quinta-feira, dezembro 16, 2010

Memória


Vasculhai os arquivos da RTP e encontrareis uma brilhante entrevista, gravada há mais de 20 anos, que nunca foi emitida e pergunto-me se algum dia o será.

É um interessante casamento de imaginação e jornalismo – uma entrevista post mortem a Carlos Pinto Coelho.

Eu explico. O entrevistado, Carlos Pinto Coelho, responde, para registo futuro, a algumas perguntas sobre o que foi a sua vida e percurso profissional, no uso persistente do pretérito perfeito – eu fui, eu fiz, eu estive, eu amei. Um ousado exercício que só as mentes rasgadas sabem equilibrar.

O que pinta de tons trágicos este diletante desempenho expressionista é que, a partir de hoje dia 16 de Dezembro de 2010, fica fechado o ciclo de três razões que nos responsabiliza no dever de entregar à História tal pedaço de espólio.

Primeira, o entrevistador, António Amaral Pais, um príncipe do jornalismo, deixou-nos há muitos anos vitimado por esse sezão mortal que fazemos questão de evocar todos os anos no primeiro de Dezembro. Segunda, o Carlos deixou-nos hoje, há poucas horas, também tão despropositadamente. Terceira, o registo audiovisual ter-se-á perdido nalguma caixa poeirenta, aos pés do arquivista, à espera de vez para classificação.

Perdoem-me os notáveis concursantes da O. Triunfo mas esta entrevista era o programa que eu quereria ter visto hoje na televisão.

Perdeu-se a memória. Por isso eu faço questão de a evocar.

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