segunda-feira, janeiro 25, 2010

A Invasão do Carlos Alberto


Caro Ruca,

Evocas magistralmente a multidimensionalidade da BCN.Apetecia-me igualmente citar a Formato C e, quiçá, a Ampex duas polegadas, bem mais primitiva e robusta, que me reporta àquela imagem do escancho de pernas de Faustinos, Cunhas e Pimentas, que à custa de balanço e poder braçal bobinavam de forma exímia, nove voltas exactas, anti-clockwise, para o mais primitivo pre-roll da humanidade. Um simples corte, um assemble artesanalmente arrancado a pedido de Peyroteos, Listopads, Cecílias e outros Pretos Pachecos, todos de boa memória.

São verdadeiras pérolas da faina, esses momentos do tracking das nossas vidas.
Roland Barthes, se vivesse, teria inventado uma qualquer explicação semântica para isto. Qualquer coisa como - há um pre-roll do pre-roll.

Antes de continuar permite-me que saúde o aparecimento do querido engenheiro Carlos Alberto Henriques (CAH) nesta troca de correspondência – querido no sentido very nIce Cream do termo, é obvio. O mesmo Carlos Alberto que nos surpreendeu há uns anos com a invenção do audio 2D, que a indústria tão injustamente rebaptizou de stereo.
Qual McGiver do electrão CAH, a partir de uns óculos de celofane inventa agora o cinema e a televisão 3D e com eles invade Hollywood seduzindo num pestanejar, Jacinto Camarão, realizador. ...E não só. Alcançou também o coração de Ava Gardner, cuja essência e vida, Alberto, alquimista audiovisual, conseguiu ressuscitar mediante administração doseada do elixir secreto de concentrado de bagaceira da herdade do Ramalhão.
Gardner, a diva, agora de cabelo oxigenado para se fazer passar por ucraniana na pastelaria Primavera, está com CAH - sabe-se, mas não é suposto dizer-se. Mantêm uma relação de copioso e ardente fervor passional, num apartamento ali para os lados de Odivelas Norte, casa posta a expensas das migalhas sucessivamente raspadas à lauta reforma de Carlos Alberto. É a partir de Odivelas que o casal Gardner-Henriques se prepara para arrasar o mundo audiovisual com o advento das inovações tecnológicas, desde o 4D até ao 7D.
Eles não sabem mas eu vi. Vi Ava Gardner à janela, meio escondida pelas cortinas da marquise que dá para o lado de Santo António dos Cavaleiros. Porte elegante, cigarro numa mão, iPhone na outra, com o olhar vidrado em lado nenhum, talvez orientado para o veludo suburbano da colina de Frielas, com um semblante tão displicentemente arrebatador que me fez recordar o remate que dirigiu a Gregory Peck em As Neves de Kilimanjaro:– Antevejo a batalha. Há uma guerra, Uma guerra tão aprazível lá fora!”
Inexcedível, a mística de Ava Gardner, mesmo ressuscitada pelas virtudes do bagaço.

E Barreto, o Vitor, o mais ribatejano dos realizadores ibéricos, o verdadeiro inventor do “cut” como oposição planítica às diatribes tomasianas do entrosado mixing ou dissolve?
Cut is beautiful! – confessou Barreto, pegando de caras o tema, numa célebre entrevista concedida a Christianne Amanpour.
Para mim, foi a tangibilidade do cut e a influência barretiana que me empurrou a escrita para o anagrama que eu haveria de publicar, mais tarde, onde enquadro a minha agonia perante o “corte”. Como escrevi, realizar não é meter no ar... Dialecticamente, é também tirar do ar.
É o frame que entra que mata o frame que sai. Há nascimento e há morte. É in, é out, com o rigor gélido da natureza parideira. Tudo certo e tão fatal como “encontrar garrafa de cerveja em entulho de trolha” – nunca falha!
Parafraseando os teóricos Valado Santos e Piedade Mendes, mestres do barramento de 24 inputs em mesa Grass Valley, a realização confronta-nos hoje com a iminência do frame – como se a vida fosse uma nano-experiência e qualquer acto de edição tivesse que obedecer à dualidade do assemble/insert com a mesma concentração e rigor disciplinar que a cozinheira chinesa dedica aos tiques de fritura das óstias de camarão.

Menos significativo na abrangência postular, dizem, mas igualmente delicioso na fruição do sintagma, é o opúsculo provocatório assinado por Maria Alice Pinho intitulado “Monte da Virgem, eu realizo cá mais acima!” - conquistou-me.
Alice Pinho desafia o velho paradigma, ousando introduzir na nomenclatura e na gramática audiovisual o “plano FdP” - uma valorização semântica de dimensão intermédia na escala narrativa. Situa-se entre o plano médio e o grande plano.
O plano FdP - acrónimo de "plano de filho da puta" - é o enquadramento ajustado a qualquer interveniente ou convidado em estúdio ou em plateau, de quem a realizadora ou a equipa não gostem. Não há desconstrução niilista no plano FdP, explica Alice Pinho, pelo contrário é um plano forte e estruturante na narrativa fílmica. No plano FdP há sempre um elemento do desenho ou da volumetria cenográfica, ilusoriamente pontiagudo, que aparenta sair da testa da non grata figura entrevistada.
(Visíveis influências barretianas, neste caso. Se bem que Alice Pinho não seja seguidora da linha ribatejana na realização. Seria interessante também aqui consultar o engenheiro Carlos Alberto Henriques acerca da especificidade do “plano de filho da puta” no âmbito do 3D e da Realidade Aumentada – nomeadamente quanto ao efeito exponencial do “filha-de-putismo” em algoritmos de paralaxe positivo ou de paralaxe negativo na tridimensionalidade. O recente filme Avatar suscita-me essa interrogação).
Para Maria Alice Pinho o plano FdP não constitiu apenas uma inovação semiótica na operação de câmara, mais do que isso, remete para a multi-disciplinaridade na operação de estúdio, para a importância da abordagem cenográfica, da iluminação, do desenho de luz ou da direcção de fotografia... até mesmo das opções de óptica, objectivas, distância focal, profundidade de campo, etc.
A realizadora teve o cuidado de condensar a fracturante vivência FdP numa obra de alguma forma biográfica, mas formalmente fiel à narrativa teatral. Dramaturgia ousada, viva, na boa tradição vicentina, que "helás" nunca viu o prelo, mas da qual eu guardo uma cópia secreta, deliciosamente obtida em ilícito ou pecado, sacada a fôlegos do original que Alice arrecada na étagère do quarto, ao lado da cabeceira, meio escondida por detrás do guarda-jóias e das embalagens de Olcadil e outros medicamentos.
Ao longo de vários meses fotografei o original de forma sistemática, semana a semana, página a página, até à cópia integral, sempre aproveitando a janela de oportunidade dos dez minutos que Alice me permitia, pelo uso da prerrogativa de ser a primeira a entrar no duche em cada desfecho suado das nossas manhãs partilhadas. Saltar da cama para o banho quando lhe apetece, é prerrogativa de dona da casa, e de mulher do norte, e as minhas idas furtivas ao Porto, aliás Castêlo da Maia, freguesia do Amioso, eram expedições punitivas que eu assumia numa vingança de costela sulista.
Um dia o pior quase aconteceu:
- Adoro esta bergère, Alice, desde a primeira vez que dormimos juntos que reparo nela. É Homes & Heaven? – Perguntei, desajeitado, na vertigem de ter sido apanhado com a máquina ainda na mão após fotografar o original. Tinha negligenciado o óbvio, Maria Alice sai do banho, como toda a gente, descalça, e a docura do seu pisar mesmo sobre cerâmica Revigrés era naturalmente inaudível. Cabelos emaranhados, encharcados, bravios, Alice, de secador na mão, sem perceber o meu embaraço, respondeu-me:
- Anda, faço-te uma omoleta com presunto e depois temos que sair, tenho o Jornal da Uma para meter no ar. Nessa momento eu sabia que tinha na minha posse, no cartão de memória da pequena câmara digital, seguramente, sete capítulos da obra, surripiados sem suspeita da minha amante. E nunca uma omoleta de presunto me soube tão bem.
É com autorização implícita da autora – isto é, na assunção que Alice Pinho não se importaria que eu publicasse um excerto da sua obra se porventura ela soubesse que eu a tinha e desse facto ela também não se importasse... (confuso?... um pouco). É, portanto, com putativa autorização e com a devida vénia – e ainda com a certeza de que não voltarei a partilhar os segredos daquela cama no apartamento de Castêlo da Maia... Porquê? As razões sabe-as ela, sei-as eu, e talvez um tal Fernando “Qualquer Coisa” que “calça” porsche cinzento e, dizem, anda agora enrolado com ela – que fecho a correspondência por hoje deixando-te o saboroso diálogo entre a autora, realizadora de um programa, e um operador de câmara no estúdio, diálogo recolhido pelo circuito de intercom e gravado na pista 4 da betacam digital, a páginas 117 do manuscrito.
Aqui vai, meu caro Ruca:

- Câmara cinco, tás a ouvir? Tens muito ar à esquerda, corrige lá essa merda! – grita inquieta Alice Pinho.
- Qual ar à esquerda? Aqui no viewfinder tá tudo bem... Não me digas que tens a monição aí em widescreen? Tás a ver isso esticado?
- Não está nada widescreen... Pelo contrário, até me parece mas é anamórfico.
- Pois, então é disso. Acertem aí as monições que aqui está tudo bem. Já piquei o final para confirmar. Se abrir mais, rompe no painel, ao fundo... É isso que queres?
- Então chega-te para a direita para não romper no cenário! – Alice mais calma, conciliando.
- Para a direita como? Queres que eu vá para cima do braço da Jimmy? Ou queres que eu te dê um plano igual ao da três? P'ra isso não precisavas de tantas câmaras... Organizem-se! Pensem nestas merdas quando mandam fazer os cenários. Depois vêm para aqui e a gente é que leva com os problemas. Nem um monitor decente pôem aqui no estúdio para podermos ver o final como deve ser... estou farto de foder o juízo ao Escarigo, e nada!
- Ó cinco, qual é a tua? Vá lá, deixa-te de merdas e faz o plano FdP do cabrão do convidado.

Um abraço,
João Salvado

3 comentários:

lc disse...

ahahahahahahah!!!!!!!!!
obrigado por este bom momento! um abraço do LCoelho!

vitor disse...

Guionista,meu amigo. No guionismo está o teu futuro.

litudesco disse...

hahaha!!1Adoro suas crônicas, João!!
Estou em Vancouver BC. Ca, mas sempre curiosa para saber de você!!
Abraço