terça-feira, abril 18, 2017

Zona raiana - Abril 2017

photos by Joao Salvado

sábado, abril 15, 2017

sexta-feira santa

Claro que é rebeldia esta forma como exacerbo alguns comportamentos.
Puxo conversas sobre pitéus de cabidela ou costeletão de novilho, quando vou jantar a casa de amigos vegan; se educadamente me pedem que me abstenha de referir atrocidades animais, que razões ideológicas os impedem de falar sobre o assunto, eu disparo então sobre estudos científicos que provam o sofrimento do vegetal à beira da mastigação: a rúcula e o coentro que se apercebem da morte ao ver chover o tempero sobre a saladeira; a couve coração que perdeu a vida, inglória, no ritual de um festim sem glúten.
Também por rebeldia, esta é a única sexta-feira em que não prescindo de me banquetear com enfartados rodízios de carne vermelha.
Desnecessário, eu sei. Mas assim sou eu, Maria da Graça, portuguesa de 52 anos, moradora em Arroios - essa espécie de Tribeca lisboeta. Contraí o ateísmo em tenra idade. Valeu-me ter nascido filha de pais tolerantes, moldados pelos anos do amargo reviralho, que me aceitaram como sou, por amor, e contra a opinião do Dr. Passos do centro de saúde, que sempre lhes disse “levem-na a Fátima, pode ser que isso lhe passe” - o Passos morreu dois anos depois, de cancro do pâncreas, fulminante.
Muito nova, mas já rebelde, saí de casa e andei perdida durante meses na América do Sul onde cheguei a infectar-me de marxismo. Primeiro, na Argentina, na versão trotskista; depois, mais acima, na versão bolivarista, talvez mesmo guevarista, por causa de um gadelhudo de barba rala por quem me apaixonei em Machu Picchu. Um amor que durou quase dois meses.
Mais tarde e mais a norte, a persistência solar, alguma tequilha e a diversidade cromática, levaram-me a abandonar a causa “obrera” e aproximar-me definitivamente das manifestações do livre pensamento artístico. Andei pelas Artes e pela libertinagem moral - de onde nunca saí, em boa verdade. Alimentei na altura, um particular apreço por Frida Kahlo, ou por aquilo que ela representava, principalmente o desprendimento pelo corpo, a forma de o deixar viver, a ousadia de o libertar de atavios - a versão monocelha, por exemplo, sempre me fascinou.
Valeram-me os anos em que me senti possuída desse encantamento, até regressar a casa onde iniciei esta existência cinzenta de onde agora vos escrevo - mais anémica que académica - de uma modesta professora da António Arroio.
Aqui estou, hoje, sendo o que sou e fazendo a gestão possível do que aprendi e por onde passei.
E lembrei-me: que pena, na altura, naquele tempo, não ter tido atrevimento para subir ainda mais em latitude, e ir perder-me na generosidade dos costumes do Midwest, aprendendo aí os fundamentos da pós-modernidade política, tão actuais e que tanta falta me fizeram nesta última semana. Bem podia ter aqui opinado sobre a miudagem de Torremolinos, os gays da Chechénia, o Canelas, o Samaris e os cânticos da claque do Porto, ou a madrasta de todas as bombas e a sobremesa de chocolate do Trump antes do ataque à Síria.
Sendo que “pós-moderna” é mesmo (mais que a qualidade dos temas a debate) a forma como todos aderimos à narrativa fragmentada, à rejeição da linearidade, no modo como lemos a actualidade. Espezinhamos cada assunto com dois likes e um comentário, saltando depressa para o tema seguinte, que se faz tarde e que a actualidade é o AGORA, todo o resto já foi.
Hoje, graças a deus, lá me ligou pelo fixo, a tia Eugénia, de Grijó de Parada, a única irmã ainda viva do avô Lourenço que deus tem. Ela, alheia a pós-modernismos, mantém-se agarrada às narrativas lineares, sem que nunca tenha lido Proust, Virginia Woolf ou James Joyce.
Para a tia Eugénia, adaptada a esse solilóquio transmontano que cultiva e mede a passagem dos dias, há o Entrudo, segue-se a Quaresma e depois vem a Páscoa - e esta previsibilidade sequencial alimenta-a a em Felicidade, que inveja.
E pensei cá para mim: “se as pessoas me ligam, se são atenciosas e simpáticas, é porque se preocupam comigo e me querem ver feliz. Deixa estar, então. Por isso lhe agradeci e retribui: páscoa feliz também para si, tia Eugénia!”
Mas fiquei a pensar, inquisitiva, o que quererá dizer isso de “páscoa feliz”?

sexta-feira, abril 07, 2017

Magnus Bergstrom e um pequeno rebate xenófilo


Em boa verdade eu não sei quem foi Magnus Bergstrom (o nome leva um trema por cima do "o", que aqui declino porque não o encontro no teclado) mas assumo que tenha sido um linguista, um filólogo, um especialista em língua portuguesa; conhecido da maioria, talvez, sendo que apenas eu, que tenho andado a tratar da minha vida por outros lados, a mim me tenha escapado. Ou talvez tenha sido “apenas” um respeitável académico, um investigador fechado num gabinete ou numa sala de aulas.
Ainda que desfazer essa dúvida possa estar à curta distância de um click de google, eu prefiro não o saber, prefiro quedar-me a imaginar que Magnus Bergstrom é o homem com quem simpatizo.
Cheguei ao nome dele porque ressalta na capa do velhinho Prontuário Ortográfico que uso frequentemente como ferramenta indispensável para qualquer escrita - escrita é qualquer coisa que se ponha no papel, até um mail de resposta à companhia de seguros merece ser redigido em bom português - o recíproco, na troca de correspondência, já não é verdadeiro: “o cliente irá rececionar uma carta… onde o conteúdo por defeito…”
Eu uso uma edição velhinha e amarelada, datada de 1975, que serve muito bem, vai-se aguentando ao manuseamento e resiste às recentes tiradas contra-revolucionárias que têm desferido sobre a ortografia.
Cada vez que pego no velho prontuário lá está aquele nome estrangeiro, um dos autores da obra, um nome tão agradavelmente dissonante na fonética da minha língua. Foi isso que me chamou a atenção. Simpatizei com a diferença. O que também pode configurar um pequeno episódio de xenofilia.
O bom manejo da língua é um exercício exigente mas que merece ser exercitado em toda a parte. Aqui, por exemplo. Abro uma mensagem: “obrigado por ter aceite o meu pedido de amizade”. Fico logo triste quando a amizade começa com uma falta ao primeiro encontro marcado. Será que eu deveria responder de imediato, ferindo a amizade recente, assumindo frontalidade, quase arrogância, mas explicar “não é ter aceite, mas sim ter aceitado.”?
Outra coisa que verdadeiramente me encanita é a troca do verbo “dizer” pelo “falar”. Não sou mesmo nada transitivo a este “brasileirismo”: “...você falou que vinha cá na semana passada, mas não apareceu!” - claro que não pus lá os pés, a falarem comigo dessa maneira!
Cresci em redacções onde havia sempre três ou quatro “bíblias” sobre a secretária: o dicionário, a gramática, o prontuário ortográfico e o livro de estilo. Melhor, nalgumas o livro de estilo não existia em papel, era cantado, estava-nos na cabeça e na alma. Por exemplo, naquele tempo, ai daquele que no próximo mês de Maio viesse aqui chamar ao Papa “Santo Padre”, sabendo que estava a escrever para um universo laico.
Hoje tudo é diferente. Quando se escreve temos na tecla ao lado o Priberam ou a Diciopédia, o corrector de texto e o auto-complete, o Ciberdúvidas e a Wiki, ou qualquer App apropriada. Ainda assim pouca circunspecção e dejúrio merece o tratamento da nossa língua.
Lembro-me, uma tarde eu estava numa cidade de província do Paraná, já próximo da fronteira com o Paraguai, e alimentava uma conversa prosaica com uns conhecimentos recentes. Tudo gente local, brasileiros filhos de imigrantes ou imigrantes de segunda geração - ou melhor, colonos, porque no Novo Mundo o conceito de imigrante não é coincidente com o que temos aqui na Europa. Naquela tarde, assim eu tivesse guardado uma fotografia do momento, seria marcante analisar a diversidade de fácies nos interlocutores da conversa. Eu estava ali a falar com um lívido japonês; com dois loiros, um alemão e outro polaco; com outro mais escurinho, que era indiano; também um nordestino; um negro baiano; e acho que havia ainda um russo ou eslavo leste-europeu. Que torre de Babel... era como se tivéssemos reunido um mundo inteiro. Um mundo apartado pelas diferenças étnicas mas agregado por dois elementos sagrados que ali partilhávamos: o solo fértil que pisávamos, o solo brasileiro; e a plasticidade, a riqueza de uma língua comum, a língua portuguesa - qual esperanto, a minha língua! Todos ali, ligados, e era o meu lastro linguístico, o que me corre nas veias, que nos viabilizava a comunicação. Senti-me naquele momento acometido de um natural ataque de pieguice, difícil de justificar perante a amálgama de portadores de diferentes costumes e sentimentos - que orgulho patrimonial.
Por isso, Magnus Bergstrom, Carolina Michaelis (também ela leva trema), Lindley Cintra, Elza Paxeco, Lúcia Lepecki (e outros tantos que eu certamente desconheço), a todos muito obrigado pelo trabalho que dedicaram à língua portuguesa; quer tenhais nascido estrangeiros ou sejais portugueses de ascendência alienígena. Vós alimentais aqui o meu rebate xenófilo, que é igualmente um sentimento nobre e oportuno nos dias que correm, em que a aversão ao que é estranho e distante, nos predomina no pensamento.
Vós, para mim, sois como se um amigo de longe nos tivesse vindo ajudar a arrumar a casa.

Bem hajam.

quarta-feira, abril 05, 2017

O transplante e o desplante


Faltam seis meses, pouco mais, para que uma pequena equipa médica, em representação desse enorme lastro parental a que chamamos “toda a Humanidade”, proceda ao primeiro transplante de cabeça... que, de facto, consiste exactamente no inverso: uma cabeça vai receber, por transplante, um corpo inteiro. Um russo, de apelido Spiridonov, que sofre de atrofia muscular espinhal que lhe torna o corpo inútil, irá receber, em Dezembro, o corpo inteirinho de um qualquer dador, alguém funcionalmente saudável mas em morte cerebral.
O neurocirurgião italiano que anda há 30 anos a preparar a aventura, vai cortar a cabeça ao russo, arrefecê-la, colar cabeça boa ao corpo bom (vai demorar dia e meio e envolver 150 pessoas), deitar fora o outro par que não presta (cabeça e corpo estragados), e manter o novo indivíduo "recapitado" em coma induzido durante mais de um mês até a coisa estabilizar, para depois, se tudo correr bem, o senhor Spiridonov "ir" pela primeira vez à sua vida. Oxalá que sim.
Os pormenores da intervenção cirúrgica (lidos por aí), sendo de um inexcedível rigor científico, soam-me descomunalmente mórbidos. Mais tenebroso ainda, porque preocupante, é tudo o que lhe está por detrás, ou à frente; ora visível, ora dissimulado:
- a ciência e a tecnologia que já permitem fazer tudo, ou quase tudo;
- a ética que nos obrigaria a parar para pensar, mas infelizmente não temos tempo;
- algum mercantilismo (médico, entre outros) que se escapa pelos interstícios da ética e da regulação, oferecendo todas as soluções de "vida" a quem quer seja, desde que bem pagas;
- o livre arbítrio, que todos reivindicamos, de podermos fazer do nosso corpo aquilo que quisermos, até mesmo transformá-lo num bizarro “não-corpo”.
Começámos por achar normal retirar do corpo os sinais de deselegância e de envelhecimento - botox, plásticas, silicones, implantes. Também é normal e desejável substituir órgãos que deixaram de ser funcionais. Depois é aceitável não aceitar envelhecer. E, em última análise, não morrer. (Não valerá a pena ir procurar na ficção, na literatura, “saramaguista” ou outra, histórias premonitórias sobre o desaparecimento da morte).
A um outro nível: é aceitável resolver conflitos de identidade. Mudança de género - de homem para mulher, ou o inverso; mas até de homem ou mulher para nada, para assexuado, isto é, para “sem género”, apenas por opção.
Há ainda a clonagem, os estaminais, e tudo o que no limite se pode fazer, com dedo apurado, nas biotecnologias. E por aí fora...
Quando analisadas caso a caso, (quase) todas as intervenções são legítimas porque resolvem problemas, salvam vidas, poupam conflitos de identidade. Mas vistas em abstracto, como "tendência", muitas parecem actos contra-natura, ainda antes que alguém saque dos argumentos e das incidências religiosas.
Era bom que parássemos um bocadinho para pensar sobre estes assuntos - todos nós. Para termos ideias claras acerca dos limites que nos devemos impor. Ou não devemos impor limites?
Devíamos falar sobre isto.

Eu por mim estou disponível neste fim de semana. Não sei como estará a agenda do resto da Humanidade, mas como é dia de futebol, temo que o assunto ainda não fique resolvido desta vez.

quarta-feira, março 15, 2017

A saudade


Tenho saudades da leitura de jornais em papel e daquele desconforto dos braços esticados, para os broadsheet, mas bem mais agradável nos tablóides - no conteúdo dos artigos era talvez o inverso. Saudades do barulho do súbito folhear das páginas e até do cheiro a tinta e da sujidade que ela deixava nos dedos.
Tenho saudades de tocar nos botões de campainha, à porta - dois toques curtos, como quem anuncia “cheguei, fico aqui em baixo à tua espera”.
Até tenho saudades de esperar na bicha da cabina telefónica. De fazer cá fora um olhar intimidante para pressionar o demorado utilizador “sê telegráfico na conversa. Isto não é para vir para aqui namorar, há mais gente à espera!” e receber em troca, pelos quadradinhos envidraçados, um ambivalente sorriso amarelo que queria dizer simpatia para o interlocutor em linha mas desdém para quem ameaça de fora do abrigo.
Mas do que tenho mesmo muitas saudades é daquele embaraço ao balcão da capelista, quando ia levantar os rolos de fotografia que vinham da revelação - “tinha pedido em papel matte sem margens, não era? Veja lá se está tudo bem”. Eu abria o envelope e espreitava envergonhadamente duas ou três fotografias, salteadas “acho que sim, parece-me bem”. Só depois, já fora da loja, me atrevia no descaro de rever todas as fotografias e sentir, uma a uma, a confirmação da dúvida, da desilusão ou do prazer, e sobretudo da ânsia que cada um daqueles disparos de obturador tinha representado em momento próprio, que tão nítido ainda retinha na memória.

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Me and my selfie

A pretexto de experimentar uma nova objectiva saí para a rua, para fazer umas fotografias. Escolhi um motivo. Era verão, a cidade estava cheia de turistas, decidi fazer selfies - aliás, pessoas que se fotografam em selfies. Em dois ou três dias fiz milhares de fotos das quais uma centena, nem isso, podem ser consideradas interessantes. A seguir resolvi inventar pequenas histórias à volta das fotos mais expressivas. São narrativas imaginadas sobre pessoas que não conheço e com quem me cruzei, e uni, nessa cumplicidade do instante fotográfico.

Aqui ficam três ou quatro exemplos.








quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Mulheres do Século XX



20th Century Women, “Mulheres do Século XX” é (para mim) a melhor surpresa das nomeações para os Oscars 2017.
É uma incursão do cinema mumblecore - a mais interessante corrente de cinema independente da última década - às portas de Hollywood. Um cinema que privilegia a estética ao espectáculo, a narrativa mental à acção, a extensão narrativa ao orçamento de produção. E que talvez por isso tenho criado anticorpos em Hollywood.
A carimbar a linhagem “mumblecore” está a actriz Greta Gerwig que assina com Annette Bening duas talentosas interpretações, em que Hollywood entendeu agora não reparar.
Um filme que nos fala da forma como “vivemos” - tirando eu aqui partido, no nosso português, da homografia dos diferentes tempos verbais, o presente e o pretérito.
O filme acomoda-se a uma única nomeação para os Oscars - a de candidato a melhor argumento original. Faltam-lhe certamente as nomeações para um ou dois papéis de interpretação, talvez para Melhor Realização ou para Melhor Filme, mas seguramente a de candidato ao melhor Production Design.
Está de parabéns Mike Mills que foi beber à sua infância a poética história em que aqui nos faz deliciosamente mergulhar, com uma motivação agravante no meu caso, fiquei apaixonado pela casa onde tudo aquilo se passa.

Um filme a não perder.

sábado, fevereiro 11, 2017


Praça do Comércio/Cais das colunas #1 - Lisboa
© photo by João Salvado
August 2013



Praça do Comércio/Cais das colunas #2 - Lisboa
© photo by João Salvado
August 2013

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

A Caixa de Fósforos

Aquilo que mais me encantou na “Caixa de Fósforos”, o livro de Nicholson Baker, quando o li há uns anos, foi a capacidade do escritor de nos impor a obrigatoriedade de pairar demoradamente sobre o tempo parado da narrativa.
O romance conta a história de um homem que todas as manhãs, muito cedo, acende a lareira e prepara a casa para acolher o frio dos dias, sempre envolvido em pequenas tarefas que lhe afogueiam longos pensamentos, que vai narrando. O gesto de riscar um fósforo para a lareira pode ser uma tarefa que, na minúcia do escritor, rende um capítulo inteiro de literatura.

A escrita infiltra-se nas frestas de um tempo que não existe, como num efeito cinematográfico de “time freeze” onde a acção parou, os intervenientes paralisaram, mas nós continuamos a andar por lá, alongando-nos na observação do momento. O que requer uma escrita de fragmentação, tão oposta aquela outra que impõe velocidade à narrativa com o objectivo de chegar rápido ao sumo do enredo, da trama, ao desembaraço da acção. É como viajar à solta num tempo parado, numa navegação de memória pelos interstícios reticulares do tempo. Penso nisso muitas vezes. Por exemplo, quando de manhã me envolvo no automatismo de preparar o café.

Por isso hoje decidi contar os gestos, os tiques que requer esta empreitada matinal de fazer café. Anotei-os no pequeno caderno onde guardo outras futilidades. São exactamente 49 passos desde o primeiro toque na cafeteira eléctrica até ao momento em que a chávena quente me toca os lábios .
Quase cinquenta pequenos movimentos, micro-tarefas, aberturas e fechos, giros e rodeios, alcances, abduções, afastamentos, impulsos e toques, que pratico ainda ensonado e de forma quase automática, instintivamente, onde a coordenação motora age independentemente do cérebro ainda semi adormecido. 

Depois do café, mais desperto, consultei as notas. O passo 14, por exemplo, refere o momento em que a pequena colher de madeira, em forma de pá, retoma o seu lugar dentro da lata, enterrando-se na moagem, empinada, em estaca, evitando que o cabo táctil onde os dedos deixam marca, contacte o pó enxuto.

Já os passos 20 e 21 referem momentos sensitivos: o primeiro é sonoro, quando começa a soar na máquina o gorgolar da água em fervura; o outro é olfativo, quando se sentem pela casa as exalações do aroma da bebida.

Esta fruição sensorial teve que ser acompanhada por uma outra ousadia, a de retirar para local inacessível a máquina nespresso. Renunciei à tecnologia do café de cápsula por razões ideológicas, ambientais, comerciais e outras. Agora regressado à envolvência bucólica que emerge desta história, revejo-me no gozo de me ir apeando de mecanizações excessivas. Da mesma forma, não haveria obra literária se porventura o protagonista de Nicholson Baker tivesse em casa ar condicionado em vez de lareira.

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Moonlight



Do que é que eu não gostei no (filme) Moonlight?
Houve apenas uma coisa que me incomodou. E incomodou bastante.

Não, não foi o tema da homossexualidade, que isso é assunto mais que acomodado nos tempos que correm - talvez ainda não acomodado por toda a gente, mas para gente como nós, que ainda tem 7 euros para pagar por uma cadeira de cinema, os desígnios da sexualidade, nas diversas variações de género, representam apenas factores de coloração da entrega dos afectos.

Não, também não foi o black trash suburbano de Miami, os ghetto dwellers, os crack head neighbors dos arredores, a desestruturação familiar, a toxicodependência parental, que para ver isso não é preciso ir aos slums da América, temos por cá equivalente.
Também não foi o cerco da realização cinematográfica (ou da “cinematografia”, se quisermos), angustiante, quase claustrofóbica, de curta distância focal, de fundos desfocados, da câmara handheld que olha a acção e se mexe misturada com os protagonistas; nem sequer das cores saturadas, duras, intencionalmente a queimar.

Não foi nada isso.

O que me incomodou verdadeiramente foi um detalhe da longa cena final (supostamente o desenlace romântico da história) em que "lover um" revisita "lover dois", na lanchonete do segundo. O intimismo do encontro mereceu ser celebrado com um bom vinho e lá vem então a garrafa de um tinto (provavelmente) italiano, quando - pasme-se - é bebido à americana. Ou seja, em copos de plástico modelo highball ou parecido, altos e de cor, adequados a servir água ou refrigerante.

Aí o drama romântico, para mim, parou. Veio-me à garganta aquele refluxo de antipatia cultural, de distância àquela América que bebe cerveja pela lata, mas também bebe whiskey pela garrafa e haveria de beber de igual forma, se o apanhasse, um Château Lafite Rothschild… ou não, porque no copo sempre se poderia misturar gelo e seven-up.

É a América que come à mesa só com garfo, a outra mão pousada sobre o joelho. Aquela América que numas coisas é tanto à frente e noutras quase debutante em civilização.
Foi apenas isso que me incomodou no Moonlight. E assumi que o detalhe não terá sido posto na fita sob um olhar crítico, ou como elemento semiótico e significante da dramaturgia. Está lá e daquela maneira porque é intrínseco à cultura americana. Faz parte.
É a terra e a cultura onde uma vez embasbaquei um anfitrião porque lhe pedi se podia, faz favor, ter um copo para beber a cerveja.


(Onde se lê “América”, deve ler-se sempre “Estados Unidos”.)

domingo, fevereiro 05, 2017

Quando são as memórias a lembrar-se de nós...


Saíamos do cinema às três da manhã e ainda íamos à Alga comer um bife. O Quarteto tinha sessões da meia noite, dois filmes de culto que só cabeças refrescadas como a do Pedro Bandeira Freire conseguiam aguentar - um Agnès Varda e logo a seguir um Visconti, por exemplo. A Alga era pouco mais que um balcão corrido. O Loja Neves anotava tudo num caderninho de goodies que, se ainda o tiver, valerá milhões. O Loja fumava demais. Cigarros sem filtro. Português suave, acho.
Já não me lembro como é que o Zé Velho ia para casa nas sextas à noite. Morava em Odivelas. Nos outros dias saía do cineclube e apanhava o último metro na Avenida, ao fundo a rua do Salitre. Andava de cabeça perdida com a história da fauna social que povoava o último comboio para Entrecampos - seguranças, operários da noite, prostitutas, intelectuais, boémios, empregadas da limpeza, etc. Já toda gente se conhecia. Entre a Rotunda e o terminal de Entrecampos eram uma família. Queria reduzi-los a um guião. E nós já lhe tínhamos encontrado um título para a versão internacional, “The Last Train to Between Fields”.

O Mário saía menos connosco à noite. Morava em Sintra em casa dos avós. Numa tarde de sábado fui visitá-lo. Lembro-me do ar faustoso da casa apalaçada, tapada por heras e colunas de pedra ofuscadas por uma pátina de líquens, e um jardim que subia em socalcos até se misturar com a serra. Nesse dia inventámos uma nova corrente estética, ideológica e cinematográfica. Chamamos-lhe “neo-revanchismo”. O neo-revanchismo durou uma tarde, matámo-lo no dia seguinte. Conseguimos ser ainda mais expeditos a renegar a própria criação que o Lars Von Trier no Dogma 95.

Perto de Sintra vivia também o Tátá - ainda não tinha saído do armário - chamávamos-lhe Nosferatu de Galamares. Gostava de cinema e de ilusionismo. Um dia desapareceu num truque de close up.
Eram estas as nossas expedições punitivas.
Estávamos em que ano? Não sei exactamente. Mas nessa altura, num outro ponto da cidade, sem que o soubéssemos, estaria o Dinis Machado a bater à máquina O que diz Molero.

Num dia normal eu saía das aulas do Alpern ou do Esperança Pina, no Campo de Santana, ignorava a provocação de ofertas pagãs à volta da estátua do Sousa Martins, ali mesmo ao lado, e entrava no Instituto Alemão, junto ao Patriarcado. Papava logo uma dose pesada, um Murnau, um Dreyer, um qualquer expressionista alemão, com sorte saía-me um Fassbinder. Depois descia as escadinhas do Lavra e vinha cá a baixo ao Palácio Foz aviar um ciclo da cinemateca. Aí conseguia habitualmente melhor cinema. Foi lá que apanhei todos os Bergman. Senti-me possuído pelo Personna e pelo Silêncio. Quando jogávamos à bola, no “enconansus corner”, o pessoal costumava dizer que eu só gostava de “cinéma problème”, enfatizando a expressão, com intenção pejorativa, na adequada “prononciation française”. O pessoal falava francês nessa altura. Mas era o sueco da Liv Ulman que me deixava sem fala.

Depois subia no elevador da Glória para o Bairro Alto e ia para as aulas do Conservatório, na Barroca. Tive que anunciar aos meus pais que tinha desistido de medicina e ia agora estudar cinema. Não foi fácil fundamentar tal ruptura. Mas eu tinha os melhores pais do mundo e consegui distraí-los com a questão da orografia.
- Mas, filho, tu tinhas dito que querias ser médico psiquiatra, depois de teres visto o Family Life do Keneth Loach, que tanto te tocou... e nós estávamos preparados para te apoiar em tudo.
- Sim, mas... aliás, eu deveria ter-vos dito que queria ser “anti-psiquiatra”, porque é isso que advém do Family Life e das ideias do Cooper e do Ronald Laing.
- Bem, filho, conta connosco no que precisares. Tu és o nosso único filho. Tu és o nosso amor.
O pretexto da orografia colhia sempre. Assentava no mito romântico-urbanístico da “Lisboa das sete colinas” - do alto do Campo de Santana eu tinha descido ao vale dos Restauradores e subido ao Bairro Alto; duas colinas já estavam superadas e tinha assim criado uma necessidade, uma fatalidade de movimento.

Em Alvalade o Loja Neves continuava na Alga a fazer rabiscos num caderno sebento onde guardava pensamentos afrancesados, mais uma Seara Nova e um Tempo e o Modo debaixo do sovaco. Continuava a fumar português suave sem filtro e queria trazer o Joris Ivens a Portugal.
Eu andava “apanhado” pelo documentarismo britânico. O Grierson e sobretudo o Alberto Cavalcanti com a história do “se quiseres fazer um filme sobre os correios, não faças um filme sobre os correios, faz antes um filme sobre o percurso de uma carta”.
Decidi fazer a adaptação cinematográfica do Sredni Vashtar. Andei uns dias naquilo. Depois de feita guardei na gaveta. Ainda aqui está, generosamente arquivada. Hoje, o que mais admiro no opúsculo é a marca deixada pela máquina de escrever Olivetti que já naquela altura batia com fita a duas cores, preto e vermelho.

Tinha nascido o vídeo. Na escola de cinema já tínhamos U-matic, três quartos de polegada.
No Conservatório, o João Miguel Fernandes Jorge mostrava-nos diapositivos. Parava sempre no mesmo, num que tinha duas maçãs. Deixava que a sala tombasse num longo e incomodativo silêncio e quando sentia a agitação dos rabos nas carteiras, avançava para o slide seguinte, fazendo um comentário lacónico “este é o caso mais exacerbadamente romântico de que há memória”.
O António Reis, o do Trás-os-Montes, chorava e batia-nos nas mãos quando, à moviola, não acertávamos nos raccords de luz. O Ricardo Pais obrigava-nos a tocarmo-nos, para vencer as barreiras territoriais e tácteis do corpo, para que pudéssemos compreender que a dramatização trespassa desde o infinito distante até à pele. O APV, o Geada, tantos outros… O ambiente ecléctico de escola de artes, a cumplicidade entre alunos de cinema, música, teatro, dança, educação pela arte. Tudo veio a ser copiado mais tarde na série Fame. Fomos nós na rua da Barroca que inventámos esse engenho. E éramos muitos. O Pedro Costa, dos Ossos, por exemplo, também lá estava. Será que se lembra?

Por falar em Costa… um dia troquei de horário com o outro Costa, o da RTP. Mandei-o para casa e fiquei a trabalhar por ele à noite. Não me esqueço, foi no 7 de Março de 1980. Às oito da noite começava o Telejornal e eu tinha que cumprir o que estava determinado no alinhamento da emissão: “abrir a fase do burst”. Rodei o botão negro e serrilhado, pressionando com o polegar direito. O botão cedeu 45 graus, ajustou-se à nova posição, onde ainda repousa, se existir. Tinha assim começado a televisão a cores em Portugal, no meu dedo.
Bem, tinha começado antes. Nós abríamos o burst durante segundos, às escondidas, e voltávamos a fechar. Fazíamo-lo a horas combinadas para impressionar as namoradas em casa. Era a nossa leitura de “período experimental”. Combinávamos tudo, ligando da cabine telefónica do pátio, por cima da “estalagem do cavalo branco”. Ainda não havia telemóveis.
Aliás, a cor tinha começado ainda antes. Quando toda a gente foi à Pollux comprar os filtros de gelatina que davam cor aos televisores a preto e branco. Era um gradiente de azul, amarelo e verde, que atravessava de alto a baixo o vidro do cinescópio. Prendia-se com fita cola. Funcionava lindamente nas imagens de paisagens e nas séries do Bonanza e do fugitivo, mas tornava-se incomodativo em cima da cara da Maria Elisa e do Raúl Durão, coitado, que já não está connosco.
Isto foi em 1980. O mundo não pára. É uma vertigem.
Eu nunca deixaria de ir ao cinema e nesse ano os meus filmes de culto foram, se a memória não me atraiçoa, o Apocalipse Now, o Homem Elefante e os Blues Brothers.