"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
Dela, gosto especialmente das referências que faz a quando era bem miudinha e escrevia poesia breve! Sobre nuvens, sol e galinhas que não viam o brilho do astro rei por se terem distraído...
Quanto ao querer ou não alterar as coisas com as palavras que se escrevem... uhm... cá p'ra mim quer-se sempre ("quer-se" é estranho, não? talvez devesse escrever "deseja-se" mas... oh, quer-se também é bem!) E julgo se quer sempre porque acredito nisto, - A palavra é acção política!!
O cenário é o consultório médico de um hospital público, teatralmente reproduzido. Em jeito de didascália, adianto que nada me move contra o serviço público de saúde; pelo contrário, admiro-o e gabo-lhe a temeridade de ir conseguindo resistir às adversidades. Regressando ao espaço cénico da minha consulta externa. Depois de substancial tempo de espera - faz parte! - sou chamado ao gabinete. Entro, “bom dia, dá-me licença?”, “faça favor de se sentar!” e aponta com a esferográfica para a cadeira em frente, levantando o olhar pouco acima dos meus joelhos. Sento-me. Acomodo-me, sabendo que vou ser recebido mais como um vulto que traz um episódio clínico, que uma criatura que merece simpatia e atenção. Conheço bem o burlesco dos minutos que se seguem. Olho demoradamente a médica à minha frente, sei que tenho tempo para me divertir, para confabular pormenores, antes que ela me dirija um primeiro olhar e atenção humanizada. Parece-me uma mulher sombria e velha. Veste-se como uma velha...
O que se passou, o que esteve à volta da interrupção da peça do São Luiz na passada quinta-feira, pode ter sido uma questão bem mais complicada, ou talvez bem mais simples. A acção da atriz-prostituta-transexual (assim se definiu) keyla Brasil, não foi um acto isolado, teve participação e conivência de uma boa parte da plateia, que estava lá para isso. No vídeo que tem circulado nas redes sociais pode ver-se: a filmagem começa no momento em que Keyla, semi-nua, se levanta da cadeira. Uma câmara (telemóvel) de alguém sentado numa das filas dianteiras da plateia, aponta para trás, para captar o arranque, a descida da mulher ao longo da coxia central, gritando para o actor em cena "Transfake! Desça do palco, tenha respeito!” O vídeo, na versão editada, é composto por 3 câmaras, três ângulos de enquadramento apontados à interveniente: a partir da plateia, lado esquerdo; da plateia, lado direito; e do balcão central. Num registo amador e informal, a “cobertura” do acontecimento denota ...
Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas - é assim que começa L'Étranger, O Estrangeiro, de Camus. Por qualquer razão insondável a frase de arranque ficou-me colada na memória, tanto quanto a obra. É mais que um incipit. Não é apenas uma frase de início, é um arrastão que leva consigo a energia, a entropia que o romance irá desenvolver. “Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas”, habitando silenciosa na minha memória, baixei-a para a escrita duas vezes. Há sete anos, no dia em que a frase literalmente fez sentido, e uns anos depois, quando faleceu o meu pai - pese embora a discordância de género a dor da perda paterna é-lhe equivalente. Conheci, aquando da universidade de Aveiro, no Toc'Aqui jazz bar da Praça do Peixe, estabelecimento que acolhia os serões vazios de tantos docentes e quadros deslocados na cidade, uma professora do departamento de Línguas que gostava de falar de cultura e literatura, sobretudo da francesa. Um dia fa...
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Quanto ao querer ou não alterar as coisas com as palavras que se escrevem... uhm... cá p'ra mim quer-se sempre ("quer-se" é estranho, não? talvez devesse escrever "deseja-se" mas... oh, quer-se também é bem!) E julgo se quer sempre porque acredito nisto, - A palavra é acção política!!