quinta-feira, abril 30, 2009

Contar histórias - Bora lá - I


Há dias cruzei-me no ciber-espaço com um amigo, um ex-colega, que não reconheci.
No momento não lhe vi a cara e não tivesse ele acenado uma salvação este texto nunca existiria.
Não que o ciber-espaço seja uma viela sombria mas apenas porque o amigo me apareceu sob a forma de texto, sem assinatura visível, e eu, desabituado a passar por aquelas esquinas literárias, não percebi quem era.
O ciber-espaço tem destas coisas.
Feitos os cumprimentos lá celebrámos o ciber-encontro, resumido neste diálogo imaginário.
- Bons tempos... e tantas histórias para contar. Fulano e sicrano, que saudades!
- É verdade, quantas histórias!
- Então “bora lá” contar essas histórias – Desafiou-me o Paulo
O Paulo, assim se chama o amigo e colega, anda por aí. Dá aulas, não sei bem o que faz desde que saiu da SIC.
Nunca fomos muito chegados no trabalho, mas sempre apreciei a forma exuberante como ele expressava um humor caustico e pulsante.
Nunca lho terei dito ou demonstrado, mas gostava dele.
A melhor memória que dele retenho havia de ficar guardada para o final. Nunca a vou esquecer. E isso constitui, porque não, uma história do “bora lá contar!”, desta vez com o estímulo de que ele também a estará a ler.
Bora lá!

Estávamos em 2001, acho. A SIC tinha entrado na fase de despedimentos, descartando-se às mãos cheias dos seniores, dos mais caros, dos mais experientes, dos mais incómodos... ou, se quiserem, na fase de se desfazer das excrescências, das adiposidades, emagrecendo a equipa, ajustando-a às novas circunstâncias empresariais.
Whatever?... Que interessa?
Viviam-se dias difíceis naquela comunidade de três centenas de pessoas. Todas as semanas novos nomes se juntavam à lista dos que tinham sido convidados a considerar as vantagens de assinar uma rescisão amigável que sempre evitaria a humilhação do despedimento. Outros chegavam-se à frente e batiam com a porta - por descrédito no projecto, por melhor oferta cá fora ou simplesmente por medo e atracção do abismo – avançavam.
Em silêncio e à boca fechada ia-se sabendo quem eram as novas vítimas.
Uma família profissional que antes tinha tocado a lua, agitava-se agora desnorteada.
Quando alguém recebia a marca de saída era como se tivesse sido colocado numa rampa de lançamento.
Por medo ou coragem, ganhava peito, voz, energia buliçante. Virava atracção de todos os colegas. Era paliativamente acarinhado por olhares, conversas e silêncios carregados de diferentes significados – de admiração, de piedade, de respeito e solidariedade, até de desprezo e inveja, porque tinhamos alcançado a liberdade.
Quem não saberá do que estou a falar? Quantas empresas, quantas micro-sociedades terão vivido o mesmo estado de alma?
Mas bastaram duas ou três fornadas para se perceber que havia uma dramaturgia no despedimento.
No countdown de cada partida havia um momento de catarse colectiva - o Ignition! da rampa de lançamento: o mail de despedida de quem saía. Todos o ansiávamos.
A natureza humana tem destas fraquezas – shadenfreude, como lhe chamam os alemães.
Observar como o companheiro resiste à dor infligida, para percebermos como vai ser, quando chegar a nossa vez.
Cada mensagem de despedida deixada nos computadores era o primeiro som de um corpo que se soltava e vertia no texto o estado de alma em que saía – triste, alegre, enraivecido, aliviado, assustado – um ajuste de contas mas também um exercício de serena liberdade.
Havia de tudo nos mails. Eram longos, curtos, literários, mal escritos, nervosos, serenos, agressivos, ressabiados, felizes.
Ao Paulo atribuo o melhor mail de despedida da história (conhecida) da SIC. De tal forma que o decorei quase por completo.
Foi o mais criativo, o mais pragmático, o mais ousado - diferente.
Presumindo que uma empresa de televisão possa ser, nalgumas circunstâncias, um lugar que privilegia a criatividade, se eu fosse patrão daquela casa teria obrigado o Paulo a voltar para dentro, pela porta principal, já não a recibos verdes mas com contrato renovado.
A mensagem de despedida do Paulo dizia simplesmente “O meu NIB é 0007 4325 ____ ____ __ "
Só esqueci os números. O mail e o Paulo nunca mais irei esquecer.
Bora, Paulo! Estamos por aí... um abraço.
Obrigado e um pedido de anuência pela utilização da imagem dos amigos fotografados.

Bairrão & Balsemão Lda



29 de Abril de 2009, dia 1 da televisão digital em Portugal – comprei pipocas.
Sentei-me em frente ao plasma, sala na penumbra, na expectativa de que uma emoção digital me fizesse sentir a novidade tecnológica.
Fiz zaping, refiz sintonias, varri frequências, explorei menus, sempre na esperança de que a minha relação com o digital fosse além das dedadas melosas no painel do plasma e do besuntado de açucar das pipocas no comando do televisor... mas nada. Nem canais, nem emissões, nem dolbys e widescreens, nem sequer sinais teste.
Esgotada a coca (cola), as pipocas e a paciência, a única sensação digital do dia chegou-me às 19:25, com a leitura online do Diário Económico “Ao Diário Económico, Bernardo Bairrão, administrador delegado da Media Capital, e Francisco Maria Balsemão, vice-presidente da Impresa, defenderam que o Governo deveria optar por dar aos actuais canais generalistas (RTP1, SIC e TVI) a possibilidade de lançarem cada um canal em alta definição. Estes seriam emitidos no espaço reservado ao quinto canal e a um canal em alta definição, que está previsto ser partilhado entre os três operadores.
Ora aí está uma óptima sugestão, pensei. Pedir não custa.
Estou certo que o Bairrão vai apanhar o ministro ASS nos corredores de Queluz e sensibilizá-lo para a ideia de que tudo se troca por tempo de antena.
Quanto ao Balsemão (Xico Maria) vai certamente pôr em prática alguns dos ensinamentos “impresariais”.
Primeiro há que conseguir a licença à borla e na secretaria, desvalorizando sempre o valor milionário do bem público.
A seguir há que pedir facilidades e contrapartidas ao Estado: financiamento público, privilégios fiscais, etc., porque as empresas vão necessitar de condições para se equiparem tecnologicamente e cumprir um calendário de interesse nacional, imposto internacionalmente.
Mais tarde pode-se aplicar a velha tradição: recusar o pagamento de taxas e contribuições à Entidade Reguladora alegando que “não faz sentido o regulado pagar o regulador”.
Se o canal cair à mão por doação, assim, como se sugere na entrevista, também facilmente se passa à margem do caderno de encargos que um rigoroso concurso público exigiria e, sobretudo, ultrapassa-se o incómodo das avaliações intercalares, bienais, que analisam o “comportamento” da empresa concessionada.
Por fim, os anos passam, a memória é curta, a opinião pública está controlada do lado de cá, e pode-se mais tarde, quem sabe, vender, comercializar aquilo que nunca se comprou.
Bravo, Bairrão & Balsemão. Se resultar é de mestre.
Francisco Maria Balsemão detalha no currículo, disponível online:
Participou na elaboração do projecto de televisão privada SIC (Sociedade Independente
de Comunicação, S.A.), na fase de candidatura ao 3º canal de televisão (Abril de 1991)”.

Em Abril de 91 Xico Maria tinha 20 anos.
Se contribuiu com algum parecer ou indicação determinante para a criação do 3º canal, é coisa que eu não sei. Nem eu nem os restantes profissionais, uma centena que, juntos, tivemos o privilégio de criar o primeiro canal de televisão privada. Ninguém se lembra de ter visto o Xico Maria andar por lá.
Talvez o acrescente curricular do moço que aos 20 anos já elabora projectos de televisão não passe de uma ajuda pessoal. Terá sido facilitado por... vá-se lá saber quem?
Entretanto, lembrei-me, há um detalhe que me escapava - é público que a licença do 3º canal, a SIC, foi negociada por Balsemão e Cavaco (então primeiro-ministro) sem o formalismo e a chatice dos concursos e dos cadernos de encargos actuais. A candidatura consistia num único documento com página e meia, em A4.
Talvez tenha passado por aí a colaboração do jovem Francisco Maria.

segunda-feira, abril 27, 2009

Venham os gentornalistas que Abril não está fácil


Última semana de Abril, primeiros dias de Maio, jornada habitualmente marcada por outro tipo de agenda – a evocação das datas que celebram o ADN da nossa democracia.
Abril não esperava que estes dias viessem a ser marcados por um conjunto de acontecimentos relevantes na área da comunicação social, mas foi isso que aconteceu... para o bem ou para o mal. Vejamos:

A TDT
29 de Abril de 2009. Início formal, mas desastroso, da televisão digital terrestre em Portugal.
Um serviço tecnológico novo que começa vazio, sem conteúdos.
As três televisões, a PT, o governo, a ANACOM, a ERC, vão enganar o país. Vão mentir-nos dizendo que tudo está a funcionar como previsto. O país, sem informação crítica e perante um tema demasiado técnico, vai acreditar.
A TDT começa mal. Vejamos algumas verdades que nos serão omitidas:
1 - O calendário português de implementação da televisão digital põe o país na cauda da Europa. Fazemos mal e tarde. Estamos no grupo da retaguarda, com a Letónia, Chipre e a Roménia, por exemplo.
2 – Pior, Portugal será uma excepção no espaço europeu. Talvez o único país que não associa um novo produto, um novo canal, à inovação tecnológica. Dia 29 estaremos a inaugurar uma “onda hertziana”.
3 - Portugal confinou a televisão generalista free to air a um único multiplexer. O que traduzido para linguagem que se entenda quer dizer: limitou a televisão gratuita a cinco canais. As restantes dezenas de canais (muitas), que a tecnologia digital irá permitir, ficam reservados para a televisão paga. Uma decisão muito pouco social, do governo, a que não serão alheios os interesses da PT a quem foi adjudicada, num concurso público polémico, a exploração de toda a rede digital (6 multiplexers).
4 - Oposto ao caso português refira-se, por exemplo, a República Checa, com um calendário muito à frente do nosso, onde o governo decidiu autorizar 24 novos canais que lançou a concurso público. Aparecem “apenas” 6 candidatos e foram atribuídas 6 licenças. (O coração do Dr. Balsemão não teria resistido, se vivesse na República Checa).
5 – O esvaziamento do concurso público para o quinto canal, por interesses claramente políticos e de pressão de grupos económicos, é uma vergonha nacional que humilha a independência das entidades reguladoras.
6 - Sem direito a desmentido por parte das entidades técnicas, em particular da ANACOM, tem-se generalizado a ideia de que o futuro (temporariamente comprometido) quinto canal será o último possível no espectro radioeléctrico. Totalmente falso.

O Dividendo Digital
É importante sublinhar que Portugal não terá mais canais generalistas free to air (FTA) porque apenas lhes foi reservado um dos multiplexers. Os 5 restantes foram atribuídos à pay-tv. Isto é, cerca de 80% das frequências ficam destinadas à comercialização. A política do interesse comercial prevaleceu sobre a política do interesse público.
A transição do analógico para o digital irá libertar frequências – um canal de televisão que transmita em digital irá ocupar cerca de 25% do “espaço” hertziano que necessitava para emitir em analógico – ganha-se em qualidade e poupa-se espectro. As frequências que sobram podem ser utilizadas para outros fins. A esse “ganho espectral” foi atribuído o nome de “dividendo digital” e em todo o mundo, país a país, a sua utilização está a ser pensada. A União Europeia estimulou fortemente os Estados membros a discutir e a gerir com critério esse bem radioeléctrico.
Em Portugal, durante todo o mês de Abril e até 13 de Maio está a decorrer, sob os auspícios da ANACOM, a Consulta Pública sobre o Dividendo Digital, que pretende recolher ideias e sugestões da sociedade, sobre o assunto. O assunto esteve em discussão, recentemente, no aconchego das salas do CCB, para conversa de engenheiros e poucos mais, enquanto a opinião pública, sem participação na consulta, continua amarrada à ideia de que não poderá haver mais do que cinco canais generalistas. Estranho! É o mínimo que se pode dizer.

NAB 2009
24 de Abril. Em Las Vegas termina a NAB 2009, o maior certame mundial de tecnologia de televisão. Apareceram novidades, uma delas apresentada por David Rehr: a utilização das frequências dos canais de televisão já existentes para transportar emissões de rádio para dispositivos móveis, rentabilizando serviços e custos (lá voltarei, num próximo post).

Quinto canal, o juiz decide
23 de Abril. A Telecinco, o quinto canal de televisão, passou para uma nova fase – a judicial. A menos que a justiça seja “uma batata”, será apenas uma questão de meses (anos, no sistema judicial português) até que a verdade seja reposta. Para quem conhece bem o dossier não há razões para que qualquer juiz não determine repor a Telecinco no concurso público. Até lá, vou imaginando Azeredo Lopes no banco do tribunal a explicar porque leu NÃO numa resolução do Conselho de Ministros que diz SIM.
Espera-se uma decisão justa, mas não apenas isso. Espera-se que seja exigida responsabilidade extracontratual aos eventuais condenados, com efeito moralizador na sociedade. De futuro, outros comissários políticos deverão pensar duas vezes antes de tomarem decisões abstrusas e levianas, apenas porque o fazem a coberto dos interesses do patrão.
Com o canal parado numa repartição judicial faz sentido que os responsáveis pelo projecto Telecinco pensem numa solução transitória. É preciso aguentar a travessia, mas sentados à espera não se chega a lado nenhum.
O projecto Telecinco consubstancia uma televisão multi-plataforma, não apenas 1 televisão + 1 site, como acontece com as existentes.
A ERC coarctou a capacidade broadcasting da Telecinco mas, para o bem de todos, a ERC não tutela nem detém autoridade sobre as outras plataformas de emissão, a Internet, por exemplo. (Teríamos Internet como tem o Irão, se a ERC a pudesse regular). Faz sentido que a Telecinco utilize as tecnologias não tangíveis pela ERC para se poder afirmar como órgão de comunicação emergente. Criando nome e marca. Operando num patamar intermédio. Criando públicos. Treinando rotinas. Potenciando serviços que irá prestar mais tarde.
O mundo dos new media é um universo fascinante que se abre à nossa frente todos os dias, como numa caixa de surpresas. É para ele que devemos olhar, estudando, aprendendo. Quem não lhe atribuir importância, estará condenado.
É nesse sentido que se enquadram as duas histórias, os dois case studies, que refiro a seguir.

Michael Wolff e a morte dos jornais
2009, última semana de Abril. Michael Wolff prevê que 80% dos jornais em papel irão desaparecer dentro de um ano e meio.
Quem é Michael Wolff? É o fundador do Newser – o Newser é um serviço de notícias online que junta inteligência humana e trabalho automatizado de agregação de conteúdos, disponibilizando aos utilizadores toda a informação para consulta "em menos tempo e de forma mais visual e atractiva".
Wollf explica o funcionamento do site: “procuramos as melhores histórias por toda a web, lê-mo-las e reescrevê-mo-las de forma mais sucinta e agradável, numa grelha visual rica em imagem, vídeo, áudio e links para o texto de origem.”
O Newser é um site (um serviço) que recolhe admiração crescente no mercado americano.
Se Michael Wollf vir realizadas as suas profecias restam-nos os livros e as revistas até que alguém anuncie também a morte, o fim, do ciclo Gutemberg.

Lepost.fr oito milhões de visitantes mensais.
Lepost é outro site inovador. Menos espectacular na componente visual, mas mais sólido que o Newser e assente em conceitos extremamente ousados. Nasceu há ano e meio a partir do Le Monde Interactif, o website do jornal Le Monde.
Lepost é um caso de sucesso e tornou-se um case study na comunidade francesa e internacional. Não pára de crescer, no mês passado (Março de 2009) contou com quase oito milhões de utilizadores regulares. O negócio conta atingir o breakeven em 2010.
É um site de informação, de jornalismo, com uma linha editorial um pouco mais tablóide que o jornal mãe”, o Le Monde. Mas quais as singularidades do Lepost que o expõem à atenção internacional?
Benoît Raphaël (na foto), o chefe de redacção do Lepost explica: “o que faz a diferença do Lepost, para outros sites de informação é que as notícias são feitas pelos jornalistas da redacção e pelo público”. Aquilo a que chamam conteúdos pro (profissionais) e conteúdos am (amadores).
A redacção do Lepost é composta por nove jornalistas:
- 1 jornalista sénior, o chefe de redacção;
- 4 jornalistas especializados em áreas temáticas (política, media, Internet, crime e acidentes);
- 2 na desk agregando notícias, reescrevendo-as;
- 1 “vídeo-jornalista” que investiga em permanente zapping na net, conteúdos visuais que possam ser agregados;
- 1 “coach-jornalista” encarregado da relação com a comunidade. Parte do seu trabalho é validar a informação enviada pelos gentornalistas (1), procurar testemunhos, etc.
O site criou uma comunidade de 25.000 membros. Cerca de 1.000 são participantes activos, escrevendo, por exemplo, comentários. Cerca de 250 são convidados – produzem conteúdos, são bloggers e colunistas... e recebem dinheiro. São pagos à percentagem em função dos pageviews. Os gentornalistas recebem 50% da receitas da publicidade associada ao conteúdo, com um mínimo garantido de (500 USD) 380 euros mensais.
Os gentornalistas enviam para o Lepost cerca de 500 contribuições diárias. “Valorizam as notícias mais do que os jornalistas convencionais, porque conhecem bem o assunto, sabem do que escrevem, trazem emoção, autenticidade e conhecimento. São especialistas, testemunharam o acontecimento. São apaixonados por um assunto, sabem tudo sobre ele”, explica Benoît Raphaël.
Além dos nove membros da equipa editorial, o site conta com:
- 1 director de marketing
- 1 product manager
- 1 comercial para venda de publicidade
- 2 developers
E o site “mãe” o lemonde.fr colabora, partilhando alguns técnicos e informáticos.
A relação entre conteúdos profissionais e amadores é de 1/10. O Lepost publica diariamente cerca de 40 novos artigos pro e 400 am. Mas a contabilidade não tão linear como isso, a estratégia editorial é a de co-produzir conteúdos. Perderia interesse e eficácia dividir o site em dois lados distintos, o profissional e o amador.
As notícias am que chegam ao Lepost são processadas: a informação é validada, “filtrada” por moderadores para assegurar que não há matéria ilegal, falsa informação e que não é contraditória com o estatuto editorial do site.
Na redacção, o primeiro contacto com as notícias am é feito pelo coach-jornalista e depois pelos jornalistas especializados. Cada jornalista do Lepost gere uma pequena comunidade de contactos em quem confia. Qualquer conteúdo informativo recém-chegado à redacção é rapidamente “checado” mediante uma técnica, um conjunto de procedimentos, que a redacção criou, a que chamam FFC (fast fact checking).
Foi graças à tecnica de FFC e à ajuda de um amador, que descobrimos, há uns tempos, que um vídeo dramático sobre a faixa de Gaza era falso. Descobrimos a fraude e evitámos a sua publicação. Na mesma altura, a France 2, o canal público de televisão, precipitadamente, emitiu-o, porque não tinha validado a origem” explica Benoît.
O ciber-jornalismo traz-nos um mundo novo, não apenas o velho jornalismo assente numa nova plataforma. Um ciber-jornalista do Lepost é um produtor de informação, um agregador, um activista na comunidade. Pela forma como elabora a informação é uma jornalista em rede. O ciber-jornalista pesquisa o que sobre o mesmo assunto foi publicado noutros media, noutras plataformas. Congrega material de diferentes origens, como blogs, twitter, You Tube, etc., e meios tradicionais” diz Benoît Raphaël
Nota curiosa: o Lepost cancelou os serviços de agência, a France Presse e a Reuters, alegando que “nada acrescentavam à produção informativa”. Benoît explica: “será sempre necessário ter acesso à informação “breaking news”, mas ela está espalhada por toda a parte, ao mesmo tempo. Era frequente sermos informados de uma notícia antes da Reuters e da AFP a conhecerem, bastava-nos consultar a nossa conta de twitter”.
E mais – sublinha com pragmatismo Benoît Raphaël – num mundo de comunicação em rede não faz sentido enviar jornalistas para toda a parte para cobrir a notícia, porque a notícia está acessível em toda a parte, gratuita, partilhada instantaneamente por centenas de jornalistas que produzem os mesmos parágrafos, as mesmas imagens
A redacção do Lepost faz lembrar uma redacção de radio. A informação não cristaliza depois de publicada, está sempre a ser processada e re-processada, mesmo estando já “no ar”.

É de Benoît Raphaël a frase “O ADN da Informação mudou. Agora é preciso mudar o ADN dos jornalistas”.
Fica o aviso.

(1) - Gentornalista é uma palavra que decidi inventar para este texto. É uma contribuição liberal para a tradução do termo inglês “citizen-journalist”.
Espero que funcione. Se não funcionar, esqueçam-na e substituam por outra melhor.

quarta-feira, abril 22, 2009

O Ground Zero da televisão digital


Maio de 2009 marca o início da televisão digital terrestre (TDT) em Portugal. O início da disponibilidade tecnológica, mas não o início das emissões regulares. O governo determinou (e a PT assume cumprir) que no final de 2010 a cobertura da TDT no território nacional será de 100%. Dentro de ano e meio, sensivelmente, todo o país estará pronto a deitar fora mais de 50 anos de “velha” televisão.
O que vai mudar de imediato na televisão em Portugal?

O impacto da televisão digital nos lares portugueses nos próximos meses será mínimo, quase inexistente.
Quem aderir à TDT recebendo o sinal de televisão por antena irá observar pequenas diferenças – mais definição na imagem e menos fantasmas, sobretudo se viver numa zona de má cobertura, apenas isso. Quem já recebe televisão por cabo não irá notar diferença nenhuma, literalmente.
Não estaremos longe da verdade se dissermos que, para já, a TDT não representa mais que uma nova forma de a velha televisão nos chegar a casa. Haverá duas ou três funcionalidades acessíveis nos descodificadores digitais (menus, guias de programação, pause e rewind, etc.) que não existem na televisão analógica, mas tudo isso somado, não faz uma nova televisão. O que falta, então?
Falta alta-definição, formato panorâmico, som de alta qualidade, multi-pistas de áudio para o espectador optar pela língua em que quer ver o conteúdo, idênticas opções para escolha de legendagem, funcionalidades para portadores de deficiência, conteúdos on demand, etc. Enfim, tudo aquilo a que já estamos habituados no media DVD, e mais algumas coisas como interactividade, conteúdos e conceitos multi-plataforma, com acesso por internet, por exemplo.
A televisão digital é uma nova tecnologia de transmissão que só faz sentido quando potenciada por conteúdos de alta-definição associados a novas tecnologias de produção e concebidos em ambiente digital.
Corremos o risco de ver o espectador divorciar-se na inovação tecnológica se não lhe dissermos a verdade: há um enorme equívoco na oferta que lhe será proposta nos primeiros tempos de vida da TDT em Portugal.
Nenhuma das estações de televisão produz em alta-definição. Nenhuma das actuais televisões produz conteúdos multi-plataforma. Por isso, tão cedo não iremos gozar dos verdadeiros prazeres da TDT.
É óbvio que as estações de televisão irão seduzir públicos anunciando emissões digitais. Mera publicidade. Estarão apenas a codificar para suporte digital os mesmos conteúdos que produzem para o ambiente analógico.
Enquanto não forem forçadas pela concorrência, isto é, enquanto não houver um novo operador a produzir em ambiente digital, as televisões (as privadas, sobretudo) não têm razões comerciais para fazer investimentos em alta-definição ou inovar nos métodos de produção. E se a concorrência não aparecer com brevidade, irão mesmo exigir contrapartidas ao Estado para concretizar os investimentos tecnológicos que lhes permitam cumprir o calendário oficialmente traçado.
O aparecimento de um novo canal privado de TDT, generalista, gratuito, de alta-definição e de produção em ambiente digital, será a “pedra de toque” que fará remexer todo o sector audiovisual com evidentes vantagens para o espectador/consumidor.
Em boa hora foi tomada a decisão de pôr a concurso um novo canal de televisão generalista, nascido no novo ambiente tecnológico; mas numa hora menos feliz se voltou atrás esvaziando o concurso público, com a desqualificação das propostas concorrentes.
Numa Europa cheia de televisões generalistas, públicas, privadas, digitais, etc., Portugal encontrou mais um motivo para se sentar, de novo, na fila de trás da modernidade.
Então o que vai mudar a curto prazo na televisão portuguesa? Este ano, quase nada.A auto-estrada está construída. Pronta. Um tapete para alta velocidade que atravessa o país rasgando montanhas e vales. Mas pouco funciona. Não há acessos e tão cedo ninguém a vai utilizar. Que desperdício!
João Salvado, realizador
Publicado na revista PREMIERE de Maio 2009

domingo, abril 19, 2009

O viral


Susan Boyle é uma escocesa de 47 anos, desempregada, solteira, provinciana, feia, com sobrancelhas que nunca foram arranjadas, que confessou em palco nunca ter sido beijada por amor.
Haverá pior forma de começar?

Viral é o nome dado aos conteúdos (pequenos vídeos) disseminados de forma epidémica pelas novíssimas plataformas de comunicação: o mail, os blogs, os microblogs, os vlogs, os instant messengers, os telemóveis e outros.
A divulgação é exponencial, em pirâmide, e faz de cada um de nós, simultâneamente, receptor (porque recebemos de alguém), emissor (porque enviamos para muita gente) e editor de conteúdos (porque seleccionamos o que enviamos e para quem enviamos, criando micro-comunidades na nossa lista de contactos).

Há exactamente uma semana, no sábado passado, Susan Boyle enfrentou o júri e o auditório do Britain’s Got Talent (um equivalente britânico dos nossos Operação Triunfo ou Ídolos) num daqueles castings demolidores de minuto e meio para “glória ou morte súbita”.
O cabelo desgrenhado, o buço, a figura disforme, tudo conduzia para o desfecho previsível de humilhação pública de Susan Boyle, num espectáculo triturador de talentos medianos que exige genialidade, no mínimo, para quem queira merecer o acesso a alguns minutos de fama.

Um viral pode ter produção e divulgação espontânea - porque alguém fez (filmou ou gravou) uma coisa que os outros, e a comunidade, gostam de ver e de fazer circular.
Outros virais podem ser o resultado de um propósito comunicacional, comercial ou industrial – alguém produz um pequeno vídeo com características que lhe permitam circular “viralmente” para com ele conseguir determinado efeito comunicacional ou de divulgação de marca ou imagem.

Com a plateia londrina a gozar a humilhação eminente, Susan Boyle arrancou para os dois minutos de desempenho que lhe foram concedidos.
Sorriu ingenuamente aos primeiros acordes do playback instrumental para a seguir soltar as cordas vocais ao som de I Dreamed a Dream d’Os Miseráveis.
Bastaram-lhe 2 segundos e meio (cronometrados por mim) para paralizar o júri e o auditório que no final se renderam, numa ovação de pé, à mais brilhante vocalização a que tinham assistido em três anos de concurso, vinda de um saloia escocesa.

O vídeo do casting , com 5 minutos, saltou no dia seguinte para o You Tube
Em menos de uma semana o viral da arrepiante performance de Susan Boyle teve no You Tube, por mais de 30 milhões de acessos.
Em 24 horas a fama de Susan Boyle atravessou o Atlântico e esteve no Good Morning America e no Today Show (mais 15 milhões de espectadores) e foi convidada para o show da Oprah.
O Reino Unido parece ter encontrado uma nova heroína, vinda da Escócia agreste e rural. E Susan Boyle já pediu um pequeno prazer: gostaria de cantar para a rainha.
O You Tube recebeu pedidos formais para desactivar o acesso directo ao link porque já há quem queira ter o privilégio de o “distribuir” comercialmente ou para fins “humanitários”.
Já existem versões do vídeo de Susan Boyle legendadas em muitas línguas (incluindo o português).
Susan Boyle já tem uma página biográfica na wikipédia.
Tudo isto em menos de uma semana. Desde sábado passado.
E o que mais irá acontecer, nos próximos dias?

O que é notável é que a actuação musical de Susan Boyle na televisão ainda mal começou.
As audiências da ITV e do Britain’s Got Talent, quando Susan Boyle subir ao palco para cantar a sério, já estão garantidas.
Poderia ter havido melhor campanha promocional, melhor auto-promoção do que esta, que um viral conseguiu lançar?
Terá sido inocente o momento e a forma como a produção do espectáculo lançou um trunfo escondido no corpo desajeitado de uma rural, para o embate com um júri, um publico e uma lógica de concurso, preconceituosos, gravando os cinco minutos de impacto, e dispensando-os logo a seguir ao You Tube?
Não será este caso um extraordinário exemplo da “gestão” multi-plataforma de conteúdos?
Tudo leva a crer que na ITV inglesa se conhecem bem os truques do ofício, e se sabe utilizar as ferramentas da televisão do futuro.
Mesmo salvaguardando as diferenças de escala, estamos bem longe de ver tais requintes de utilização de plataformas, nas velhas televisões portuguesas.

sábado, abril 18, 2009

O que pequeno nasce, grande pode tornar-se


Nos anos 90, John Polson, um actor/realizador trintão e meio encalhado nos negócios da produção cinematográfica resolveu juntar uns amigos e organizar um festival de cinema de curtas metragens.
A “coisa” podia passar-se ali mesmo, no Tropicana Caffe, nos subúrbios de Sydney, na Austrália, onde se juntavam quase todos os dias para “tomar a bica”.
O TropFest nasceu e a aventura correu bem. Muito bem, mesmo, ao ponto de, com os anos, ser acarinhado pelo público como um dos principais eventos culturais e artísticos da Austrália.
Polson soube dinamizar o festival introduzindo novas categorias, mas mantendo sempre o foco no formato “curtas”.
Mais três anos e o Tropfest, que do café Tropicana já só tinha a metade frontal do nome, subia por mérito, à classificação guiness de “o maior festival de curtas metragens do mundo”.
Encheu de orgulho o país, mas Polson tratou de criar um desdobramento com uma versão complementar do certame a decorrer em Nova Iorque.
O Tropfest vive agora, orgulhosamente, nos dois lados do planeta na versão Atlântica e na “Pacífica”. E é cada vez mais o maior festival de curtas do mundo.
Pelas características do formato em competição, está receptivo a tudo e, por isso, aberto à criatividade e à inovação.
De amador já não tem nada. A indústria mainstream vive de olhos postos no festival, qual grande clube de futebol a observar os treinos da escolinha de infantis.
Russell Crowe e Nicole Kidman, pela costela aussie, certamente, são alguns dos apoiantes assumidos do Tropfest.
Para rematar a coisa, a versão mãe do evento, a australiana, já mudou de nome - chama-se agora “SONY TropFest” – está tudo explicado.

Na última edição Nova Iorquina do festival, que decorre em Setembro, a curta vencedora arrecadou pela primeira vez os dois prémios em jogo: o troféu do público e o troféu do júri.
Mas mais, também pela primeira vez o vencedor foi um filme “inteiramente rodado” no suporte “cellphone”, isto é, feito com o telemóvel.
20.000 dolares e umas viagens de avião dizem ter sido o prémio do vencedor. Mas não, muito mais do que isso: contratos, convites, e a porta aberta para a indústria mainstream que fará de Jason van Genderen, o realizador (na foto), um dos nomes a acrescentar na lista telefónica de Hollywood, assim ele saiba manter o talento e o juízo.
Quanto ao filme, a mensagem “romantico-globo-humano-sócio-poético-urbano-pacifista” de Mankind is no Island – 3 minutos de duração, 57 dolares de orçamento global – vale o click de visionamento que aqui proponho.
Mesmo a música – composição original, totalmente suportada pelo orçamento da produção – poderia passar por obra em estado adulto da inspiração e do piano de um Keith Jarret qualquer.
Fruto da admiração e simpatia que o “filme” suscitou, o viral no You Tube neste link...



...é um pequeno espectáculo que também eu aconselho a não perder.
(Desligue primeiro a música de internet radio deste blog e depois oiça e veja com atenção)

sábado, abril 11, 2009

A Ferramenta


Todos os dias é utilizado por milhões de pessoas para alterar a realidade – transformá-la naquilo que os olhos querem ver.
Para muita gente é um instrumento permanente de trabalho por isso lhe chamam ferramenta.
Retocar, recriar, inventar, mudar, alterar, retirar, aumentar, renovar... é interminável a lista de verbos regulares que se podem ajustar aos pequenos gestos que fazem a rotina do utilizador de Photoshop.

Nas mãos do fotógrafo, sonhador, refazem-se sombras, removem-se acnes e rugas e muitas jovens modelo, candidatas à perfeição, vêem a celulite sumir-se das suas fotos de portfolio.

Nas mãos do gráfico, cismático, compõem-se colagens e fotomontagens, construindo narrativas que, apenas com palavras, não se poderiam contar.

Nas mãos do publicista, finório, desenham-se bolhas de condensação, tentadoras, que nascem do seco das embalagens haurindo-nos a sede e o desejo.

Nas mãos do director de campanha, demagogo, apagam-se detalhes indesejados do fácies cansado do político, retiram-se-lhe papos, olheiras e agrisalha-se o penteado.

Nas mãos do agente de turismo, sedutor, troca-se betão por palmeiras de areal e azul, recortam-se e colam-se famílias felizes em fundos tropicais onde nunca estiveram.

Nas mãos do director de arte, diligente, recolhe-se mobiliário urbano limpando cidades das vistas enfadonhas da modernidade.

Nas mãos do falsificador, sombrio, truncam-se partes, alteram-se nomes e detalhes, refazendo sucedâneos de verdade.

Nas mãos do pornógrafo, assanhado, agigantam-se glândulas, embelezam-se órgãos ao sabor do desejo maníaco do espectador.

Nas mãos do vendedor, previdente, etiquetam-se preços, anexam-se legendas, transformando fotografias em folhetos de catálogo comercial.

Nas mãos do artista, romântico, filtra-se o mundo em sépias, contrastes, saturações e highlights de aguarela.

Nas mãos do caricaturista, mágico, deforma-se a figura recriando, com ironia e humor, visões ostensivas do mundo.

Que bom terem inventado o photoshop.


Photoshop é o nome do programa de manipulação de imagem que se impôs comercialmente como standard de mercado. Existem outros programas como, por exemplo, o GIMP (GNU Image Manipulation Program), igualmente sofisticados e poderosos e de utilização gratuita.

Nos Bastidores dos Oscars



Alguém disse sobre os oscar – “é um espectáculo para televisão, realizado num teatro, para celebrar o cinema”. Esta natureza híbrida do evento não ajuda a resolver os problemas de construção do espectáculo. A duração do formato (longa para tv), e algumas declarações de vitória, do estilo “tenho tanta gente a quem quero agradecer”, fazem tremer os organizadores que todos os anos tentam aplicar novas ideias para puxar o brilho ao evento que constitui um dos maiores rituais partilhados do nosso mundo global. Este ano o reconhecimento chegou – o espectáculo dos oscars foi um êxito. Nos preparativos da cerimónia ergueu-se um verdadeiro show à boa maneira de Hollywood.
Os responsáveis... não faziam parte dos nomeados, mas acabaram todos por fazer parte dos vencedores.
Os produtores do espectáculo, Bill Condon e Laurence Mark (foto 01). Bill Condon, 53 anos, é produtor, realizador e argumentista. Tinha subido ao palco dos oscars há 10 anos para receber o prémio pela adaptação para cinema do Deuses e Monstros, que também realizou. Foi argumentista do Chicago e realizador do Dreamgirls, o que o arruma definitivamente na secção dos especialistas em musical. Da equipa de Dreamgirls arrastou para os oscars 2009 o seu amigo e co-produtor Laurence Mark, 59 anos. Os dois, nova-iorquinos apaixonados pelo teatro e pelo musical, caracterizaram o perfil de mestre de cerimónias e de ambiente cénico que gostariam de criar, e foram buscar Hugh Jackman e David Rockwell. O primeiro, actor moldado para a representação musical, veio inverter o estilo de monólogos humorísticos há anos marcado por Billy Crystal e outros que se lhe seguiram; o segundo, foi talvez a grande aposta e a chave do sucesso do espectáculo deste ano.
O cenógrafo, David Rockwell, 52 anos, (foto 02) famoso arquitecto e designer de Nova Iorque, é o primeiro arquitecto a cenografar os oscars. Rockwell tem uma longa experiência no mundo do espectáculo – cresceu no meio teatral, filho de uma bailarina e coreógrafa de vaudeville, foi autor cenográfico de vários shows da Broadway. Mais, Rockwell é o arquitecto autor do Kodak Theatre, sala onde se realizam os oscars desde 2002. Conhece melhor que ninguém o recinto que ele próprio desenhou, e teve agora a oportunidade de reescrever a sua própria criação.
Nos oscars, começou o processo criativo analisando aquilo a chamou “a mecânica física do espectáculo”, principalmente as transições entre os diferentes segmentos da cerimónia.
Concebeu uma solução visual repartida por 12 quadros – 12 propostas cénicas que, ao longo da noite, iriam construir uma coerência narrativa. Em vez do tradicional púlpito com écran de projecção enquadrado atrás, Rockwell definiu uma bateria de 19 écrans dinâmicos, móveis, geradores de efeitos cativantes, vibrantes, mesmo discordantes, e cinco grandes LED screeens que se recriavam em diferentes posições, e que serviram para tudo, até como porta por onde entrou Spielberg (foto 03) – “quisemos usar uma surpreendente e dramática utilização de tecnologia e movimento”, disse Rockwell. Às vezes juntos, outras vezes separados, os LED screens executaram uma coreografia própria, como aconteceu na brilhante ideia da apresentação “pentapartida” – cinco actores/actrizes de diferentes gerações, juntos em palco, a anunciar uma nomeação (foto 04). Se aplaudir um grande actor no palco é uma emoção; aplaudir a aparição súbita de 5 “monstros” da representação é uma vertigem. Alguém comentava depois do espectáculo: “a ideia da apresentação a cinco, é a ideia mais inovadora em muitos anos de oscars”.
A linha narrativa do espectáculo centrou-se na ideia da cultura cost-conscious, em voga nos tempos que correm. “Este ano tudo foi cortado por causa da recessão”, parodiou Jackman ao abrir o show com um número de musical e dança recheado de adereços de cartão, ostensivamente artesanais (foto 05) que anunciou ter preparado na garagem. O backstage look e o tom de simplicidade, tão grato à ideia de “estamos em crise”, foi contra-balanceado com um extravagante detalhe decorativo expresso numa fantástica e multi-colorida cortina de proscénio (foto 06) feita de 100.000 cristais swarovski, que restituía o look de luxo e glamour que a cerimónia sempre exigirá.
Mas o rasgo de criatividade cenográfica mais admirável consistiu em redesenhar a relação do palco com a plateia. Rockwell e Condon tinham reunido no Outono em Nova Iorque onde discutiram vivamente a questão: “os protagonistas da noite são os actores nomeados, que estão sentados na plateia. Não faz sentido sentá-los num modelo tradicional de teatro onde cada um olha para a nuca do que se senta à sua frente”, concordaram. A proposta de Rockwell consistia em criar uma extensão do palco, em curva, que penetra a plateia provocando um re-arranjo das cadeiras e uma nova relação dos espectadores sentados não apenas com o palco, mas entre si. Esta alteração veio potenciar o trabalho da realização permitindo melhores ângulos de câmara (nos planos de amorcé para plateia) gerando proximidade e emoção (foto 07). A distância de Hugh Jackman à primeira fila era de pouco mais de 2 metros, (foto 08) mas em compensação os fluxos de circulação e de acesso ao palco saiam beneficiados. A realização defendeu e beneficiou a opção cenográfica.
O realizador, Roger Goodman, tinha assinado no ano passado a realização do show red carpet. Subiu agora ao evento principal. Soube integrar e dar coerência narrativa às propostas cenográficas. Perdoam-se-lhe alguns erros de raccord e planos cruzados, sobretudo na dificuldade de integrar os cantos da plateia, como na apresentação de Robert Downey Jr, nos agradecimentos de Chris Dickens, Slumdog Millionaire, melhor montagem a Christian Colson, e principalmente nas apresentações de Melissa Leo (foto 09) e Meryl Strip, com a realização durante segundos a trespassar pânico para o écran. Alguns erros de timing no corte, que sempre acontecem no directo, e que fizeram perder a expressão de Hugh Jackman, quando se auto-anuncia no gag inicial,“hosting!”. Mas num show em que (quase) tudo está planificado, Goodman não perdeu o sentido de improviso e de reacção ao imprevisto – no momento em que Kate Winslet, emocionada, pediu ao pai, algures na sala, que assobiasse para saber onde ele estava. O pai assobiou e a câmara estava lá. Parabéns Goodman, o directo é isso mesmo.
Tire-se o chapéu à realização em dois aspectos: foi uma das edições em que menos se viu a imagem ruidosa de câmaras portáteis agachadas nas coxias da plateia e braços de grua a varrer o auditório; e a ousadia de literalmente “virar as costas” aos apresentadores, optando pela exploração do espaço cénico, deixando apresentadores em off durante mais de 40 segundos – aconteceu nas categorias de art direction e custume design (foto 10). A envolvente cenográfica justificava-o, mas os actores vivem da exposição da sua imagem, e sabemos como deve ter sido difícil negociar com Daniel Craig e Sarah Jessica Parker retirar-lhes 80% do tempo de palco.
Goodman realizou todo o espectáculo menos o segmento in memorian, que foi dirigido por Allen Haines, um pensilvânico de 49 anos. O in memorian integrava de forma muito elegante as componentes cenográfica, gráfica, de movimento de câmara e corte de imagem. Um segmento realizado com rigor milimétrico que, acredito, possa ter levado semanas a preparar. O que nos leva a pensar que Allen Haines estará na calha para realizar os oscars numa das próximas edições.
Curiosamente, produtores, cenógrafo e realizador são nova-iorquinos, ainda que residentes na Califórnia (Hollywood transplantes, como lhes chamam) o que deixa um sabor a Broadway associado ao sucesso deste ano, na cerimónia dos oscars.
Danny Boyle, oscar da melhor realização, disse no palco: “Obrigado. Que magnífico show vocês fizeram! Não sei como terá saído na tv, mas aqui na sala foi maravilhoso, perfeito!”
As receitas anuais da Academia, superiores a 70 milhões de dólares, estão dependentes do sucesso e das audiências deste espectáculo, e a posição negocial da Academia na renovação de contratos que se aproxima, com a ABC e a Walt Disney Co, poderia sair fragilizada. Mas por enquanto The Show Must... and Goes On.
João Salvado, realizador
Publicado na revista PREMIERE de Abril 2009

ETC, etc.


Em Março de 2007, em Los Angeles, numa animada conferência internacional sobre “O Futuro da Televisão”, Bruce Rosenblum, Presidente da Warner Bros Television Group, surpreendeu o auditório apresentando este novo conceito – o ETC.
“Quando me pediram para vir aqui falar sobre a televisão e o futuro, eu pensei: - Bem, é fácil. Tudo o que se passa resume-se em três pontos - as televisões generalistas, clássicas, confrontam-se com o decréscimo das audiências face ao desgaste da sua oferta de conteúdos; por outro lado, algumas estações privadas, mais ousadas, encontram rentabilidade na descoberta de novos conceitos comerciais, multi-plataforma, interpretando devidamente a revolução tecnológica e a mutação dos hábitos dos consumidores; por outro lado, ainda, os custos de produção continuam a aumentar (menos os dos conteúdos de má qualidade e garantido insucesso), mas a tecnologia faz surgir novas formas de receita que poderão mitigar os custos crescentes. Face a este cenário tripartido, eu vinha preparado para fazer aqui o discurso mais curto da história. Foi quando me apercebi que havia um erro conceptual, generalizado, na organização desta conferência: utilizavam insistentemente a palavra “televisão” quando na verdade queriam dizer “conteúdos transmitidos electronicamente” (electronically transmitted content) – ETC.”
As palavras de Rosenblum, há dois anos, soam actuais, providenciais, neste Março de 2009 em Portugal. Vivemos um momento de viragem, de provável ruptura, uma encruzilhada no audiovisual português. A televisão convencional, clássica (dita generalista, em Portugal) confronta-se com novos desafios. O modelo de programação explorado durante décadas, esticado ao limite pelas televisões, não acompanha o sinal dos tempos. Apeia-se do comboio da modernidade e da tecnologia. Afasta-se. Perde faixas significativas de publico e acusa um inversível desgaste.
“Content is what rises value” (os conteúdos são o que valoriza) dizia o presidente da Warner Bros Television, pondo a tónica na necessidade permanente de encontrar novas soluções, imaginativas, para os conteúdos, leia-se, para a programação, para as grelhas, em televisão multi-plataforma. Casar novas ofertas de programas, ajustadas à segmentação do mercado, multiplicando o modelo de negócio, pode ser a chave do sucesso.
Bruce Rosenblum, na mesma apresentação, disse ainda: “ O potencial do Etc vai muito além do que o nossos olhos podem alcançar. Aquela coisa a que nós, em tempos, chamámos “televisão”, que durante décadas se encontrou paralizada e sujeita ao domínio de três grandes networks, é agora um universo de mudança permanente e imparável. Podemos aceder-lhe interactivamente a partir de computadores, de telefones, de iPods, e porque não, até mesmo através dos aparelhos de televisão”. Rosenblum apontava os operadores clássicos de TV de falta de destreza e de imaginação, de menor habilidade na interpretação das mutações de hábitos dos públicos e, como tal, de menor sucesso comunicacional e comercial.
Para rematar o discurso quase premonitório face à realidade portuguesa, Rosenblum concluia a sua alocução, dizendo: “Quando eu oiço a frase “as três grandes televisões”, penso imediatamente na NBC, na ABC e na CBS; quando o meu filho de 16 anos pensa nas “três grandes televisões”, está a referir-se à ESPN, à Comedy Central e à FOX - os tempos mudaram”.
Março de 2007, Los Angeles. Future of Television Convention. O autor desta coluna que se sentava modestamente entre a assistência, pensou: - um dia, em Portugal, tudo isto será verdade. Será que estaremos preparados? Etc., etc.
João Salvado, realizador
Publicado na revista PREMIERE de Março 2009

A Televisão do Futuro


Vem aí a televisão digital terrestre e, com ela, o quinto canal de televisão generalista em Portugal. O que irá mudar com o aparecimento de uma nova televisão? Iremos beneficiar em qualidade e alternativas, ou será que cinco vai ser igual a quatro mais um?
A cinco – por enquanto vamos chamar-lhe assim – será o primeiro canal generalista do Séc. XXI. E não adianta desvalorizar-lhe o significado. O quinto canal irá nascer 15 a 20 anos depois do seu irmão mais próximo, a TVI. Mas a revolução nas comunicações e as mudanças sociais das últimas décadas, representam, entre eles, um salto maior do que as quatro décadas que antecederam. Significa que o quinto canal nascerá “geracionalmente” mais afastado dos irmãos próximos, TVI e SIC, do que estes da primogénita RTP. Os 35 anos que separam o nascimento da RTP, da televisão privada, parecem, à distância, um instante de calmia – o que determina que, neste caso, 15 ou 20, seja maior do que 35. Fasquia alta para a nova televisão.
Por isso assiste perguntar, como vai ser o quinto canal? O que o irá distinguir dos restantes?
Se o espectro radioeléctrico favorece o aparecimento de uma nova televisão, a conjuntura dos media e do país, dir-se-ia, vem desaconselhá-la – nascido, assim se prevê, em época de avidez e penúria, incumbe-lhe uma tarefa difícil: ser competitivo, partindo na corrida mais tarde e desfavorecido pelas circunstâncias. Mas, por outro lado, aponta-se-lhe tarefa facilitada: irá beneficiar da debilidade e da letargia da concorrência já instalada - anquilosada pelo desuso da agilidade criativa; fragilizada funcionalmente pela ausência de competências profissionais, que descartou; viciada pela lógica, redundante, da programação e contra-programação dos mesmos produtos.
Ao quinto canal, para ser sucedido, só se lhe admite uma via – a posição titânica: para sobreviver terá que vencer. E em televisão vencer é inovar, criar, ser imaginativo, compreender o caminho dos públicos (do que precisam, não do que pedem), interpretar a sociedade, a tecnologia, as comunicações, e surpreender.
O canal cinco não será a terceira versão do modelo estafado TVI/SIC. Não o pode ser em termos funcionais ou empresariais, nem o pode ser em termos de programação e oferta de conteúdos.
Quem ousar lançar-se na aventura do novo canal também não deverá cometer o erro de replicar um modelo estrangeiro, seja francês, italiano, ou alemão. Não há no espectro soluções de importação, à vista, que se ajustem ao nosso mercado.
Pode dizer-se que o canal cinco só será viável se for diferente, se assumir e liderar a mudança. Se começar à frente, mudar primeiro e mexer em tudo. Em suma, criar um novo paradigma.
Espreitemos um pouco para trás, para compreender o futuro: num passado recente, crescemos com o romantismo da televisão única, a pública. Depois inventámos a “televisão privada” – em boa verdade foi a “privada” que nos trouxe a cor, o movimento, a acção, o mundo e a vida contados em directo e pela voz dos protagonistas. Mas o mundo não pára, e foi também a “privada” que nos conduziu à letargia da trash tv, ao “direito” do espectador à sedação electrónica. Nivelando sempre por baixo, a televisão “privada” confinou-se finalmente à essência da lógica “comercial” – e com ela arrastou a progenitora, a televisão pública. Em poucos anos, do reivindicado direito à informação e à cultura, o espectador viu ser-lhe atribuido o direito à alienação e à narcose.
Entretanto, fora das televisões, completa-se o figurino: os jornais gratuitos quase fuzilaram os jornais de referência, para a seguir desfalecerem por exaustão, a favor do desprazer da leitura. A literatura muda de autores. O livro resiste, com dificuldade. A escrita está em desuso, alguns propõem o audio-livro. Os números são fulminantes: 80% do texto escrito, no mundo ocidental, já não é impresso no papel, na carta, no livro ou revista; lê-se no word, no mail, na legenda, no sms, no chat, no messenger... com a consequente altercação “kmpleta d skrita”. O mundo continua a mudar... Para pior e para melhor.
A televisão generalista perde auditório. Foge-lhe. Escorrega para a net, para o google, os chats, o messenger, o webcasting, o YouTube, os outros Tube’s, os blogs, o cabo, as séries da Fox, o video clube, o vod, o emule, os torrents, o Hi5, o orkut, o second life, o dvd, a playstation, o iPhone, a iptv, o ping pong viciante de sms e mms, etc, etc. Há quem teorize sobre “a rejeição do media”, ainda assim as televisões continuam teimosamente a programar para o mesmo universo absoluto - 100%.
A nova televisão, e o paradigma que dela advier, terá que contar com isso.
Muito público – talvez o mais jovem - desalinha de tal forma do “velho media” que poderão estar irremediavelmente perdidos. Os novos media oferecem novas semânticas, outras funcionalidades, interactividade e a capacidade de manuseamento dos conteúdos. Voltar à linguagem flat da televisão, para alguns, é uma ideia de “cota”!
As funcionalidades dos novos media permitem alterar a construção narrativa à vontade do utilizador: o trejeito de uma cantor pimba, pode não ter grande piada; o mesmo trejeito, repetido à exaustão, trocado por mail entre amigos, circulando viral na rede, cria um efeito de comicidade contagiante e de cumplicidade tribal. Ganha valor comunicacional. Alterou-se a lógica narrativa, destruiu-se a hierarquia emissor/receptor. O media agora é de todos. A nova televisão terá também que compreender o que isso significa.
Um vídeo caseiro descarregado do YouTube, tem mais hits numa semana, do que o número de espectadores que assistem a um talk show, em prime time, num canal generalista. Os anunciantes já perceberam, e reagiram. Veja-se como estão a redireccionar o investimento publicitário (leia-se a este propósito A Cauda Longa, de Chris Anderson). É fundamental que o novo paradigma da televisão, saiba gerir conteúdos em multi-plataforma.
Finalmente, há um interessante aspecto a considerar, favorável à nova televisão. Haverá desta vez um regulamento a cumprir. Um caderno de encargos a observar. A nova televisão irá nascer no estrito cumprimento dessas regras - uma fina grelha de exigências e de rigorosos critérios de programação, aplicáveis universalmente a todos os parceiros. Novas regras que até aqui as televisões nunca tiveram necessidade de cumprir, e à luz das quais TVI e SIC, pelo menos, com as actuais grelhas de programação, teriam que fechar portas no dia seguinte.
Que venha então o futuro, e a nova televisão digital, nós cá estaremos para a receber.
João Salvado, realizador
Publicado na revista PREMIERE de Fevereiro 2009

Encontram-se e fazem as Pazes - I

Basta estar atento, ver cinema e boas séries, e reparar – actualmente, muitas produções de televisão e cinema equivalem-se em apuramento formal e qualidade técnica. Já lá vão os tempos em que o trabalho técnico, operacional e criativo da televisão era visto por alguma gente do cinema como um resultado pouco cuidado, talvez um trabalho menor.
“Televisão é fluxo” – terão ditado alguns – “logo, um trabalho sem rigor no detalhe”. Mas os tempos vieram diminuir-lhes razões. Muitos factores contribuíram para a mudança. A sociedade mudou e ambas as indústrias acertaram a agulha, corrigindo o paradigma. Nesta coluna iremos analisar alguns aspectos que têm conduzido à aproximação e reconciliação do cinema e da televisão. Comecemos por um de natureza técnica.
Montagem: a lógica não linear.
Sabe como alguns dos grandes nomes do guionismo escrevem as suas obras? Primeiro inventam-lhe um final forte; a seguir, um início inesperado e arrebatador; e só depois constroem o miolo interior, o corpo, aquilo a que chamaremos “a história”. Não garanto que o método tenha aplicação universal, mas certamente que muitos o utilizam porque na abstracção do nosso cérebro, a imaginação e a construção narrativa não carecem de linearidade lógica ou temporal.
Escritores, compositores, pintores, podem começar uma obra a partir de um ponto de génese, um momento de conflito interno que serve de charneira, e daí, ora para trás ora para a frente, criar. E o mesmo acontece na obra cinematográfica.
A história do cinema está cheia de episódios em que, subitamente, o realizador irrompe na sala de montagem, tocado pela musa inspiradora, retraçando o trabalho de dias ou semanas. Cortando aqui, inserindo ali, repondo acolá, planos, às vezes sequências, que relançam com outro balanço, outro ritmo, a lógica narrativa da obra cinematográfica. É assim o génio criativo.
E na televisão? O que aconteceria se aplicássemos idêntica pulsão criativa na edição de vídeo de uma série televisiva? Haverá no vídeo equivalente libertador do método de montagem que anda para trás e para a frente ao gosto criativo do montador?
Na televisão do vídeo analógico – de onde acabámos de sair há pouco mais de uma década – o conceito de montagem era linear por imposição do suporte físico magnético e da fita que não admitia leitura na zona de corte. A montagem, sempre plano após plano, por justaposição de planos e sequências. Quer dizer que numa sequência, o plano 3 só poderia ser montado depois de “fechado” o plano 2, e necessariamente não poderia voltar a mexer-se-lhe (em duração) quando se montasse o plano 4. Um, dois, três, quatro! Por mais natural que o procedimento possa parecer, não o é. Experimente aplicá-lo em tudo na vida e verá as dificuldades. O realizador de televisão que, acometido de súbita inspiração, ousasse refazer sessões de montagem para repor um detalhe numa das sequências já terminadas, obrigava-se a recopiar parte da edição com a inerente perda de qualidade, ou arriscava-se a deitar fora boa parte do trabalho realizado, o que aterrorizaria qualquer produtor responsável.
Esta imposição de uma lógica linear no lapso abstracto da construção da obra, esta impossibilidade de experimentar – pondo e tirando como num rascunho ou numa construção lego – assustou muitos criativos, veio inibir a realização, reduzindo-lhe ousadia e vertigem criadora, empurrando muitos realizadores para o filme em detrimento do vídeo, evocando desinteresse criativo. A televisão, por inerência da lógica de montagem de vídeo, era agora um reduto fragilizado.
Com o advento das tecnologias digitais a televisão descartou-se (em parte) da fita e da k7 (leia-se cassete). Passa para memória e disco os conteúdos que viviam fisicamente bobinados, escreve software cuja arquitectura se assemelha à lógica do manuseamento do celulóide na moviola, e a edição liberta-se.
Com o apuramento da qualidade digital – capacidade, memória RAM, velocidade de processamento, alta-resolução, HD, efeitos digitais, etc., o realizador/montador de televisão, liberta-se do estigma cartesiano em que sempre tinha vivido e ganha um novo fôlego, no sentido criativo do termo.
Na sala de edição, na suite ali ao lado, o realizador de televisão encontra agora um vizinho amigo – um velho utilizador do não linear, mas novo, porque recém rendido às virtudes do digital – o realizador de cinema.
Para alguns a vingança está servida. Para outros bastaria que se tivesse dito: - cinema e televisão, seguimos caminho juntos!
João Salvado, realizador
Publicado na revista PREMIERE de Janeiro 2009

O Disco Versátil


Onde andará o VHS de três cabeças que lhe custou os olhos da cara já lá vão uns quinze anos? Provavelmente no lixo ou em algum sótão poeirento que aguarda coragem para uma arrumação de fundo. Leia o texto que se segue e verá que ainda vai subir ao sótão para revisitar o velho aparelho e o confortar com umas palmadinhas de saudosa amizade.
Se descontinuou o seu leitor/gravador de VHS foi porque descobriu, como o resto do mundo, as virtudes do DVD. Nada se pode comparar à qualidade do digital. As dobras na fita, o tracking, os drops, tudo desapareceu, que alívio. Que diferença na qualidade da imagem. Os menus, a opção de legendas em várias línguas, ou de as não ter, simplesmente. Os extras. Os ângulos de câmara. As diferentes versões de áudio. Até os comentários dos actores e do realizador sobrepostos ao filme. Não há comparação.
É claro que você copiou para DVD duas ou três cassetes absolutamente inapagáveis. E a partir daí esqueceu o velho formato analógico. Ganhou em qualidade e em espaço na estante.
Mas terá ganho em tudo? Terá ganho na usabilidade, na facilidade de manuseamento e de axcesso aos conteúdos? Pondo a questão de outra forma: será o formato DVD totalmente inovador em comparação com os velhos formatos analógicos? Talvez não haja unanimidade na resposta, vamos ver.
Já todos experimentámos introduzir um disco no leitor de DVD apenas com o objectivo de aceder a uma determinada cena, ou imagem, que está mais à frente no filme. Pois bem, a codificação dos menus obriga-nos a visionar, sem possibilidades de saltar ou passar à frente, os menus de interesse directo dos produtores, como animações e logotipos de produção, informações autorais e anti-cópia, e até trailers de outros filmes, em alguns casos. Só quando chegamos ao conteúdo do filme, ao corpo da obra, por vezes minutos depois do arranque do DVD, podemos aceder às funcionalidades que o “velho analógico” sempre nos permitiu em toda a extensão da fita, o clássico fast forward. Não constituirá isso uma limitação imposta ao consumidor?
É claro que o velho VHS também era limitado nas funcionalidades de bobinagem, procurar uma imagem no final do filme poderia levar alguns minutos se a cassete não estivesse devidamente "apontada". Mas isso era uma limitação física. Nada poderia evitar o tempo de bobinagem mecânica. Pelo contrário, no DVD o acesso do feixe laser a qualquer zona do disco é quase instantâneo. Desapareceram as limitações físicas, mas introduziram-se outras, lógicas, de software, de interesse industrial e autoral, não necessariamente vantajosas para o consumidor e proprietário do suporte.
Repare-se nas animações (algumas de gosto duvidoso) das diferentes produtoras, distribuidoras, importadoras. Quantas vezes já experimentou acelerar o DVD nesta zona e não conseguiu? Quantas vezes, quanto tempo já perdeu a ver aquele agressivo clip anti-pirataria que o avisa "você não faria isto, não roubaria aquilo..."? Quantos DVD's lhe impuseram o repositório de quadros de aviso de direitos de autor para a Grécia, Austrála, Hu8ngria ou República Checa? Isto é-lhe imposto a si que está a ver um DVD original sobre o qual pagou e respeitou os direitos autorais.
Permita-me uma analogia: imagine que antes de deitar os corn flakes na tigela do leite, você seria obrigado a ler todas as informações de fabrico do produto e logotipos da embalagem - e isto, claro, todas as manhãs. Será a comparação excessiva?
Estudiosos de mass media, sobretudo em algumas universidades americanas, têm-se debruçado sobre o assunto e as suas investigações têm permitido conclusões curiosas. Donald A. Norman, por exemplo, um professor da universidade de San Diego, na Califórnia, um teórico e investigador em Psicologia Cognitiva e HCI (human-computer interaction), é crítico e não-alinhado quato à entrega incondicional às virtudes do formato DVD. Aconselha-se a consulta da sua obra.
Em suma, pode-se defender que o DVD transporta, em alguns aspectos, se não a "ditadura" (talvez o termo fosse excessivo), pelo menos a imposição dos interesses da indústria sobre o consumidor.
Quando o mundo, a tecnologia e as funcionalidades avançam no sentido da amigabilidade, da usabilidade, não será contraditório introduzir limitações num media que mereceu como apelido de baptismo o nome "versátil"? Lembremo-nos que DVD significa Digital Versatile Disc.
João Salvado, realizador
Publicado na revista PREMIERE de Dezembro 2008

Os Formatos de Imagem


O leitor é assumidamente um cinéfilo exigente. Escolhe ver bons filmes nas salas com condições mais apropriadas. Em casa vê TV e DVD’s atribuindo relevância ao formato de exibição. Prefere versões originais a dobragens, e versões integrais sem cortes nem intervalos. Haverá melhor fruição de uma obra do que vê-la nas condições exactas em que foi concebida pelos seus autores?
Repare então no cenário alternativo, e veja se lhe é familiar?
Entra-se no café, no restaurante, ou mesmo na casa de um amigo que ostenta um moderno televisor de plasma, de formato panorâmico, e qual é a primeira “modernidade” que nos salta à vista? A imagem esticada, deformada, recortada, ou “adaptada” ao formato do televisor num “aproveitamento” total da área útil do aparelho. O programa de TV é emitido no tradicional formato de 4:3, mas a aparente fobia a faixas de negro, resolve o assunto de outra forma.
Há várias técnicas de maltratar a imagem. Veja aqui algumas e valide-as num local próximo de si:
Técnica 1 – estica-se a imagem para os lados como se fosse tela elástica. O formato 4:3 passa para 16:9. Um simples click no comando do televisor e cada cara, cada busto ou tronco engorda automaticamente 33,33%. As bolas de futebol passam a melões de râguebi; uma atraente actriz de novela ganha com o gesto uns razoáveis 18 quilos virtuais. Tudo isto sacrificado, claro, ao desaparecimento das “desagradáveis” laterais negras no televisor (fig. 1).
Técnica 2 – amplia-se a imagem 4:3 até esta preencher, na lateral, a totalidade do écran. Naturalmente desaparece, porque deixamos de a ver, a parte da imagem ampliada acima e abaixo. Perdem-se cabeças, árvores, pernas, legendas. Mas atenção, esta técnica oferece uma variante admirável: dado que parte da informação gráfica se situa na zona inferior da imagem – legendas, rodapés, etc. – cuja leitura interessa preservar, faz-se, depois do zoom, um reajuste para cima de toda a imagem, cortando mais acima e menos abaixo. Salvam-se as legendas e as informações em rodapé, sacrificando cabeças, testas e nucas de indefesos apresentadores, literalmente decapitados acima do temporal (fig. 2).
Técnica 3 – é a variante “inteligente” da deformação. Inteligente porque é assim que a maioria dos menus de televisor a apelidam. É uma combinação de pequenas deformações: estica-se um pouco para os lados; amplia-se, “zoomando” um pouquito mais; sobe-se, o suficiente para integrar as legendas, e já está. As várias manipulações conjugadas conseguem fazer chegar a imagem 4:3 às paredes laterais do televisor. Prova superada! (fig. 3)
Mas o que estará por detrás desta fobia do gosto que nos faz sacrificar o enquadramento dos conteúdos à conveniencia de espaço disponivel no televisor? É uma tendência kitch que faz lembrar os tempos em que se escolhiam enciclopédias azuis, para condizer com os cortinados.
Vivemos tempos de mudança. Chega-nos de tudo a casa. As combinações de proporção complicam-se à medida que aprofundamos o assunto: 1.85:1, 2.39:1, etc., e não faria sentido analisá-las no contexto deste artigo. A televisão está em mudança, entre o 4:3 e o 16:9; o cinema também (fig. 4). Mas ainda assim ninguém recorta a fotografia da avózinha pelo meio da cabeça, para caber na nova moldura da sala.
No cinema, na televisão, um enquadramento é milimetricamente cuidado. O operador de câmara ou o director de fotografia ajustam meticulosamente cada plano. O realizador, responsável formal da obra, define, confirma, corrige, ajusta, acerta – desde o storyboard, ao viewfinder nas filmagens, na régie ou na pós-produção – de forma a que composição, o enquadramento, seja rigorosamente o pretendido, em função do ambiente visual, do equilibrio plástico e estético. Diz-se que um enquadramento requer mais (ou menos) “ar acima”, na terminologia portuguesa; ou “headroom” na anglo-saxónica – são os termos que realizador e operador de câmara utilizam para ajustar a composição.
O leitor é assumidamente um cinéfilo de bom gosto. Em sua casa, no televisor, cohabitam pacificamente filmes e programas em 4:3, 16:9, etc. Respeita-se o formato da obra e não o do aparelho. Queira fazer o favor de passar esta mensagem no café, no restaurante, ou até àquele amigo mais descuidado e vaidoso que comprou agora um novo plasma.
Saibamos respeitar e viver com a diversidade e profusão formatos até ao dia em que nos encontremos todos num eventual HD panorâmico.
João Salvado, realizador
Publicado na revista PREMIERE de Novembro 2008

segunda-feira, abril 06, 2009

Francisco e o power point


Francisco Pinto Balsemão apresentou no dia 12 de Março (há 3 semanas) os Resultados Anuais do Grupo Impresa. São 39 slides que merecem alguma atenção.
Para fora, para consumo público, Balsemão tem produzido um discurso alarmista, quase catastrofista quanto à crise e aos negócios, que visa protegê-lo e vitimizá-lo face às dificuldades da concorrência e do mercado. Mas para consumo interno, para accionistas, parceiros estratégicos e para team building dos quadros do grupo, montou no aconchego de um hotel um cenário diametralmente oposto: optimista e de sedução, fundamentado nos dados reais do exercício financeiro das suas empresas.
Vejamos os números e o power point de Balsemão.
Segundo a Impresa a queda anual do mercado publicitário, em televisão, foi de 2,4%. A crise nas televisões de que Balsemão tanto fala traduz-se, na SIC, em 2,4% de diminuição das receitas publicitárias. De fazer inveja a qualquer fábrica ou unidade industrial deste país – atravessar os anos de crise de forma tão indelével, com 2,4% de diminuição de receitas, é um luxo.
Mas para baralhar o cenário aparecem outros números interessantes: as receitas da Impresa em publicidade na internet (sites do grupo) aumentaram 52%, e as receitas em publicidade no cabo aumentaram 10,2%.
As “receitas de televisão” baixaram 7,4% em relação ao ano anterior (de 185.182 M€ para 171.549 M€) mas as “receitas digital” aumentaram de 4.160 M€ para 6.652 M€, (seis virgula sete milhões de euros) isto é, 60% de crescimento.
A slides nºs 33 e 34 do power point Balsemão lamenta-se: “Janeiro de 2009 foi muito fraco (...) o mercado publicitário caiu 32,2% em Janeiro”. Janeiro é sempre fraco, omite Balsemão. O mercado publicitário desinveste depois do Ano Novo, descendo todos os anos em Janeiro, 25% a 30%, mesmo sem sinais de crise.
Há um slide que Balsemão não quis introduzir no power point: porque baixaram as receitas de publicidade?
Na SIC, em boa medida, a razão está encontrada: porque também baixaram as audiências.
E porque baixaram as audiências?
Balsemão é evasivo, mas sempre vai dizendo: “pela transmissão, nas outras estações generalistas, dos principais eventos do ano – Europeu de Futebol e Jogos Olímpicos de Pequim”.
Por lapso não referiu que o desinvestimento na grelha de programas se traduz na mais fraca programação de todos os canais generalistas, na mais pobre programação de toda a história da SIC e na mais barata grelha de conteúdos de televisão generalista, de toda a peninsula Ibérica – um prime time quase exclusivamente preenchido por programas low cost de apanhados e home videos do tipo “a noiva cai à piscina”, mais novelas.
"Omoletas sem ovos", como se comenta nos corredores da estação.
Ajuda à festa uma equipa desnorteada, sem estratégia de programação, sem força anímica, a reagir mimeticamente a “tudo o que mexe” nos canais da concorrência.
Feitas as contas a queda das receitas publitárias na SIC em 2008, face à conjuntura e às audiências, foi generosa para a Impresa.
Aparentemente Balsemão queria o impossível: boas audiências, prescindindo de investimentos em conteúdos; receitas, sem despesas em programação.
A estratégia de Balsemão pode bem ter sido essa: desinvestir na antena, emagrecendo a grelha, admitindo a derrapagem das audiências até um limite (controlado), para reter capitais que serão canalizados para investimentos e proveitos.
Terá sido isso que fez – acautelou a carteira e o futuro.
Vejamos os negócios de Balsemão no ano 2008:
- adquiriu 40% da SIC Notícias (Lisboa TV), de que já possuia 50%;
- comprou “direitos para os conteúdos estratégicos” dos próximos anos. Leia-se: comprou futebol: a Taça Europa, ex-taça UEFA (por valores não revelados);
- renovou o contrato com a TV Globo para mais quatro anos de exclusividade de novelas brasileiras em Portugal (valores igualmente não revelados);
- renovou os contratos dos canais SIC no cabo, até 2013. No cabo e no satélite o ano correu bem à Impresa. Em dois ou três parágrafos Francisco Balsemão resume no power point o sucesso das suas televisões:“As receitas de subscrição geradas pelos canais da SIC distribuídos por outras plataformas, como o cabo e satélite, em Portugal e no estrangeiro, obtiveram um forte crescimento. Em 2008, as receitas de subscrição cresceram 15,8%, atingindo 38,1 M€. No 4º trimestre, o aumento foi de 22,7%. Esta subida deveu-se à manutenção do crescimento da área internacional e, ainda, ao novo dinamismo registado no mercado de pay-tv português, com o aumento da concorrência entre plataformas. As receitas de subscrição representam 22,2% da facturação consolidada da SIC.
A área internacional continuou a registar um bom ritmo de crescimento. Em 2008, as receitas aumentaram 23%, impulsionadas pela subida dos subscritores da SIC Internacional e da SIC Notícias no continente africano, que superaram os 214.000 clientes no final do ano, um ganho de 53% em relação aos 140.000 contabilizados no final de 2007.
No final de 2008, a SIC Internacional passou a ser distribuída no Brasil, via satélite pela operadora de telecomunicações Embratel, através da qual se pretende atingir 20 milhões de lares naquele país. A nova parceria visa reforçar a presença do canal no mercado de televisão brasileiro, onde actualmente já tem 3,5 milhões de telespectadores através da operadora Sky e da rede de cabo NET.”

Quem o escreve é o mesmo Balsemão que publicamente tem clamado contra as dificuldades da crise, contra a concorrência, contra a falta de proteccionismo do Estado e, ultimamente, contra um emergente quinto canal, dramaticamente “disruptivo”, que ameaça disputar-lhe os magros proveitos que a indústria gera.
2008 foi, igualmente, um ano bom para os negócios de Balsemão nas outras plataformas. Vejamos:
- adquiriu 50% da Edimpresa por 23 M€ e 50% da Office Share;
- criou a Impresa Publishing que se tornou numa das maiores editoras portuguesas;
- criou a Impresa Serviços que “irá suportar as áreas operacionais do Grupo e gerará poupanças estimadas em 1 M€ em 2009”;
- criou a Acting Out (60% de capital Impresa e 40% Elsinor) que marca a entrada do Grupo na área da produção de eventos;
- criou a Impresa.Com e a Impresa Direct;
- aumentou a participação no capital do AEIOU de 50% para 65%;
- criou a Impresa Media Solutions para desenvolver a venda de publicidade multimeios;
- adquiriu 51% da empresa 7 graus detentora do site Olhares.pt, o maior site nacional dedicado à fotografia;
- anuncia estar pronto para lançar ou relançar novos jornais e revistas (a Autosport, por exemplo);
- está a lançar o Carfilia e outros projectos na área dos classificados;
- vai lançar novos sites especializados e temáticos. Os actuais sites do Grupo (SIC Online, Escape by Expresso, Caras, Olhares, etc) ultrapassam já os 100 milhões de pageviews mensais;
- alienou ou encerrou actividades deficitárias como a New Media, a I-Play, Ad-Tech, SIC Indoor, a Turbo e outras revistas. E vendeu à SP Filmes, já em Março de 2009 a TDN – Terra do Nunca (a produtora de Teresa Guilherme) por 1,7 milhões de euros com uma cláusula contratual que lhe concede a “produção de obras audiovisuais de ficção nacional durante 3 anos”.
Para introduzir emoção na parte final do power point, Francisco Balsemão explica o “plano de contingência: quero anunciar-vos que a Comissão Executiva da Impresa decidiu, e acompanhada pelos restantes membros do Conselho de Administração, com efeitos a partir de Abril de 2009, e pelo prazo de um ano, de reduzir os vencimentos de todos os seus elementos em 10%. O objectivo do Plano de Contingência é o de conseguir poupanças adicionais de 12 milhões de euros”.
Com este deslize de transparência Balsemão deixa perceber que a Comissão Executiva e o Conselho de Administração recebem, em vencimentos, 8,6 milhões de euros mensais – basta fazer as contas!
Poupo-me ao esforço de consultar o organigrama da Administração para descobrir por quantos administradores são divididos os quase nove milhões de euros mensais em salários.
É a crise vivida do lado da Impresa.
Por fim Balsemão anuncia, com orgulho, que em 2008 “rescindiu contratos com 179 funcionários em clima de total paz social”.
Bravo, Francisco Balsemão. Essa é a verdadeira têmpera de um empresário, dir-se-ia.
Nada disso. Balsemão é jornalista!
É verdade... Para fazer corar de vergonha a Comissão da Carteira Profissional, a quem assiste o direito (e o dever) de cassação do título, Francisco Pinto Balsemão é o jornalista, com a carteira profissional actualizada, nº 62/1.
O que escreve o jornalista Balsemão?
Escreve cheques, power points e Relatórios de Contas para humilhação dos que, querendo fazer jornalismo sério, são empurrados para redacções povoadas de estágios não remunerados, são forçados a sedimentar no desemprego ou, na “melhor” hipótese, se vendem em jornais e televisões onde se pratica um jornalismo pouco profissional e cada vez mais vergado aos interesses económico/editoriais dos grupos detentores – o que no final do power point de Francisco Balsemão se traduz na seguinte frase: “temos, repito, de conseguir alcançar o nosso objectivo principal que é o de continuarmos a ser um Grupo verdadeiramente independente e imune a pressões políticas ou económicas. A IMPRESA é um projecto editorial”.
Balsemão (a Impresa) detém a maior e mais completa “máquina” de produção de informação e opinião do país. Um império editorial que contém ferramentas capazes de condicionar a opinião e mesmo de gerar “produção ideológica”.
Alguém dizia há uns anos, falando de um outro magnata da comunicação social, um congénere estrangeiro de Balsemão: “M... é um vendedor. Vende-nos de tudo: jornais, televisão, opinião, doutrina... E quer sempre que o país consuma o que ele tem para vender na altura. Continuamos entregues a comerciantes.”
(Os números e os dados citados neste texto foram retirados da informação oficial do Grupo Impresa – Apresentação do Relatório de Contas 2008.)