sexta-feira, agosto 31, 2012

Concessionar a consciência

Petar Meseldžija - Giants and the Bullfight

Numa altura em que a RTP tanto precisa do carinho público, e o público tanto precisa de uma RTP distinta, logo aparece a costela marialva da televisão e espeta um ferro curto nessa relação de confiança.

quarta-feira, agosto 29, 2012

Bilhete de ida



Preservo as raízes, mas perdi as razões, Excelências.
Obrigado Senhor Presidente e meus Senhores, pela carta de embarque.
Aceito viajar com bilhete de ida, para qualquer destino, desde que me deixem levar caneta e um prontuário ortográfico.
A ser possível levaria também o dicionário de Sinónimos, sempre me poderia corresponder com Vossas Excelências.

domingo, agosto 26, 2012

A parabólica


Serafim já tinha trabalhado na manutenção, já tinha experimentado ser motorista e assistente de reportagem, mas pediu para voltar ao emissor. Em Monsanto o trabalho era bem mais calmo. Longe do frenesim dos estúdios é que se sentia bem.
É certo que as ajudas de custo e as refeições – às vezes em restaurantes onde Serafim nunca teria entrado se as despesas não estivessem cobertas – eram um complemento importante. Mas nada se comparava àquele sossego de Monsanto. E havia a leira do feijão, cebola e nabiças, que lhe deixavam cultivar na parte baldia do centro emissor. Isso dava-lhe muito prazer e rendimento.        

Comentava-se no Lumiar, por inveja ou maldade, que o trabalho no emissor era mais ou menos como ser segurança ou andar na emergência médica – se está tudo bem, não há nada para fazer.
Serafim, que gostava de ser respeitado, sabia que era injusto pensar assim.
Primeiro, porque atribuía a devida importância à sua categoria profissional, que gostava de evidenciar:
- “Técnico de Operações e Instalação, escalão B, o que equivale ao nível 9 na grelha salarial do Acordo Colectivo de Trabalho, com o segundo escalão da progressão horizontal, por mais de 5 anos de antiguidade na função” – Um estatuto profissional nada despiciente, a não ser na contrapartida monetária.
Depois, porque tinha consciência que as funções que desempenhava eram de importância vital para a empresa – de muito mais responsabilidade do que muitos lhe atribuíam, principalmente o seu chefe, o engenheiro.

Serafim tinha à guarda dois emissores e o feixe de reserva, que dava ligação a Montejunto e seguia para Espanha, por onde passava o sinal da eurovisão e a troca de noticias – as EVN. Um circuito de muita responsabilidade porque era utilizado pelo telejornal. Se alguma coisa ali falhasse havia de ser o pandemónio.
Todas as manhãs Serafim fazia medições nos circuitos, invertia feixes para testar o sinal, enviava o “dente de serra” no circuito de vídeo, e os “mil ciclos” na linha de áudio. Testava o “quatro fios”, o circuito telefónico de coordenação, para garantir que estava inteiro... e quantas vezes não estava, por culpa, claro, da companhia dos telefones.
Tarefas de enorme especialização a que ninguém parecia atribuir valor. O trabalho nos feixes estava em depreciação porque vinha aí a transmissão por satélite.

A empresa tinha recentemente admitido uns engenheiritos novos. Vinham por causa da televisão a cores. Novas comunicações, mais electrónica, mais circuitos e ligações internacionais. A rapaziada já por lá andava. Traziam o curso de engenharia electrónica. Pouco ou nada pareciam saber de televisão. Andavam ainda às apalpadelas, mas já ganhavam o dobro de Serafim.
A eles tinham sido confiados os novos equipamentos, nomeadamente a recepção de satélite, que ameaçava tornar alguns feixes obsoletos.
No centro de tanta ostentação estava a parabólica, que já era a coqueluche do emissor.

- Capta 3 satélites com uma potencia de recepção de 6 Giga Hertz - gabava-se o director do centro, num discurso que Serafim já conhecia de cor. O engenheiro debitava-o, inalterado, cada vez que conduzia as visitas na curta excursão em redor da poderosa sapata de betão, dois metros de altura, que suportava a parabólica.
- É o futuro das telecomunicações. O prato de 5 metros veio de Inglaterra, por barco... – e Serafim antecipava o resto, mimético, num sussurro irónico  - “...absorve um campo electromagnético admirável, graças à directividade do foco e à impedância de entrada. Os testes de propagação que temos feito indicam-nos que o padrão de irradiação e o coeficiente de ondas estacionárias é muito satisfatório, não ultrapassa os 30 metros.”.

Serafim mostrava pouca paciência para este tipo de conversa triunfante. Não tinha medo da modernidade, nem da tecnologia, nem dos satélites. Muito menos poderia ter inveja de uma parabólica.
– Que venham as parabólicas e os satélites... É para o lado que eu durmo melhor. Só gostava que respeitassem o meu trabalho. – Gostava de desabafar.

Assim se iam passando os dias no centro emissor de Monsanto.
Não se pode dizer que Serafim andasse radiante com a forma como o emprego o tratava.
Também não andava muito rijo de saúde.
No decurso do último ano queixava-se de enjoos frequentes, de náuseas e até de tonturas e enxaquecas.
Tinha receio que pudesse ser uma úlcera, ou fígado.
- Oxalá não seja coisa pior! Sabe-se lá?!
Ao jantar quase não tinha apetite e a cabeça andava-lhe esgazeada. Fez análises para ver se era anemia, mas o sangue estava bom, disse o médico.
Serafim nunca teve muita fé naquele médico, mas era o que a televisão lhe dava.

O doutor Gomes Pereira era funcionário da empresa havia muitos anos. Não como médico, mas como locutor. Tinha sido apresentador do telejornal e de outros programas. Um dia cansou-se de ler para a câmara e decidiu ir estudar medicina. Era muito popular dentro e fora da televisão, e tinha um voz poderosa. Poderosa era também a ligação da família ao regime, dizia-se à boca pequena, por isso se lhe abriram todas as portas.
- Não é que não tenha estudado e feito o curso a sério... mas, é claro, deram-lhe facilidades.
Gomes Pereira era visto pelos seus colegas como um excelente médico, um clínico competente. Mas dificilmente sacudiria o estigma e o preconceito que carregava: a imagem pública de um apresentador de televisão.
As pessoas estabelecem preconceitos e resistem à mudança. Gomes Pereira foi vítima disso.
Para além do preconceito, Gomes Pereira carregava ainda um outro problema. Uma deformidade física. Sofria de espondilite anquilosante que lhe evidenciava uma curvatura cifótica dorsal acentuada e também de uma outra patologia morfogénica, nos membros inferiores, que lhe dava alterações motoras.

Sentado em frente à câmara, sem se mexer, como se usava na altura, dava um bom apresentador, não se notava a gibosidade e muito menos a assimetria das pernas. Mas quem o visse passar no corredor dos serviços clínicos, corcunda e de caminhar espástico, facilmente confundiria o médico com o paciente, não fora a figura conhecida.
Serafim pensou muitas vezes: - Marreco e coxo é luva que não assenta a um médico. Vamos lá ver se ele consegue dar conta do meu problema.

O Dr. Gomes Pereira andava, havia um ano, seriamente apostado em descobrir e curar a doença do Serafim. O que parecia não ser fácil.
Fez-lhe exames a tudo, até à cabeça. Receitou-lhe uns compridos que iriam tornar mais permeáveis as trocas da barreira hemato-encefálica, explicou. E forçou-o a uma dieta à base de leguminosas.
Serafim fez tudo e sentiu-se na mesma. E lá voltava desanimado à consulta.

Na penúltima vez, saiu com umas cápsulas de levedura que lhe iriam facilitar o trato intestinal e ampolas para o fluxo vascular. Alegava o médico que o equilíbrio hidro-electrolítico e o ácido-básico, se encontravam em níveis muito satisfatórios, como revelavam os exames laboratoriais.
Serafim não gostou do que ouviu, claro.
- Para quê tanto exame, quando o que ele me deveria ter receitado era simplesmente uma coisa que parasse de vez com os vómitos e as enxaquecas.
O Dr. Gomes Pereira terminava habitualmente as consultas partilhando as interrogações de Serafim. Concordando que nada configurava um quadro clínico de contornos conclusivos e coincidentes com a sintomatologia.
– Conversa que não leva a lado nenhum! Paleio de engenheiro, sem tirar nem pôr! – Murmurava Serafim à saída.
Estava tão farto deste médico como dos engenheiritos que aturava todos os dias no emissor.

Na última consulta, Serafim arriscava-se a sair do consultório com mais umas receitas de comprimidos para isto, uns exames para aquilo, mas principalmente com uma enorme interrogação:
- Por que raio não me meti logo num médico a sério, um particular? Perdia o amor ao dinheiro mas já estaria tudo resolvido!
E ali mesmo decidiu: – É a última vez que venho à consulta do marreco!
Foi nesse instante terminal, Serafim já de pé, prestes a sair do gabinete, receita na mão, que o médico o interpelou:
- Espere aí, homem. Não se vá embora que eu quero fazer-lhe mais umas perguntas.
Gomes Pereira revia na vertical a ficha clínica de Serafim como se tivesse subitamente encontrado um valor laboratorial que lhe induzisse uma nova pista terapêutica.
- Sente-se! Você disse que nas férias não teve dores de cabeça nem enjoos?
- Não, doutor. Na terra passei sempre bem.
- Nem no inverno, quando o tempo anda molhado? Ou no pino do verão, quando o calor aperta?
- Não doutor, isto é mais uma coisa de meia estação. Os enjoos aparecem-me mais na primavera e no outono.
- Entendo!... - Disse o médico, com um fácies inquiridor e pouco clínico. – E enquanto andou no turno da noite, sentiu-se melhor, não foi?
- Foi, doutor. Nessa altura eu andava bem.
O médico ajeitou-se na cadeira. – Diga-me uma coisa, homem. Você dorme a sesta no trabalho?
Serafim retorceu-se incomodado, mantendo a porta do consultório na alçada do olhar.
– Doutor, eu fui sempre um funcionário cumpridor!
- Homem, desembuche! Está a falar com um médico, não está a falar com o engenheiro!
- Ó senhor doutor, se o trabalho o permite eu passo pelas brasas a seguir ao almoço.
- E onde é que você dorme a sesta, Serafim?
- Na parabólica, doutor.
Gomes Pereira, determinado, impulsionou o rodado da cadeira para trás e após um rabisco conclusivo na ficha do Serafim, lançou-a num voo de rara agilidade que a fez tombar no armário arquivador.
- Está virada a sul, doutor. Protege-me do vento agreste que vem do forte do Alto Duque. E quando me enrosco lá em cima, quem passar por baixo não me vê. Mas o trabalho nunca ficou prejudicado por causa disso, senhor doutor.

João Salvado

Jactância cristã.


Ontem falhei o RIP ao Armstrong porque não estava cá.
Sim, ao Neil, não ao Louis! ...esse, ainda não havia murais para partilhar RIP, na altura.
Ontem foi pena, porque tudo o que toca a lua mexe com o meu, o nosso, imaginário.
E o homem tocou-lhe, literalmente.
O primeiro humano a chegar a três sítios: à Terra, à Lua e ao Céu. É obra!
RIP para ele, pois então.
Mas continuo desconsolado com esta coisa dos RIP digitais.

Não pretendo ofender o sentimento e a memória dos que nos deixam. E medo da morte, tenho-o, sim. Mais do que da minha, da dos que me são queridos e próximos... e sei do que falo.
Respeito, portanto.
Mas, ainda que possa soar desconcertante, acho que devo dizer o seguinte:

Primeiro, o RIP na comunicação da vida real não existe.
É uma invenção das funerárias, dos lapidadores de mármore, que depois passou para os jornais e para o resto da comunicação social. Agora, condensado, diria mesmo, liofilizado, na muralha digital, torna-se aflitivo.
Faz crescer uma ansiedade miudinha... todos sabemos que os RIP não param.
Enquanto andam lá longe, nos Grammy, nos Oscar, nos prémios Nobel, a coisa funciona.
O pior é quando se aproximam... e haverá um dia que nos virão bater à porta, ou à porta de alguém muito próximo e querido... Aí não haverá lugar para RIP nem murais... haverá dor verdadeira. Haverá perda.

Digamos que o RIP vale como evocação momentânea, pontual e social.
Mas fracota, acho eu.

O RIP serve para mostrar aos amigos que acompanhamos a actualidade.
Partilha-se uma cançoneta do homem, e fica o mural cheio de you tubes todos iguais.
Saca-se da estante o livro que o celebrizou, que fica uns dias em cima da mesa baixinha do cinzeiro, e está cumprido o equivalente gestual do RIP.

Mas há outra coisa.
O que me faz verdadeiramente confusão é que o RIP é uma coisa desajeitada do lado semântico. “Rest in peace” não é um conceito universal e abrangente para os que ainda cá ficam.
Suspeito poder tratar-se de uma jactância cristã, exportada para todo o planeta.
Para os ateus, por exemplo, não se aplica nenhuma das palavras do sintagma: - nem o “rest”, nem o “peace”, e muito menos o “in”. É certo que os ateus não contam, são poucos e esquisitos.
Mas vejamos, por exemplo, os muçulmanos, que são éne: “Rest?”, como assim? Poderá haver descanso no meio de tanto leite e mel? ...E as virgens a passar de um lado para o outro? (no offense meant, ok? Salaam!).
E depois, as outras religiões?
Já alguém perdeu tempo a pensar no valor da morte (ou da “vida” além dela) para um nuwaubianista, um devoto da Nação de Yahweh, um cientologista, ou até um fiel servidor do Templo da Psychic TV?
Qual é o argumento? São poucos, não têm assento no debate? – Isso é por cá, nas eleições.
Pensem no exemplo da Dra Chris Korda, de Boston, que fundou a Igreja da Eutanásia que preconiza aquilo que já se adivinha... e reza ao deitar um equivalente ao “Pai Nosso e Ave Maria” que se chama “Save the Planet, Kill Yourself”. A mim esta religião merece-me igualmente respeito, distanciando-me, claro está, da parte do canibalismo e da sodomia. Mas quando a Dra Chris Korda morrer, daqui a muitos anos, espera-se, porque ainda é nova e bem simpática, o que iremos nós escrever no mural dela? “RIP Korda”?
Por amor da santa!...
Bem, fico-me por aqui, porque essa do “por amor da santa” também é outra!...

sexta-feira, agosto 24, 2012

Don’t complain, never explain!


Vem aí bernarda!
O “affair RTP” que rebentou esta semana parece-me coisa séria!
Não tão só pelo que tenho lido, mas principalmente por aquilo que não vejo escrito.
Seja o que for que “affair RTP” possa significar, estou certo que vem aí bernarda e a coisa vai ficar agreste para quem trabalha honestamente em televisão!
Busco a pegada digital da gente bem posicionada na charneira deste problema. Andam todos por aqui, sabemos quem são.
Não me estou a referir exclusivamente a quadros da RTP. Refiro-me a tantos outros. Ao people ligado aos players, ao comentário, às tutelas, às reguladoras, às produtoras, aos parceiros, aos agentes, aos opinion makers...
A tanta gente que orbita neste universo nebuloso da “comunicação social” e nunca poupa tinta digital para matérias não contundentes. Mas agora...
Estão calados!
Claro, estão todos ao telefone.
Garantir o futuro da folha do vencimento por lobby telefónico, é complicado
Eles são o barómetro nesta câmara de pressão. Conhecem como ninguém a técnica “holding” – “aguenta os cavais”, em bom português – inventada na natureza pelo abutre e repetida periodicamente pela hipocrisia humana em todas as técnicas de confronto.
Dá sempre frutos - Don’t complain, never explain!
Há uma outra razão. O princípio da fidelidade canina diz mais ou menos o seguinte: “não se morde a mão que nos dá o pão”... o que neste caso torna o cenário muito mais transparente.
Há que aguardar. É Agosto, empata-se com umas músicas oldies e fixes do you tube, mais umas fotos da praia... Só depois, com o caminho aberto, quando a coisa assentar e os telefonemas tiverem surtido efeito, se metralha na direcção estrategicamente conveniente, seja qual for, fazendo passar a ideia de que só não via quem não queria ver... daahh!!
Reconquistando assim a credibilidade digital, malgré a realidade.
Fácil.

Joao Salvado
24 Agosto 2012

Super Putaria Nacional


A história que se segue é verdadeira.
Passou-se comigo nos anos 70.

Em casa dos meus pais, junto à janela da sala que dava para as traseiras, havia uma mesa de design inigualável, que incorporava a televisão.
O aparelho, um verdadeiro luxo, “com muito bom som e uma imagem muito clarinha” como elogiavam os vizinhos, vivia pousado numas pernas aflitivamente esguias, porque assim o determinava o gosto da época, e convivia com um naperon e uma peça de loiça decorativa na prateleira de baixo, nada mais.
Da sóbria carcaça do móvel televisor sobressaiam meia dúzia de botões – o On/Off, o Som, o Claro/Escuro, e uma botoeira em sequência, para comutação de canais (VHF e UHF), já preparada para um total de seis estações.
Não havia comandos nem controlo remoto. Talvez porque não tivessem ainda sido inventados, nem fariam sentido. O país satisfazia-se com dois canais de televisão – aliás, um e meio, porque o “segundo” só emitia a certas horas.
Mudar de canal era uma coisa enfadonha, que raramente havia necessidade de cumprir.

A televisão ouvia-se bem alto, porque não havia necessidade de comedimento sonoro. Quando se ligava o televisor, toda a família assistia e não havia outros barulhos para gerir.
Os sons emitidos em excesso, quer fossem propagados pela conduta das escadas do prédio, ou pela janela, para os quintais, só poderiam trazer benefícios – ter televisão em casa era motivo de ostentação. Tudo boas razões para se ouvir televisão bem alto.
Foi por estes dias, e neste cenário, que me aconteceu o inesperado.

Aproveitando o intervalo publicitário de um programa, levantei-me do assento de palhinha com almofadas de tricot – o cadeirão que era o meu território naquela sala – e, com a polpa do polegar, comutei de estação, impondo à família a mudança: do canal 1 para o canal 2.
Com o gesto, estalou uma voz assertiva vinda de dentro do televisor, que clamou, alto e bom som, a embaraçosa expressão: - SUPER PUTARIA NACIONAL!
Paralisei.
Paralisámos todos naquela sala, menos a avó Josefina, que já pouca coisa a perturbava. Por demência, acusava algum distanciamento aos desvios dos padrões da moral, sobretudo vindos da televisão.
 - SUPER PUTARIA NACIONAL! – Nunca tal tinha sido dito na televisão portuguesa.

A mãe, envergonhada, olhos afundados no trabalho de renda, como se disfarçasse um feminino sentimento de culpa, ela que nunca tocava nos botões da televisão, emudeceu.
O pai, de olhar inquiridor, vidrado na relação do meu polegar direito com a botoeira, como se me acusasse de ter subitamente inventado um botão subversivo no aparelho, ainda procurava a palavra adequada para me repreender.
Mas eu, de olhar desfocado dirigido ao terylene do reposteiro da janela, interiorizei o momento e reconstitui os factos, num dos mais admiráveis episódios de rewind da memória curta que até hoje protagonizei, e apresentei à família, em segundos, uma explicação perspicaz e substantiva para o dramático acontecimento:
- Quando mudei de canal, estavam ambos a passar publicidade. No canal 1 anunciava-se o “super pop”, enquanto no canal 2 se anunciava a “lotaria nacional”. Acontece que o instante da mudança determinou a estranha combinação de “super p/otaria nacional”. A semelhança das vozes e do tom das duas locuções, haveria de enfatizar a reconstrução dramática. Foi isso apenas, paizinho!
O brilhantismo da explicação colheu. Sossegou a família e o prédio. Em casa, ficou reestabelecida a autoridade patriarcal; e na rua, o assunto não chegou sequer ao conhecimento do pide Antunes, que moravam uns prédios mais acima, já próximo da basílica da Estrela.
No entanto, o affair “Super Putaria Nacional” havia de integrar o lastro da herança familiar e fazer parte do stress traumático que transportei da adolescência.

Desde esse tempo, há tantos anos, tenho presenciado outros momentos dramáticos transmitidos pela televisão, mas nenhum deles conseguiu impressionar-me como a “Super Putaria Nacional”.
Vi, em directo, as torres gémeas caírem em chamas, a 11 de Setembro.
Vi e ouvi o Cunhal dizer ironicamente “olhe que não, doutor. Olhe que não!”
Vi a Palmira Bastos bater com o bastão no estrado e gritar “porque as árvores morrem de pé!”.
Vi, apesar do sono, porque eram seis da manhã, o homem na lua... que, muitos diziam, não podia ser verdade.
Vi um senhor, na SIC, gritar em histeria: “- Ponha! Ponha! Ponha!”, quando lhe apontavam as unhas de um lagarto à careca.
Vi o Zip Zip quase todas as semanas. E vi a entrevista ao Almada Negreiros.
Vi e realizei o olhar fulminante do Soares quando o Basílio Horta o acusou de tráfico de diamantes.
Vi o Ferrão Katzenstein ser simultaneamente entrevistado e realizador, num programa experimental do Zé Nuno Martins.
Vi o invencível Lusitânia Expresso, com o Eanes à proa, voltar para trás, só porque o mandaram.
Vi imagens do massacre de Santa Cruz e, anos depois, vi o cordão humano com que Lisboa recebeu o Ximenes e o Xanana.
Vi o canal da Igreja passar a estação líder, por causa de um pontapé do Marco.
Vi o Carlos Cruz assegurar no Jornal da Noite, em tom solene e voz trémula, que “enquanto houver um português que suspeite...”
Vi a Gabriela Cravo e Canela.
Vi o Cavaco mastigar de boca aberta, num primeiro tempo; e, num segundo, discursar numa varanda do CCB em tom ressabiado porque tinha vencido a eleição.
Vi o John Lennon anunciar “agora batam todos palmas, e aí em cima, os membros da família real, podem chocalhar as joias!”
Vi o Zé Galvão falhar a transmissão de um penálti, quando realizava um jogo de futebol, porque se enganou a carregar num botão.
Vi, vezes sem conta, gente sem escrúpulos jurar “que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas!”
Vi a equipa de emissão da RTP, nos intervalos das lições da telescola, passar invariavelmente o mesmo tema dos Pink Floyd, enquanto na régie se exultava em coro: “we don't need no education... hey, teacher, leave the kids alone!”
Vi a SIC ser o canal mais visto, mesmo durante o serão em que, por avaria do emissor, não tinha emissão no ar.
Vi o Pinheiro de Azevedo gritar “é só fumaça!”
Vi várias vezes a Julie Andrews e a família Trapp, nas tardes de Ano Novo – sempre como se fosse uma estreia.
Vi o Papa e os respectivos atentados... alguns, apenas à memória.
Vi e deliciei-me com os comentários do Cordeiro do Vale nas transmissões do Torneio das Cinco Nações.
Vi algumas vezes o Mário Crespo. Ora quando se pavoneava em estranhas entrevistas; ora quando cruzava as pernas com rigor coreográfico e, encaixando uma mão na outra, dizia invariavelmente: “...a excelência do jornalismo da CBS, na excelência de conteúdos que é a SIC Notícias”
Vi os directos do Albarran na guerra do deserto; e o espectáculo da tecnologia da guerra transmitido pela CNN.
Vi o Carlos Lopes vencer a maratona em Los Angeles e o José Galvão comentar o feito num banho de choro.
Vi policias a encharcar polícias no Terreiro do Paço.
Vi o chinês parado em frente ao tanque, em Tiananmen.
Vi casamentos de príncipes e funerais de artistas, e de soberanos; e vi mineiros resgatados por um canudo.
Vi todas estas coisas... e tantas outras, que não cabem nesta enumeração.

Também sei que actualmente passam coisas igualmente dramáticas e importantes na televisão, mas eu já raramente as vejo.
Porque não tenho paciência!
Ou, se calhar, porque ainda estou traumatizado com a “Super Putaria Nacional”.

João Salvado
Agosto 2012