candidatura consistia num único documento com página e meia, em A4.
Talvez tenha passado por aí a colaboração do jovem Francisco Maria.

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